Qualquer um se assusta com a proximidade de um animal tão assustador quanto um tubarão, principalmente quando não se sabe se corre perigo, uma vez que não entendemos como eles pensam. Porém, eles de longe não são a maior ameaça. Em Animais Perigosos, de Sean Byrne, somos apresentados ao grande perigo para a espécie humana: ela própria. Com uma fotografia que corrobora para uma sensação claustrofóbica, o terror de um tubarão nem se aproxima do que está muito mais perto em terra firme, e pode estar à espreita a qualquer momento.
Mesmo sendo previsível que o grande terror do filme não seriam os tubarões em si, a forma em que é apresentado é muito bem feita, criando uma apreensão desde o início do longa. Com uma narrativa superficialmente comum, não deixa de surpreender com sua abordagem. A personalidade do antagonista não se assemelha a de outras obras desse estilo, com a grande finalização de seus atos vindo realmente daqueles que ele mesmo idolatra durante a história: os tubarões. Divergindo da maioria dos serial killers ou dos famosos filmes de tubarão, esses dois “predadores” colaboram para construir a atmosfera desconcertante do filme, em uma dicotomia entre o grande mar aberto e o aprisionamento do navio, na qual os dois cenários, mesmo que distintos, trazem a mesma sensação, a de prisão.
Inovando nesses dois subgêneros em que se aventura, não deixa de se aproveitar das características clichês de ambos. A tensão com o tubarão ou até mesmo a preferência de Bruce (Jai Courtney) por vítimas femininas são semelhanças claras que a obra usa para fazer o público refletir sobre a forma que o conceito de predador pode ser o mesmo independente da espécie a que se refere. Assim como o tubarão ataca, o personagem de Courtney não iguala suas vítimas, raptando mulheres com vivências muito distintas e dando a elas o mesmo fim, satisfazendo a si próprio ao acreditar que é o topo da cadeia alimentar, assim como o animal com que ele lida.
Além disso, a obra também conta com diversos momentos em que se deve abstrair da realidade, principalmente no que se diz respeito aos tubarões. Apesar de tudo, a protagonista Zephyr (Hassie Harrison) consegue se estabelecer bem como o estereótipo de final girl que filmes desse tipo possuem. Com um instinto de sobrevivência bem mais brutal, o ponto alto do longa é justamente quando os papéis se invertem, e ela deixa de ser a presa para se tornar a predadora. Ademais, seu interesse romântico – que apesar de não ter tido tempo de ser muito desenvolvido, fica claro que é esse espaço que o personagem ocupa – ironicamente não é nem um pouco aprofundado, assim como grande parte de personagens femininas em filmes nos quais o protagonista masculino também tem que escapar de uma situação de vida ou morte. Em uma interessante subversão desses arquétipos, o homem depende dela para ser salvo, sendo genuinamente até descartável para a narrativa como um todo.
Entretanto, as diferentes proposições que o filme explora não são o suficiente para torná-lo uma obra excepcional. De fato possui características interessantes, mas não as explora o bastante. Um grande trabalho acerca dessa perspectiva de um homem como o próprio predador de sua espécie se perde em um final que se preocupa mais com uma imagem heroica da protagonista do que realmente refletir sobre o que se constrói durante o longa. Uma das poucas cenas que realmente explora o animal perigoso que Bruce é acontece no momento em que, mesmo dopada, Zephyr prefere pular na água e fugir nadando, sabendo que está prestes a desmaiar, do que ficar no barco com ele. De modo simples e rápido, expõe com clareza o desespero para escapar, algo que reverbera muito mais quando se é uma mulher presa por um homem desconhecido. Contudo, esse sentimento agonizante acaba não sendo tão explorado como poderia.
Portanto, Animais Perigosos possui uma narrativa próspera, mas que, para muitos, pode não alcançar toda sua complexidade. Ao meu ver, faltou certa coragem de construir um final condizente com a aterrorizante ideia de não apenas ser sequestrada, mas ter seu fim graças a um dos grandes predadores marinhos. Por isso, mesmo sendo um filme tenso, não se compara ao terror muito mais palpável que é, como mulher, ter que escolher entre a presença de um tubarão faminto e um homem perigoso.
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Filme: Animais Perigosos Elenco: Hassie Harrison, Jai Courtney, Josh Heuston, Ella Newton, Liam Greinke, Rob Carlton, Ali Basoka Direção: Sean Byrne Roteiro: Nick Lepard Produção: Canada, EUA, Austrália Ano: 2025 Gênero: Suspense, Terror Sinopse: A surfista Zephyr é sequestrada por um assassino em série obcecado com tubarões e precisa dar seu jeito de escapar em alto-mar. Classificação: 18 anos Distribuidor: Diamond Films Streaming: Indisponível Nota: 6,0 |

