CRÍTICA: O ASSASSINO DA FURADEIRA

CRÍTICA: O ASSASSINO DA FURADEIRA

Abel Ferrara é um dos mais respeitados diretores do cinema estadunidense na contemporaneidade. Ao lado de Jim Jarmusch e David Lynch, representam um eco do movimento que ficou conhecido como “a Nova Hollywood”. Essa nova geração de autores, surgida entre o final dos anos 1970 e os anos 1980, radicalizou as mudanças estéticas e narrativas já iniciada nos anos 1960 e 1970. Reivindicando uma abordagem ainda mais autoral – tanto na forma quanto no conteúdo -, promoveram uma ruptura ainda mais profunda com as convenções clássicas do cinema hollywoodiano. Essa liberdade criativa, que apenas parecia uma idealização, tornou-se possível graças à compatibilização com uma lógica de produção artesanal, controlada pelo cineasta autor. o assassino da furadeira.

O Assassino da Furadeira (1979) é o segundo longa metragem de Abel Ferrara e teve um orçamento esdrúxulo de 20.000 dólares (IMBd e outros). Para efeito de comparação, Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese, custou quase 2 milhões de dólares e muitos o consideram como um filme de baixo orçamento. Essa comparação evidencia que a radicalização do cinema independente americano está intrinsecamente ligada ao dilema do financiamento, construindo-se à revelia do sistema. Situado em um contexto marginal de produção e dotado de uma liberdade praticamente insubordinada a qualquer lógica capitalista, Abel Ferrara esculpia sua carreira como cineasta autor ao final da década de 70, guiado por sua visão e obsessões próprias. Forjava, assim, sua trajetória marcada pela rebeldia.

A obra em questão traz o diretor também como o protagonista Reno, um artista pressionado por suas obras inacabadas e contas que se acumulam, fator que constantemente gera desgastes ao seu relacionamento. Em outras palavras, Reno é um fracassado, mas insiste em manter viva sua veia artística, um gesto ambíguo de resistência e ilusão.

Com o tempo, a pressão que Reno sofre se torna insustentável, empurrando-o para um colapso moral e criativo, até que enlouqueça completamente. Após um evento catalisador, o protagonista vagueia pelas ruas de Nova York à noite portando uma furadeira e mata todos que cruzam o seu caminho. Sem dúvidas, as cenas de assassinato são as mais emblemáticas, porque além da ausência de rastro de motivação – o que já é chocante por si só -, são esteticamente impactantes. As mortes acontecem ao som estridente de uma banda de rock tocando, mostrada por meio da montagem paralela, de maneira QUASE síncrona aos golpes da furadeira.

É no “quase” que a cena ganha potência, pois a leve distorção entre som e imagem geram um ruído, uma fratura na forma, que rompe com as expectativas de harmonia, ampliando o desconforto do espectador. Esse incômodo já havia sido instaurado a partir de enquadramentos claustrofóbicos, do temperamento dos personagens e da própria qualidade do som da banda de rock – que além de executado por “músicos” visivelmente amadores, soa como se todos os instrumentos estivessem plugados em um único amplificador. Todos esses elementos conjugados geram uma composição que exala marginalidade, transmitindo o colapso psíquico do protagonista e uma vibe de alucinação induzida – o abuso de substâncias, que também aparece como elemento, concretiza e remete ao imaginário da geração “sexo, drogas e rock’n’roll”.

Essa estética marginal constitui uma marca da radicalização que rompe com as convenções clássicas do cinema estadunidense. Aqui, Abel Ferrara se posiciona como um artista rebelde que, assim como o seu protagonista, luta para sobreviver dentro de um sistema que o exclui e reprime. Há, contudo, uma ironia no fato de que as pessoas executadas por Reno são quase todos moradores de rua – vítimas de uma marginalidade concreta e incontestável. Essa escolha expõe certa ambivalência, em que o protagonista, ao mesmo tempo em que é marginal por escolha ou condição, ataca aqueles que vivem à margem de uma exclusão ainda mais brutal.

