Quando criança, época em que eu assistia a filmes unicamente através da TV, limitado quase sempre às produções hollywoodianas, lembro-me de estranhar o sem-número de motéis existentes à beira da estrada nas películas norte-americanas – tal como o icônico Bates Motel, de Psicose. Apenas na idade adulta, vim a descobrir que motel, nos Estados Unidos, não possui o mesmo sentido dado ao termo no Brasil, tratando-se de um pequeno estabelecimento de hospedagem ao qual se recorre em situações de longas viagens.
Amplamente difundido socialmente, a ponto de ser a principal instituição voltada para a prática do sexo no país, o motel permanece pouco explorado nas telas do cinema nacional – exceções são os longas Entre Lençóis (2018) e o recente Motel Destino (2024). Nas raras vezes em que se faz presente, o motel costuma ser retratado como um ambiente em que a prática sexual assume uma atmosfera proibida, pecaminosa num sentido mais moralista. Dirigido pela britânica naturalizada brasileira Rachel Daisy Ellis, o surpreendente documentário Eros chega para preencher algumas das lacunas em torno da representação cinematográfica desse espaço cuja presença é tão marcante em nosso imaginário coletivo – afinal de contas, quem nunca foi ou já teve a curiosidade de ir a um motel?
Com uma proposta de mise-en-scène notadamente ousada e criativa, Eros chamou a atenção de todos ao estrear no XV Janela Internacional de Cinema do Recife, em 2024. O autorregistro da intimidade em plena alcova da luxúria, feito por pessoas comuns como você e eu, provavelmente é algo inédito no audiovisual brasileiro. Ao conceder a câmera a personagens de carne, osso e desejo, despidas de qualquer receio de julgamento social enquanto se filmam, a diretora faz um exercício similar àquele realizado por Aloysio Raulino em Jardim Nova Bahia (1971) e Paulo Sacramento em O Prisioneiro da Grade de Ferro (2003).
Uma vez que o olhar externo de Rachel não media o acesso do espectador às imagens mais cruas e espontâneas dessa práxis de registro fílmico, particularmente àquelas de teor mais explícito, o fetiche em jogo fica restrito à dimensão da busca mútua e consentida do prazer. Afasta-se, com isso, a ameaça da fetichização vulgar dos corpos em cena, coisa que costuma acontecer quando o sexo não traz uma verdade ontológica consigo, resumindo-se à condição de ato encenado com fins artísticos e/ou comerciais.
É simplesmente delicioso assistir a pessoas tão variadas em suas características sociais imediatas (idosos, gays, evangélicos, héteros, jovens, trans, bissexuais, introvertidos etc.) revelando muito mais do que seus próprios corpos. Ainda que não perfeitamente abrangente – por questões de recuo na permissão de uso das imagens, foi preciso deixar de fora do corte final a sequência com mulheres lésbicas -, a pluralidade vista em Eros faz do documentário uma legítima gramática contemporânea das percepções sobre a vivência da sexualidade. Mais do que a prática sexual em si, é evidenciado um interesse genuíno desses indivíduos em refletir acerca da experiência social do sexo, algo que rende momentos bastante espirituosos.
Chega a ser paradoxal que uma estrangeira tenha compreendido, de maneira tão instigante, o motel como essa espécie de microcosmo de nossa sociedade, capaz de reverberar, portanto, aspectos muitas vezes contraditórios e ambíguos, porém igualmente definidores da identidade brasileira – hoje, esta encontra-se cada vez mais multifacetada face à diversidade cultural do país, processo que decorre da intensificação do intercâmbio de subjetividades. Nesse sentido, em que pese o avanço crescente da pauta conservadora, sobretudo na esfera dos costumes, é possível antever uma frustração generalizada por parte dos extremistas que adoram zelar pela salvaguarda anal alheia, porquanto ser pouquíssimo provável haver uma derrocada do motel como instituição-mor do prazer no país.
Se, aos olhos de muitos, o motel é tido como um espaço propício à consumação de toda sorte de impurezas carnais, Eros destaca esse mesmo local como o único no qual muitos conseguem libertar-se por completo das amarras tolhedoras de desejos e quereres. Na companhia de alguém escolhido para estar ali, ou mesmo sozinhas, essas pessoas, por algumas horas, expõem o seu íntimo físico e existencial em toda a sua plenitude, num gesto que, em última instância, as exibe como elas são verdadeiramente.
Ao acessar essa dimensão dionisíaca da vida costumeiramente guardada a sete chaves no dia a dia, Rachel Daisy Ellis imprime ao seu filme um tom retumbante que ela dificilmente poderia prever na gênese do projeto. Eros constitui-se, por assim dizer, uma respeitável aula de como fazer cinema na contemporaneidade, recorrendo-se tanto à imaginação fílmica quanto à disposição para ver/ouvir com inquietude e discernimento o que suas personagens (fictícias ou não) têm a dizer diante das câmeras.
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Filme: Eros Direção: Rachel Daisy Ellis Roteiro: Rachel Daisy Ellis Produção: Brasil Ano: 2024 Gênero: Documentário Sinopse: O filme EROS acessa a intimidade vivenciada na maior instituição erótica do Brasil: o motel. Pessoas frequentadoras foram convidadas a se filmar durante uma noite e compartilhar os seus vídeos para fazer parte de um filme. Classificação: 18 anos Distribuidor: Fistaile Streaming: Indisponível Nota: 8,0 |

