O Agente Secreto: entre o passado e a imagem
Exatamente um ano após a estreia de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, O Agente Secreto, novo longa de Kleber Mendonça Filho, chega aos cinemas. Embora desloque a narrativa da capital fluminense para o estado de Pernambuco, o filme tem sido constantemente comparado, com ênfase nas semelhanças, ao único vencedor brasileiro do Oscar de Melhor Filme Internacional. Assim como o título de Salles, O Agente Secreto se passa no Brasil dos anos 1970, período marcado pela ditadura militar. Além disso, a obra transforma o retrato histórico em cenário para uma experiência que se constrói como exercício de memória — atravessada pela lembrança, pela subjetividade e pelo uso do arquivo. Diante disso, nota-se que as comparações extrapolam o campo do conteúdo, estendendo-se aos aspectos das suas formas e se consolidando no “coincidente” sucesso na temporada internacional de premiações. Por isso, há grande expectativa de que um novo filme brasileiro volte a adquirir uma estatueta no Oscar.
Em O Agente Secreto, Marcelo (Wagner Moura) é um homem de 40 anos que trabalha como professor especializado em tecnologia. Dono de um passado violento e enigmático, foge de São Paulo e tenta recomeçar a vida em Recife. No entanto, em pouco tempo percebe que atraiu para si todo o caos do qual ele sempre quis sair. O Agente Secreto é um thriller conspiracionista, baseado em intrigas políticas e segredos de Estado, que incorpora elementos do cinema americano e italiano dos anos 70 – ou, mais precisamente, do encontro entre essas duas tradições cinematográficas – evocando figuras como David Locke, o jornalista interpretado por Jack Nicholson em Profissão: Repórter (The Passenger), de Michelangelo Antonioni. Assim como no filme do diretor italiano, Marcelo assume uma nova identidade a partir de um gesto de fuga, da tentativa de apagar o seu passado e escrever uma nova história. No entanto, o encontro com um cadáver, logo no início do filme, converte a promessa de um recomeço em uma atmosfera paranoica, em que as forças das quais o personagem busca se desvencilhar continuam a persegui-lo.
A paranoia e a violência
Tanto o drama político quanto suas raízes no cinema ítalo americano contribuem para a construção de um mesmo princípio: a violência como força que estrutura a encenação. Entretanto, na maior parte do tempo, a violência apenas se insinua como uma presença invisível que persegue o protagonista, mas não é confrontada diretamente. O aparecimento de um cadáver e uma perna encontrada dentro de um tubarão sugerem um perigo iminente e a existência de um inimigo à espreita. Com poucas informações que o filme fornece, isso é suficiente para promover a tensão e deixar o espectador aflito. Porém, há uma dimensão dessa violência que extrapola seu aspecto ficcional, do suspense. Nesse sentido, Carolina Hallal pontuou que essa opressão atua como o principal mediador das relações sociais no filme – assim como na realidade de Pernambuco e do Brasil da década de 1970. O problema da violência, inclusive aquela praticada pelo Estado, ajuda a construir um ambiente paranoico, em que a confiança entre as pessoas se desfaz e toda relação é potencialmente ameaçadora – do vizinho que observa ao policial corrupto que emprega uma violência ainda mais direta.
A lembrança como dispositivo fílmico
O Agente Secreto é narrado sob a perspectiva de Flávia (Laura Lufési), uma universitária particularmente interessada no caso do Marcelo. A partir dessa relação entre a estudante e a história do protagonista, a obra é apresentada como um exercício de memória. A reconstrução de Recife, intermediada por Flávia, se dá por meio de artigos de jornais, conversas gravadas em fitas magnéticas e em registros oficiais da época. A reconstituição visual de Recife dos anos 1970 é impecável, baseando-se nas memórias de Kleber Mendonça Filho, que, nascido em 1968, afirma lembrar com riqueza de detalhes da sua cidade natal. A direção de fotografia, comandada pela russa Evgenia Alexandrova, empregou duas câmeras digitais para garantir maior flexibilidade nas filmagens, utilizando equipamentos que permitissem reproduzir fidedignamente na pós-produção a textura da película. Isso traz um aspecto nostálgico – voltaremos a falar sobre esse assunto – , atmosférico e historicamente preciso.
Entretanto, não se pode afirmar que esse exercício de memória é perfeito, sem fissuras. Há diversas elipses, que resultam na omissão de informações relevantes sobre a história, inclusive sobre o fim do protagonista Marcelo. Essa leitura se relaciona muito bem com a ideia proposta por Arthur Tuoto, de que a obra se apresenta como uma “experiência de memória falha”, em que as lembranças são fragmentadas e os cortes para o presente demonstram a instabilidade do processo de recordação. Essas elipses (narrativas, semânticas ou históricas) surgem em função de vários fatores, como da censura e da supressão de arquivos para ocultar crimes violentos – o protagonista Marcelo, lotado no instituto de identificação, não consegue encontrar um documento que prove a existência de sua própria mãe. Como menciona Tuoto, a lenda urbana da Perna Cabeluda – usada pelos jornais regionais como preenchimento de espaço quando reportagens sobre violência e política eram censuradas – se torna um grande elemento simbólico nesse contexto. A cena no parque à noite representa a ruptura com um olhar mais objetivo e desestabiliza a narrativa, permitindo que o imaginário preencha a lacuna deixada pela ausência de registros, ao mesmo tempo que serve de metáfora para a onda de violência e de crimes não investigados durante a ditadura militar.
