CRÍTICA – DORMIR DE OLHOS ABERTOS

CRÍTICA – DORMIR DE OLHOS ABERTOS

A coprodução BrasilTaiwan –  AlemanhaArgentina, Dormir de Olhos Abertos, da diretora alemã Nele Wholatz, possui uma bela rima semântica entre seu enredo e sua realização. Um multiculturalismo estridente que cerca tanto o modo pelo qual o filme foi concebido (com integrantes de diversos países e idiomas), como a situação em que se encontra a protagonista carismática Kai, de Chen Xiao Xin, que, numa viagem para Recife, acaba por lá se estabelecer e imerge numa rotina de perambular.

É interessante pensar que, assim como Kai simplesmente acata esse modo nômade de viver, e com isso passa a desencontrar-se de si mesma passando longe de saber o que sentir, o próprio longa não estabelece um gênero próprio. Não há uma busca por algum romance, ou por comicidade ou suspense. Há simplesmente a vontade de se encontrar e de se validar; tentar sentir algo que não pode ser encontrado pois está adormecido – acontece que, como imigrante, Kai não consegue mais canalizar a parte de si que é composta pelo seu país de origem, e muito menos se adequar aos costumes locais da sua nova cidade.

Recife é retratado de uma forma muito particular pelas lentes de Wholatz. As belezas orgânicas da capital pernambucana são palco de uma jornada de vazio, de não ter um lar para chamar de seu. E os planos abertos e sóbrios do fotógrafo Roman Kasseroller permitem essa imersão seletiva, onde parecem haver dimensões que tanto acolhem como afastam Kai. O oceano atlântico e o Rio Capibaribe, vastamente fotografados, são divisores de água marcantes e duais; mesmo sendo espelhos d’água encantadores, estão ilhando e cercando possibilidades para além do horizonte.

Kai penetra numa célula de feirantes chineses, costumeiros nas feiras do centro de Recife, onde passa a conviver e compartilhar dessa sensação de ter um lar físico, mas não um que lhe completa afetivamente. Esse encontro é importante para que possamos conhecer um pouco essa posição de que as constantes mudanças e deformações no capitalismo global afetam a lembrança dos espaços e desconfiguram a memória coletiva, isso quando não os inviabilizam e sufocam a ponto de que se perca espaço na sua própria terra – e um pilar importante da sua identidade cultural passe a conviver com rachaduras. “A China cresce muito rápido. Cada vez mais há novos arranha-céus, acho que nem irei mais reconhecer lá depois que voltar”, diz um dos feirantes chineses desamparado.

Ao longo do vai-e-vem e dos silenciosos turbilhões enfrentados, o ritmo do longa faz jus ao desamparo generalizado e enfrenta uma esperada falta de rumo. Dentre os blocos, há a tentativa de algumas subtramas (se é que podemos dizer que há trama), como a da funcionária do prédio e de um caso de corrupção de um dos vizinhos que é dono de uma empresa corrupta. Contudo, soam apenas como comentários pouco amarrados, uma vez que não há uma linha argumentativa clara a ser seguida. A diretora está muito mais interessada em gerar sensações do que uma trama mais lógica – desse pressuposto, uma das melhores cenas acontece, quando dois vizinhos indesejáveis fantasiados invadem o apartamento em que Kai e sua comunidade vive. Tudo é tão espontâneo e guiado por uma música tão intrigante, que formam um momento indiscutivelmente raro e único.

Oferecendo um ponto de vista único do nosso país, a jornada através da ótica de imigrantes chineses numa metrópole como Recife é uma oportunidade de conhecermos melhor a vasta quantidade de países que cabem dentro do Brasil. Construído a partir da observação de um cotidiano atípico de personagens tentando encontrar seu lugar, seja no silêncio em meio a multidões ou em perguntas sutís como “qual o fuso-horário dentro de você?”, Dormir de Olhos Abertos é um belo longa que não impacta, mas que passa sensações únicas.


Pôster do filme Dormir de Olhos Abertos Filme: Dormir de Olhos Abertos
Elenco: Chen Xiao Xin, Wang Shin-Hong, Liao Kai Ro, Nahuel Pérez Biscayart, Lu Yang Zong
Direção: Nele Wohlatz
Roteiro: Nele Wohlatz, Pío Longo
Produção: Alemanha, Argentina, Brasil, Taiwan
Ano: 2024
Gênero: Comédia, Drama
Sinopse: Em uma cidade costeira do Brasil, Kai descobre a história de Xiaoxin e percebe estranhas semelhanças com sua própria vida.
Classificação: 12 anos
Distribuidor: Vitrine Filmes
Streaming: Não disponível
Nota: 7,5

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