CRÍTICA – SANEAMENTO BÁSICO, O FILME

CRÍTICA – SANEAMENTO BÁSICO, O FILME

É de impressionar o fato de um filme que teve sua estreia há quase 20 anos ter envelhecido tão bem. Talvez por sua essência cômica ainda ser funcional mesmo nos dias atuais, por sua crítica satírica encaixar perfeitamente à narrativa, pela química do elenco, ou simplesmente pela junção de tudo isso e mais. Saneamento Básico, O Filme já começa com a jogada de metalinguagem logo nos créditos iniciais: uma voz feminina orientando que as pessoas se acomodem em suas cadeiras — o que, a princípio, pode ser entendida como uma instrução às pessoas que estão dentro da sala do cinema, ou seja, nós, os espectadores. Entretanto, logo vemos que se trata de Marina, personagem de Fernanda Torres, falando com um grupo de moradores da pequena e fictícia Linha Cristal, na Serra Gaúcha, que estão chegando para participar de uma assembleia.

Nela, eles discutem sobre a falta de tratamento de esgoto na cidade e decidem ir à prefeitura para reivindicar esse recurso, já que tal indignação coletiva diante de tamanha precarização é completamente justificável. Toda essa questão envolvendo saneamento básico visivelmente não é a maior prioridade do governo local, sendo que a única verba disponível seria para a realização de um concurso de curtas-metragens. A princípio, ainda que desesperançosos com a possibilidade de tal ideia dar certo, eles decidem dar a cara à tapa e começam a realizar um curta de ficção (filme de monstro, segundo sua compreensão), a fim de conseguirem usar o dinheiro para a construção da fossa (ou fosso?) e resolver o problema de uma vez por todas, pois a omissão do Poder Público é a única coisa certa no momento. Eles só não sabiam que essa tarefa ia ser tão difícil…

A metalinguagem nesse caso, isto é, a ideia de um filme sendo realizado dentro de outro filme, é exímia e extremamente bem explorada pelo texto irretocável de Jorge Furtado. Enquanto tantos filmes estadunidenses, que retratam a arte de fazer cinema, são carregados com um grande viés feérico, trazendo em sua abordagem um forte sentimentalismo e esplendor, como The Fabelmans ou Babylon, por exemplo, em Saneamento Básico acompanhamos justamente o contrário – o pulo do gato aqui está nas dores e nas delícias que há por trás de uma produção cinematográfica independente. É perrengue atrás de perrengue! Basicamente, vemos um making of do que seria o chamado “Cinema de Bordas”, que trata de produções realizadas por cineastas autodidatas, muitas vezes em cidades pequenas, periferias ou comunidades, com foco em narrativas que espelhem sua realidade, ou um pouco o contrário disso – narrativas com histórias mais fantásticas, lúdicas, de baixíssimo orçamento. O famoso: “fulano tinha 50 reais e um sonho”. Logo, a autenticidade e brasilidade são a cereja do bolo aqui, uma vez que o humor e personalidade de cada um dos envolvidos na tal produção são extremamente únicos.

Partindo disso, é muito divertido e até engrandecedor acompanhar a capacidade de improvisação de cada um dos envolvidos na produção do longa, já que os personagens dão tudo de si para o projeto avançar, nem que seja na base da “gambiarra”, algo que já faz parte do âmago do Brasil. Atrapalhados, eles passam a entender aos poucos tudo sobre a criação de um filme: roteiro, figurino, gêneros cinematográficos, captação de recursos, caracterização dos personagens, cenário, efeitos especiais, produção, montagem, trilha sonora, direção, e até mesmo dublês. Cada um desempenha um papel fundamental no processo criativo do curta, e há algo muito importante e admirável entre eles: a comunicação. Entre encontros e desencontros de ideias, numa constante oscilação entre alquebrarem-se e animarem-se, eles sempre acabam chegando num consenso, fazendo então as coisas engrenarem. Eles até conseguem barganhar com os donos de certos estabelecimentos, como loja de vinho e de roupas, a fim de conseguirem patrocínio para o filme (o icônico vestido brilhante vermelho de Silene “Seagal” tendo a etiqueta da loja Só Lindezas é o puro suco do humor brasileiro).

A química entre o elenco de Saneamento Básico é surreal: Não seria exagero falar que é um encontro de lendas. Cada personagem tem sua devida relevância na trama, e sua trajetória de amadurecimento. Joaquim (Wagner Moura), por exemplo, é um homem um tanto lerdo, com uma aura inocente e ingênua, mas que está completamente entregue e disposto a ajudar sua parceira na realização do filme, a ponto de se desfazer de um bem material de grande valor pessoal para conseguir o dinheiro necessário para a produção andar. Silene (Camila Pitanga), embora também seja uma jovem um tanto imatura, de personalidade irreverente, também dá tudo de si para entregar a melhor performance em cada cena, a ponto de se dar conta que de fato gostaria de seguir uma carreira de estrela de cinema (seria nossa Pearl latina e menos surtada?).

