CRÍTICA – EXTERMÍNIO: O TEMPLO DOS OSSOS

CRÍTICA – EXTERMÍNIO: O TEMPLO DOS OSSOS

Se fizéssemos uma aposta, nunca apostaria que iria frequentar o cinema para testemunhar uma nova trilogia da franquia Extermínio. Outra é ver o retorno de Danny Boyle na direção do terceiro longa-metragem dessa nova fase. E ainda com uma excelência que abraça todas as qualidades do primeiro título e agregando muitas outras nessa continuação. Aliás, ambos os filmes contam com críticas aqui no site — Extermínio 1 / Extermínio: A Evolução.

Será que esse quarto título segue a mesma maldição que o segundo longa-metragem? Será que consegue continuar algo que funcionou muito bem, apesar de um roteiro que mantém uma abertura muito declarada de continuidade? Digo isso, pois Danny Boyle faz a abertura dessa trilogia, e, nesse novo título de continuação, mantém-se Alex Garland no roteiro, mas é Nia DaCosta que abraça a responsabilidade da direção. E por mais que o saldo não seja tão bom quanto o terceiro título, não é amaldiçoado como o segundo longa-metragem.

A narrativa é repartida em dois núcleos: num acompanhamos o protagonista do título anterior Spike (Alfie Williams) em sua jornada com o grupo liderado por Sir Jimmy Crystal (Jack O’Connel) e seus seguidores que são chamados de Dedos — todos são também variações do nome Jimmy. Seguidores do Velho Nick, Jimmy Crystal é a criança do prólogo do terceiro título, que agora retorna como um fanático satanista distorcido por vozes internas, que ele identifica como o próprio Diabo, dando-lhe ordens para continuar seu reinado de malignidade pela terra. Um grupo clássico e clichê de psicopatas do subgênero de zumbis que são piores que os próprios infectados.

O outro núcleo é a continuação da narrativa do Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes), sua jornada que não é mais tão solitária por buscar aprofundar sua relação com o infectado alpha Sansão (Chi Lewis-Parry) e uma espécie de encontro com uma possível cura para o vírus, que exterminou a sociedade padrão inglesa vinte oito anos atrás.

Nia DaCosta abraça o roteiro de Alex Garland, que visa seu equilíbrio de ritmos e propostas através das transições entre os núcleos, contrastando-os e visando uma perspectiva que busca essa sensação dicotômica de descobertas. Enquanto Spike testemunha os horrores do grupo de Sir Jimmy Crystal, Ian Kelson descobre uma amizade no lugar mais inesperado que é em Sansão, encontrando uma possível cura. Um infectado se humaniza e o humano se torna animalesco, caricato, destruidor de realidades já quebradas pelo vírus. O lado violento, frenético, gore característico da franquia está nas mãos do grupo de Jimmy, equilibrado pelas contemplações de Sansão que de pouco em pouco recupera sua humanidade, redescobrindo a fala e os trejeitos da sociedade completamente apagados pelo vírus — que afeta no sentido físico, sensorial e agora também descobrimos que psiquicamente. As tomadas visuais e o ritmo da edição deixam bem esclarecido essa tomada de decisões, contrastar os eixos narrativos, que funciona muito bem, porém sacrifica uma maior exploração narrativa de ambos os núcleos.

Afinal, não é uma balança perfeita: Ian Kelson é o beneficiado nessa divisão, sua narrativa contemplativa é um frescor no gênero dos zumbis, porém, numa ousada e polêmica escolha, Alex Garland visa dar respostas não só sobre maiores detalhes no funcionamento do vírus, mas também a temática de uma provável “cura”. Toda a trilha sonora desse núcleo narrativo salta aos olhos, com montagens visuais que contemplam o lema memento mori tão carregado no modo de vida da personagem. O filme sabe aproveitar o talento de Ralph Fiennes, que parece extremamente confortável no papel e pode ser denominado como o protagonista desse segundo título da nova trilogia, incorporando o papel do herói.

Quem mais sofre nessa balança é a personagem de Spike, que tristemente não tem o mesmo destaque de tela que no título anterior, mesmo com o ator jovem mostrando sua capacidade. Há um subaproveitamento, dando a sensação de pouca progressão em seus conflitos internos e externos. Dá para contar nos dedos quantas falas a personagem tem ao longo do filme inteiro e olha que o longa tem suas duas horas de duração. Ele é apagado por aquele que tem seu maior enfoque: Sir Jimmy Crystal e sua trupe. Jack O’Connel traz a vida desse fanático religioso satanista, que incorpora todos os traumas quando testemunhou muito novo o início da epidemia viral, agraciando satanás como responsável pela liberação da sua hora de “demônios” como punição pelos comportamentos dos homens na sociedade contemporânea.

