Veteranos com quase cinco décadas de vivência na sétima arte, os irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne retornam às telas com o drama Jovens Mães, que reafirma o seu estilo autoral sustentado no realismo social focado em personagens ligadas a segmentos vulneráveis e/ou marginalizados da sociedade. Ganhador do Prêmio do Júri Ecumênico e de Melhor Roteiro no último Festival de Cannes, o longa-metragem aborda o fenômeno da maternidade precoce na adolescência a partir da rotina de jovens acompanhadas por uma espécie de instituição-abrigo instalada na cidade de Liège.
A instituição é real — e deveria servir de modelo para qualquer país civilizado; já as cinco jovens mães que dão título ao filme — Perla (Lucie Laruelle), Ariane (Janaina Halloy Fokan), Jessica (Bebette Verbeek), Julie (Elsa Houben) e Naïma (Samia Hilmi) — são interpretadas por atrizes profissionais que conferem impressionante veracidade à encenação, a ponto de desnortear a percepção do espectador, fazendo-o, talvez, acreditar que está assistindo a uma obra que lida, de maneira ficcional, com a história de vida de mulheres reais — sim, isto aconteceu comigo.
Essa capacidade de mimetizar as vivências do mundo real se deve, sobretudo, ao fato de a dupla de cineastas recusar o uso de artifícios da gramática cinematográfica que buscam o excesso, a grandiloquência do impacto em cada plano e/ou cena, recursos estes que facilmente aproximariam o seu trabalho do melodrama; nesse sentido, a inexistência de trilha sonora extradiegética para ditar as emoções do público serve de exemplo perfeito desse purismo dardennista quanto à construção de uma mise-en-scène naturalista, a qual faça o espectador não apenas sentir-se imerso na narrativa, mas, também, e mais importante, fazer com que tome aquela(s) história(s) como pertencente(s) ao seu próprio cotidiano, gerando, assim, um processo empático frente às personagens e situações vividas por elas.
Dentre as escolhas técnicas e estéticas que consagraram o cinema dos Dardenne, destaque seja dado à câmera obsessivamente próxima da ação, que intensifica e amplifica o drama silencioso suportado, com tons de resignação, por cada uma daquelas adolescentes. Suas trajetórias, marcadas por microtragédias pessoais envolvendo violência doméstica, dependência química, abandono pelo genitor ou pela família e o dilema da entrega responsável do bebê para adoção, denotam a resiliência de quem optou por não se render face às adversidades impostas por uma gestação não planejada. Por conseguinte, a proximidade da câmera se configura, neste caso, como uma escolha de nuances deliberadamente políticas, que permite apreender a dualidade de sentimentos daquelas “crianças” agora cuidadoras de outra criança, uma alternância entre o ímpeto para a proteção de quem a requer e o desejo de escapar ao caos daquele contexto.
Vale olhar para Jovens Mães com uma certa dose de reverência, reconhecendo-se a pertinência temática deste trabalho e o cuidado dos Dardenne em abordar empaticamente uma questão tão cara à realidade psicossocial de tantas mulheres precocemente mães. Cabe, igualmente, ser crítico em relação ao desenvolvimento da narrativa, notadamente o calcanhar de Aquiles da obra. A despeito de seu virtuosismo, a superficialidade psicológica das protagonistas e a maneira como a montagem organiza em blocos paralelos os acontecimentos termina por enfraquecer o peso de cada um desses arcos pessoais, tornando-os difusos em seus significados particulares. Mais do que a incipiência de tempo de tela, isso tende a gerar no espectador o sentimento de que as histórias daquelas jovens se confundem entre si, o que dificulta, por extensão, o seu envolvimento emocional com cada uma delas.
O novo longa dos Dardenne, em cartaz nos cinemas, inegavelmente reflete o estilo de seus realizadores, bem como o pleno domínio na manipulação dos elementos da linguagem cinematográfica. Ao contrário de filmes anteriores, sobretudo do excelente Dois Dias, Uma Noite, em que a trama se foca em uma personagem, em Jovens Mães a dispersão da narrativa, desenvolvida em tom quase documental, promove um distensionamento do drama numa escala tal que, apesar da força interna potencialmente apresentada por cada história isolada, pouco há com que se importar, de fato, em relação às trajetórias das adolescentes, cujo desfecho, ainda por cima, é bastante previsível.
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Filme: Jeunes mères (Jovens Mães) Elenco: Lucie Laruelle, Janaina Halloy Fokan, Bebette Verbeek, Elsa Houben e Samia Hilmi, Günter Doret, Christelle Cornil, India Hair, Jeoly Mbundu, Claire Bodson e Selma Alaoui Direção: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne Roteiro: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne Produção: Bélgica e França Ano: 2025 Gênero: Drama Sinopse: Cinco jovens mães que moram em um abrigo estão lutando por um futuro melhor para si e para seus filhos, apesar de suas origens difíceis. Classificação: 16 anos Distribuidor: Vitrine Filmes Streaming: Indisponível Nota: 5,5 |

