O horror imposto pelo Estado de Israel nos territórios palestinos da Faixa de Gaza e Cisjordânia há décadas está presente nas páginas dos jornais, nos noticiários televisivos e nas redes sociais. Após os ataques de 7 de outubro de 2023 covardemente cometidos pelo Hamas, e a conseguinte retaliação militar israelense, a barbárie recrudesceu e virou parte de nossa rotina; onipresente em seu lastro de destruição, nos acostumamos a ela tal como quem se acostuma à prática de exercícios físicos. Uma vez naturalizado isso, cada novo ataque passa a ser visto com a indiferença própria àquilo concebido como inevitável, e a morte encarada como insígnia da tragédia de um povo.
Em meio às marcas deixadas por esse conflito de raízes históricas profundas, é curioso refletir, no entanto, como a representação artística do genocídio pode suscitar um incômodo mais contundente e genuíno do que a realidade exibida em tempo quase real na TV e internet. Essa sensação veio fortemente à tona vendo A Voz de Hind Rajab, longa-metragem da cineasta Kaouther Ben Hania (As 4 Filhas de Olfa, O Homem que Vendeu sua Pele, A Bela e os Cães). Representante tunisiano na disputa do Oscar de Melhor Filme Internacional, o título reconstitui o agonizante drama vivido por Hind Rajab, uma garotinha palestina de apenas seis anos cuja família, em 29 de janeiro de 2024, foi alvejada a tiros e morta dentro de um carro nas ruas de Gaza.
Chama a atenção o fato de essa trágica história ter chegado às salas de cinema do Brasil exatamente após dois anos do acontecimento. Ben Hania escolhe contá-la do ponto de vista da equipe humanitária do Crescente Vermelho sediada em Ramallah, cidade na Cisjordânia. Ao rejeitar exibir qualquer cena em que a garota estivesse ferida em meios aos destroços, negando, assim, o sensacionalismo sádico na abordagem de um evento em si já bastante devastador, a diretora evidencia não apenas bom senso mas, sobretudo, respeito à memória da vítima.
A narrativa se desenrola nas dependências do quartel-general do Crescente Vermelho, local que recepciona todas as chamadas de emergência na Palestina. Omar (Motaz Malhees) e Saja (Rana Hassan Faqih) são os responsáveis por atender às ligações de Hind Rajab, e ambos conduzem dramaticamente a trama por meio da escuta dos áudios originais em que a garota clama por socorro médico. Em paralelo, a tensão da situação, respaldada pelo tom documental da encenação, também é construída na sala ao lado, onde o diretor Mahdi (Amer Hlehel) executa o papel de interlocutor institucional, fazendo os contatos necessários para viabilizar o envio seguro de uma ambulância.
A montagem confere dinamismo cortante ao longa-denúncia, algo conseguido através da alternância entre os dois ambientes do QG, separados por uma divisória de vidro e o conflito de interesses em jogo. De um lado, emoções à superfície, denotando uma corrida contra o tempo para se fazer o resgate; do outro, a razão burocrática de quem reconhece a urgência em questão, mas sabe que o valor de uma vida não se sobrepõe ao de outra(s). Esse antagonismo de concepções se mostra fundamental para tornar A Voz de Hind Rajab sociologicamente mais profundo, embora, por vezes, o roteiro adote um certo reducionismo ao flertar com a ideia de atribuir a Mahdi a pecha de obstáculo à sobrevivência da garota.
Até o fim do segundo ato, o trabalho de Ben Hania mantém uma consistência notável, levando-nos a sentir a boca seca e amarga enquanto aguardamos o desfecho — inacreditavelmente, isso ocorre a despeito de já sabermos o que aconteceu a Hind Hajab. Há de se destacar, porém, que a imersão dessa reconstituição em parte é quebrada por smartphones que, fingindo gravar, expõem imagens reais de 2024. Embora compreensível como tentativa de aproximar o público do episódio, livre de mediações dramatúrgicas, o que se sucede, na verdade, é a inserção de um elemento gravitacionalmente estranho à mise-en-scène até então estruturada, provocando, assim, uma ruptura momentânea da ordem fílmica que não traz consigo qualquer ganho cinematográfico.
De todo modo, reconheçam-se os méritos do filme, sobretudo se pensarmos no fato de que ele foi produzido ainda sob estado de revolta face ao acontecido com a pequena Hind Rajab. Certamente não foi fácil para a diretora lidar com a história de alguém que teve a sua vida interrompida ainda na infância e de maneira tão brutal; traduzir para as telas do cinema um dos momentos mais cruéis dos últimos tempos envolvendo os conflitos árabe-israelenses, sem cair na tentação de forjar o choro gratuito do espectador, indubitavelmente é um feito grandioso em tempos nos quais quase tudo vale na conquista política dos corações e mentes daqueles(as) que integram a opinião pública global.
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Filme: صوت هند رجب (A Voz de Hind Rajab) Elenco: Hind Rajab, Motaz Malhees, Saja Kilani, Amer Hlehel Direção: Kaouther Ben Hania Roteiro: Kaouther Ben Hania Produção: Arábia Saudita, EUA, França, Itália, Tunísia Ano: 2025 Gênero: Drama, Histórico Sinopse: Voluntários do Crescente Vermelho recebem um chamado de emergência. Uma menina de 6 anos está presa em um carro sob fogo das Forças de Defesa de Israel, em Gaza, implorando por socorro. Enquanto tentam mantê-la na linha, eles fazem tudo o que podem para enviar uma ambulância até ela. Classificação: 14 anos Distribuidor: Synapse Distribution Streaming: Indisponível Nota: 8,0 |