Apesar do clichê “grupo de indivíduos psicopatas no meio de um surto viral”, Alex Garland não deixa de lado suas alfinetadas aos elementos culturais ingleses polêmicos. O nome de Sir Jimmy Crystal e suas perucas, toda essa distorção moral é uma paródia de humor negro com referências à figura pública da televisão inglesa Jimmy Savile, que atuou em diversas esferas de caridade das ilhas britânicas, conquistando o povo inglês como alguém patriótico que promovia o bem pela sociedade. A polêmica é que, após sua morte, em 2011, foi descoberto e comprovado como um dos maiores agressores sexuais das ilhas britânicas, escondido atrás dessa fachada de filantropo preocupado; com inúmeros casos denunciados por documentários provocaram investigações posteriores revelando que grande parcela dessas denúncias foram acobertadas por sua influência e amizade nos círculos da elite inglesa, tanto política quanto da própria família real. Sir Jimmy Crystal é uma paródia distorcida, muito mais óbvia dessa psicopatia, externalizando nos outros essa moral contraditória, em que promover o mal é promover o “bem” seguindo as palavras de Velho Nick; com isso, possui um grupo de seguidores adolescentes dispostos a seguir seus mandamentos e levar a “caridade” para outros indivíduos. A pergunta que fica é se Sir Jimmy Crystal é um vilão a ponto de ser memorável ou esquecível…

Apesar dos momentos de violência, seja física ou psicológica, possuírem demasiada qualidade, principalmente pelo abuso dos efeitos práticos, para essa estruturação imagética do grupo ser igual ou pior que os próprios infectados – afinal, eles não são dotados de escolha, agem instintivamente, já os Jimmies possuem intenção, possuem escolha – é sacrificado o tempo de tela em lidar com os infectados, que, se a memória não estiver falhando, possuem dois ou três momentos no máximo durante o longa-metragem. É o caminho de adentrar na famosa frase clássica dos filmes de zumbi: “esse não é um filme somente sobre os zumbis”. Nunca foi, é claro que não, mas é deixado de lado toda aquela adrenalina e frenesi que caminha de mãos dadas na identidade da franquia Extermínio.

Sansão e sua jornada pela “cura” através de Ian Kelson é a nossa porta de contato com os infectados. É delicada a montagem de uma figura que redescobre o “contemplar” e incorpora, de forma quase literal, a frase memento mori de Ian Kelson, impressionando como o roteiro beneficia esse núcleo narrativo em que uma “amizade” é desenvolvida entre a figura brutamontes e o aparente frágil doutor. Os cortes rápidos de suas interações com somente o auxílio da trilha sonora até a primeira sonorização da palavra “lua” por Sansão possuem sua beleza, seu alívio, seu afago em uma realidade imaginária tão brutal dessa franquia. É uma tomada diferente, interessante e, no mínimo, como já foi dito previamente inúmeras vezes, ousada.

Vale mencionar que há um momento de tangenciamento entre os núcleos narrativos, especificamente de Ian Kelson com os Jimmies. Não quero adentrar na zona de spoilers, então somente comentarei que por mais “bobo” que tenha sido minha expectativa sobre certo acontecimento narrativo, acabei que embalado pela questão musical e a montagem de cena, sendo um daqueles momentos de “descontração” em meio ao caos que foi um respiro que pode ser resumido em uma palavra simples: diversão. Me diverti genuinamente pela montagem de cena e pela atuação de Ralph Fiennes. Com certeza um dos pontos mais altos do filme, tal qual a cena tão icônica do supermercado no primeiro longa-metragem.

Outro ponto para tratar desses núcleos é que alguns detalhes são “esquecidos” ou deixados para o futuro — falta um título ainda; por isso será diferente quando o “todo” dessa narrativa, dividida em três longas, estiver completo e outra perspectiva for apresentada ao analisar os títulos. Algumas pontas ainda estão abertas: e o vilarejo onde Spike nasceu? E a criança que a infectada deu à luz? Onde está esse bebê? O próprio world-building do longa anterior é ignorado em muitos detalhes com exceção do conceito do infectado alpha, avançando muito pouco em uma perspectiva de conhecer e enlaçar narrativamente essa Inglaterra vinte oito anos após o surto epidêmico.

É impossível, para finalizar, não comparar as decisões criativas visualmente quando pensamos em um filme dirigido por Danny Boyle o posterior tendo outra diretora dando continuidade na franquia.  Sua característica câmera em ângulos “tortos”, um abuso de cores reforçadas, um frenesi imagético estranhamente belo, aterrorizante e sedutor é abandonado quase que por um sentimento de “genérico”. Não há nada ousado ou muito fora da curva, uma espécie de edição formulaica e nada além do que podemos encontrar em qualquer filme de terror/horror genérico que recheia os serviços de streamings em seus catálogos. Saí com esse retrogosto, por não ter sentido uma imersão, uma tensão, uma “novidade” que me embalasse. Fui instigado, me diverti e, claro, este filme ganha em muitos pontos do tão ignorado segundo título da franquia. No entanto, não vá com expectativas de espetáculos visuais e, talvez, esse saldo seja menos doloroso no sentido de resultado.

O que resta é aguardar o próximo título e que Spike volte a ser, no mínimo, uma personagem com maior participação, ainda mais com a formação de uma dupla com a personagem de Kellie (Erin Kellyman), que era um dos dedos de Sir Jimmy Crystal.

E claro. Há uma surpresa no longa-metragem. Uma das boas. Apenas isso.

Memento mori para todos nós.

Filme: 28 Years Later: The Bone Temple
Elenco: Alfie Williams, Ralph Fiennes, Jack O’Connel, Erin Kellyman, Chi Lewis-Parry
Direção: Nia DaCosta
Roteiro: Alex Garland
País: Reino Unido
Ano: 2026
Gênero: Terror, Horror, Suspense
Sinopse: Dr. Kelson se vê envolvido num novo relacionamento chocante – com consequências que podem mudar o mundo como eles o conhecem – e o encontro de Spike com Jimmy Crystal se torna um pesadelo do qual ele não consegue escapar.
Classificação: 18 anos
Distribuidor: Sony Pictures
Streaming: Indisponível
Nota: 7,5

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