CRÍTICA – CYCLONE

CRÍTICA – CYCLONE

Ser mulher não é fácil! Em Cyclone, dirigido por Flávia Castro, essa afirmação ganha ainda mais veracidade quando acompanhamos a vida de Dayse, e nos lembramos que sua dura realidade foi somente uma das muitas daquele passado — e também do nosso presente. O longa foi inspirado nas vivências de Maria de Lourdes Castro Pontes, a Miss Cyclone, que foi uma figura histórica real, e possui uma direção louvável que somente um olhar feminino poderia alcançar.

Apesar de, por vezes, haver um teor de uma “quase biografia”, há uma delicadeza ímpar na condução de Cyclone. Flávia foge dos clichês  comuns a esse estilo de roteiro, e é muito consciente e sensível ao que busca explorar, de modo que as aspirações de Dayse se tornam palpáveis ao espectador, enquanto há um olhar contemporâneo sobre um passado não tão distante. O filme não tem pressa em nos apresentar àquele universo da personagem: seus amigos, seu trabalho e suas paixões. E sobretudo ao fato de ela ser uma mulher determinada a realizar seus sonhos.

O filme consegue evidenciar, na medida certa e sem cair em métodos forçados, o quão aquela São Paulo de mais de um século atrás era opressora com os direitos das mulheres: vemos Dayse ter seu direito de viajar para outro país sendo negado, precisando de uma autorização de um “homem de autoridade” — seja marido ou pai —, e também ser privada da autonomia do próprio corpo, ao não querer tornar-se mãe. É no mínimo revoltante, ainda mais por ainda vermos manchas dessa estrutura repugnante com as mulheres até hoje. Mesmo se vendo encurralada, é admirável a maneira como ela não se deixa depauperar diante desses percalços constantes. 

Algo que o filme somente pincela vez ou outra — e que teria sido muito bem-vindo para entendermos ainda mais da paixão da protagonista pela arte do teatro —, são justamente as cenas de seus colegas em cena, que vão se esgueirando pelo fato do filme seguir um outro rumo mais… sombrio. Ainda no início, por exemplo, há um número musical maravilhoso, que deixou um “gostinho de quero mais”. É compreensível que o foco aqui seja o teor dramático e histórico, mas aprofundar-se ainda mais no universo artístico que Dayse abraça, teria sido um grandioso trunfo do roteiro.

Cyclone me remeteu muito a outro filme de temática parecida: O Acontecimento (2021). Fica a dica, aliás. Ambos retratam tempos mais antigos, nos quais os direitos das mulheres eram ainda mais restritos; mulheres com ambições grandes de trabalho e estudo, que vêm seu futuro sendo ameaçado por uma gravidez indesejada; determinação em lutar pela liberdade de decisão; aborto clandestino. Entretanto, enquanto o filme de Audrey Diwan é mais visceral quanto ao aborto em si, Cyclone escolhe ser mais “sutil”, no sentido de ser mais voltado aos conflitos internos da personagem ao lidar com a vontade de querer retirar o feto.

É até contraditório perceber que Cyclone transita entre uma aura soturna e terna ao mesmo tempo. É como se a esperança da protagonista em atingir seus sonhos resplandecesse a obra, tornando-se a âncora da narrativa. Há uma beleza até parisiense no estilo da fotografia e na ambientação, como se o sonho dela a estivesse cercando subliminarmente. Há momentos mais contemplativos, nos quais os planos se concentram em captar as emoções de Dayse tendo o silêncio e as luzes baixas como embelezamento poético. Nesse sentido, a atuação exímia de Luíza Mariani é extremamente fiel ao que o filme propõe — contida e intensa, com as devidas nuances que sua personagem pede.

Justamente pelo longa evidenciar a personalidade determinada da operária, há uma situação envolvendo Heitor Gamba, dramaturgo e diretor com quem ela acaba tendo um caso secreto, que, honestamente, pode deixar um dissabor aos espectadores mais “ávidos por justiça”, digamos assim. Isso porque a conclusão de um acontecimento deste patamar acaba sendo plena demais (“olha o que ele te fez! Reage!”). Uma licença poética para deixar a reação de Dayse ainda mais emblemática seria muito bem colocado, uma vez que a vemos sofrer tanto ao decorrer do longa. Mas é fato: à essa altura, o título Cyclone nunca fez tanto sentido.

O grande mérito do filme é justamente buscar amalgamar passado e futuro num ponto que conflui sempre para um problema social e histórico a ser consertado — ainda que engatinhando — sem usar a moralidade como base. O ponto é refletir e trazer à luz que direitos básicos não devem ser restringidos por questão de gênero, enquanto nos apresenta a história de uma trabalhadora e artista inspiradora. Cyclone é uma obra recheada de profundidade emocional e sensibilidade ao retratar a força e vulnerabilidade de uma mulher à frente do seu tempo.


Filme: Cyclone
Elenco: Luíza Mariani, Eduardo Moscovis, Karine Teles, Luciana Paes, Magali Biff, Ricardo Teodoro, Helena Albergaria, Rogério Brito
Direção: Flávia Castro
Roteiro: Rita Piffer
País: Brasil
Ano: 2025
Gênero: Drama
Sinopse: Uma jovem operária e dramaturga ganha uma bolsa para estudar teatro em Paris, mas se vê tendo que enfrentar dificuldades para realizar seus sonhos sendo mulher naquela São Paulo dos anos 1919.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Bretz Filmes
Streaming: Indisponível 
Nota: 7,0

 

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