No início de O Assassino (1978), a furadeira é um simples objeto, mas sua função transcende a sua utilidade prática e se torna um símbolo fetichista. Em alguns momentos, parece até carregada de vida própria ou como uma extensão do corpo do protagonista, além de portar-se como instrumento de poder e destruição. Nesse ponto, é possível traçar um paralelo com a ideia da mercadoria que impõe um desejo obsessivo, situado em uma lógica de consumo em que o objeto deixa de ser meio e se torna fim – isto é, o objetivo próprio do desejo -, dotado de uma energia autônoma que hipnotiza simultaneamente o protagonista e o espectador – de maneira similar ao que ocorre em Videodrome (1983), de David Cronenberg, e em O Massacre da Serra Elétrica (1974), de Tobe Hooper.

Não há como não remeter essas escolhas — que constituem o itinerário estético e narrativo do filme — a Meteorango Kid – Herói Intergalático (1969), do brasileiro André Luiz Oliveira, cujo enredo se desenvolve em torno de um anti-herói alienado que expressa sua rebeldia também de maneira contraditória. Ambos os protagonistas são frutos do desencanto de uma geração diante de promessas sociais não cumpridas, como justiça, prosperidade e inclusão. Assim, Reno e Meteorango são porta-vozes de um desejo por ruptura, mas acabam por voltar-se contra aqueles que são igualmente – ou até mais – oprimidos do que eles.

Outro exemplo prático de como essa ferramenta transcende sua função utilitária está na maneira como Reno – e, simbolicamente, o próprio Ferrara – executa suas vítimas. Não se trata de mortes diretas e objetivas, mas encenadas com uma ambição estética evidente, convertendo violência em performance. Cada ataque é tão coreografado que o ato de matar se confunde com um gesto artístico. Dessa forma, Reno encontra na destruição a expressão plástica que nunca foi capaz de expressar em sua pintura. As mortes tornam-se sua obra, e a furadeira, seu pincel. E a câmera de Abel Ferrara compartilha da mesma pulsão, tornando-o cúmplice.

A imagem abaixo ilustra o encontro das ambições de Reno e Abel Ferrara, além de conter uma crítica perfeita. A cidade que “vence” o faz à custa da invisibilidade dos corpos descartáveis. Na cena, o gesto teatral reforça a força da morte como expressão artística. A câmera de Ferrara, por meio de uma composição simbólica, estetiza a violência, reafirmando seu papel como cúmplice.

Imagem: No letreiro, os dizeres “New York Wins” remetem ao sonho americano e ao modelo de prosperidade baseada no consumo.

O Assassino da Furadeira (1979) é uma obra que reflete suas condições de marginalidade em relação a um sistema de produção que privilegia narrativas convencionais e estéticas inócuas. Ferrara não somente busca encenar essa marginalidade, como a incorpora à estrutura do filme, em que tudo pulsa em sintonia com sua condição à margem. A precariedade vira estilo, o delírio e o colapso psíquico viram linguagem e a violência, forma de expressão. E o faz sem permitir que o desejo de ruptura se torne um gesto vazio de contestação.


Filme: The Driller Killer (O Assassino da Furadeira)
Elenco: Abel Ferrara, Baybi Day, Carolyn Marz, Harry Schultz
Direção: Abel Ferrara
Roteiro: Nicholas St. John
Produção: Estados Unidos
Ano: 1978
Gênero: Crime, Horror
Sinopse: Um artista vai lentamente enlouquecendo enquanto luta para pagar suas contas, trabalhar em seus quadros e cuidar de suas duas companheiras de quarto, levando-o a tomar as ruas de Nova York após escurecer e matar aleatoriamente os sem-teto.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Rochelle Films
Streaming: Indisponível
Nota: 8,5

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