O coletivo em cena!
Diante disso, é nessa característica de memória que residem as principais comparações com Ainda Estou Aqui. Mas enquanto no filme do Walter Salles toda essa dimensão de memória – marcada pelas lacunas e pela tentativa de reconstrução – assume um caráter mais particular ou familiar, concentrada no drama vivido por Eunice Paiva, sobre quem recai toda a carga emocional do filme, e seus filhos, em O Agente Secreto essa carga é necessariamente compartilhada pelo coletivo. O dispositivo móvel em Kleber, em contraponto à câmera quase inerte de Walter Salles, dissolve a dor individual no corpo coletivo, transformando a memória em um movimento vivo de partilha – um fluxo afetivo que extrapola as relações familiares mais imediatas e envolve personagens extremamente marcantes, como os refugiados, em destaque a Dona Sebastiana (Tânia Maria). Daí, ganha importância a relação de Kleber Mendonça Filho com o seu elenco, marcada pela repetição de parcerias, além de Tânia Maria, com Rubens Santos (O Som ao Redor, 2012), Thomas Aquino e Udo Kier – ambos de Bacurau, 2019. É notório como o amadurecimento dessa parceria do diretor com os seus atores traz uma maior organicidade e densidade nas interações em cena, reforçando o caráter coletivo que sustenta a sua obra.
O cinema que lembra de si mesmo
Essa memória coletiva está inscrita nos corpos e rostos dos personagens, mas também no próprio gesto de filmar, acionando uma lembrança das sensibilidades cinematográficas que moldaram e continuam a inspirar o olhar de Kleber Mendonça Filho. Entre os ecos mais óbvios estão Tubarão (1975), de Steven Spielberg, e O Exorcista (1973), de William Friedkin, cujas presenças se fazem tanto de maneira explícita quanto a partir de uma reminiscência afetiva de um certo imaginário raro do cinema de gênero. Já Seu Alexandre (Carlos Francisco), sogro do Marcelo e projetista em um cinema de rua, evoca o apelo nostálgico de Cinema Paradiso (1988) pela ternura com que Kleber filma a relação entre o homem e o ofício da projeção – com a mesma ternura que, na cena final, representa as lembranças da infância de Fernando (Wagner Moura), filho do protagonista. A essas referências, somam-se o já citado Profissão: Repórter (1975), A Conversação (1974) e Despertar dos Mortos (1978). E cada uma dessas referências cumpre sua função narrativa ou afetiva, como fragmentos de uma memória do cinema sobre si mesmo.
A ausência como o último gesto
Porém, há momentos em que a narrativa em forma de memória colide com a brutalidade concreta, sugerindo a presença do espectador sem intermediários. É nesse momento em que a violência irrompe em sua maneira mais direta, numa crescente da tensão rumo ao clímax. Ou seja, quando a lembrança cede lugar ao impacto, o filme encontra o seu ponto mais alto: a sequência da perseguição final. [SPOILER] Kleber Mendonça filma o confronto por meio de uma consciência coreográfica do espaço e do som, em que cada corte e/ou alteração na música elevam o estado de inquietação e expõe a vulnerabilidade dos corpos em cena. E nesse pico de tensão, surge uma nova fissura: o filme é interrompido. Não vemos Marcelo morrer, mas sabemos de sua morte por meio de uma notícia no jornal, com o corpo estendido no chão – da mesma forma que o cadáver mostrado no início. Essa ausência do evento central, reafirma que o filme não é sobre o acontecimento em si, mas sobre a impossibilidade de testemunhá-lo plenamente. Novamente, o filme reforça seu caráter de “experiência de memória falha”, mostrando como a violência no Brasil insiste em atravessar a memória coletiva, tema que é central na obra de Kleber Mendonça Filho.
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Filme: O Agente Secreto Elenco: Wagner Moura, Tânia Maria, Maria Fernanda Cândido, Udo Kier, Gabriel Leone, Thomas Aquino, Hermila Guedes, Rubens Santos. Direção: Kleber Mendonça Filho Roteiro: Kleber Mendonça Filho Produção: Brasil/França/Holanda/Alemanha Ano: 2025 Gênero: Policial Sinopse: O Agente Secreto se passa no Brasil de 1977, onde Marcelo (Wagner Moura), um homem de 40 anos que trabalha como professor especializado em tecnologia, sai da movimentada São Paulo e vai para Recife. Ele tenta fugir do seu passado violento e misterioso, com a intenção de começar uma nova vida. Ali, ele chega na semana do Carnaval, então logo a paz e a calmaria da cidade vai se esvaindo, e com o decorrer do tempo percebe que atraiu para si o caos do qual ele sempre quis fugir. Para piorar a situação, além de Marcelo estar sendo espionado pelo seus vizinhos, vê que a cidade que achou que o acolheria ficou muito longe de ser o seu refúgio. Classificação: 14 anos Distribuidor: Vitrine Filmes e MK2 Films Streaming: Indisponível Nota: 7,5 |


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