Fabrício (Bruno Garcia) possui uma personalidade mais contida, excêntrica e naturalmente jocosa, sendo um ótimo personagem de apoio. As cenas dos diálogos entre Otaviano (Paulo José) e Antônio (Tonico Pereira) dão um “respiro” do arco principal, não agregando tanto à trama e sendo um ótimo e bem-vindo alívio em meio a tantos percalços que implicam a produção exaustiva de um “simples” curta de ficção. Zico (Lázaro Ramos) é o montador de filmes mais xavequeiro que veremos numa obra cinematográfica, sendo encantado pela beleza de Silene, ao mesmo tempo em que também se apaixonou genuinamente por todo aquele projeto. Mais do que querer receber o seu cachê, ele queria de fato contribuir e ajudar a entregar o melhor resultado possível, por ser visivelmente um entusiasta de cinema.

Vale ressaltar, inclusive, que Furtado escolhe pincelar certos dramas familiares bem brevemente, e na medida, de modo que o texto não se torna refém de um retrato piegas e ainda assim consegue nos tocar com as breves cenas mais “sérias”, mais emotivas – embora o texto em si já seja triste nas entrelinhas, pois acompanhamos o grande esforço de uma família em dar tudo de si para obter, através da arte, um recurso básico que deveria ser deles por direito, e não o é por mera negligência e descaso da prefeitura. O filme faz questão de relembrar e conscientizar o quão uma rede de esgoto devidamente instalada é essencial para a saúde pública e também para o meio ambiente; afinal, a coleta e tratamento do esgoto evitam a contaminação da água e do solo prevenindo a proliferação de doenças, protegendo a fauna e flora. O tom escolhido para abordar essa adversidade foi o satírico, porém, o longa sempre nos relembra que isso tudo é sobretudo uma questão de dignidade humana.

Ainda sobre o processo do curta-metragem, é um grande barato ver que, aos poucos, eles vão entendendo toda a complexidade que implica fazer um filme, mostrando-nos praticamente um passo a passo do fazer cinema, da maneira mais divertida e irreverente possível. O que a princípio era um estresse, aos poucos torna-se algo de valor aos olhos deles. Pelo fato dos mesmos enxergarem todas aquelas etapas como algo profícuo, que resultará num bem maior, todo o processo criativo da narrativa é aprimorado aos poucos, à medida em que eles passam de leigos a legítimos apreciadores de tudo o que cerca a sétima arte. Um ótimo exemplo disso é a “evolução” de Marina (Fernanda Torres), que logo de cara demonstra ter dotes de uma roteirista de mão cheia, ao tentar transformar sua criatividade na possível resolução de um problema que afeta a todos daquela cidade.

Mesmo que, inicialmente, ela emane agonia e impaciência com todo o processo árduo (isso é bem engraçado, diga-se de passagem), aos poucos, vai entendendo a magia que envolve o cinema. Ela nem sabia que um filme precisaria ser montado – momento esse que, inclusive, é um dos mais hilários do filme. O apego ao projeto cresce de maneira gradativa e involuntária, a ponto de Marina fazer questão de usar uma música específica para a cena de Silene sensualizando na natureza, ainda que isso implique em desembolsar mais dinheiro – àquela altura, o foco nem era somente o fosso em si, mas atribuir valor sentimental àquele curta; ela já estava envolvida e apaixonada pela arte do fazer cinema, algo que transcendeu ao objetivo inicial. Enfim… aquele clichê real do poder da arte embelezar e transformar vidas!

Saneamento Básico, O Filme é duplamente um bom filme. Um longa que extrai e exala brasilidade, humor e originalidade, mesmo quando teria tudo para o clima pesar, ou o humor não soar muito feliz por se tratar de uma crítica (ou até mesmo um alerta, por que não?) do descaso que o Poder Público possa vir a ter com a população. Mas somos brasileiros, e bem como os personagens do longa, na vida real, é bem típico do nosso povo encarar os problemas assim mesmo: levantando, sacudindo a poeira e dando a volta por cima… fazendo do limão uma limonada. Fazendo problema virar arte.


Pôster do filme Saneamento Básico Filme: Saneamento Básico, O Filme
Elenco: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Lázaro Ramos, Bruno Garcia, Paulo José, Lúcio Mauro Filho, Bruno Garcia, Tonico Pereira
Direção: Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado
Produção: Brasil
Ano: 2007
Gênero: Comédia
Sinopse: Uma pequena comunidade do interior do estado do Rio Grande do Sul decide fazer a um filme para tentar resolver os problemas básicos de saneamento que afetam seu povo.
Classificação: 12 anos
Distribuição: Columbia Pictures
Streaming: Netflix, Globoplay
Nota: 8,0

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