Valor Sentimental (2025), dirigido por Joachim Trier, é um dos longas que figuram na lista de indicados ao prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar 2026. A obra narra a história de Gustav (Stellan Skarsgård), um diretor que almeja fazer seu último e mais pessoal projeto. Para isso, ele convida sua filha Nora (Renate Reinsve) para ser a atriz principal. Após ela recusar, Gustav contrata para o papel uma jovem atriz em ascensão: Rachel Kemp (Elle Fanning). Tal decisão faz algumas antigas rusgas da família virem à tona.
Sobre o Estilo
É claro, como todo mundo sabe ou diz saber, que não existe estilo neutro, totalmente transparente. Sartre, em sua excelente resenha de “O Estrangeiro”, mostrou como a celebrada “escrita branca” do romance de Camus — impessoal, expositiva, clara, rasa — é, ela mesma, veículo da imagem do mundo de Meursault. O que Roland Barthes chama de “grau zero da escritura”, precisamente por ser antimetafórico e desumanizado, é tão seletivo e artificial quanto qualquer estilo de escrita tradicional. Apesar disso, a ideia de uma arte transparente, sem estilo, é uma das fantasias mais persistentes da cultura moderna.
A antipatia pelo “estilo” é sempre uma antipatia por um certo estilo. Não existem obras de arte sem estilo, apenas obras de artes pertencentes a diversas tradições e convenções estilísticas de maior ou menor complexidade. Isso significa que a noção de estilo, tomado genericamente, tem um sentido histórico e específico. Não se trata apenas de que o estilo pertence a um tempo e a um lugar, e que nossa percepção do estilo de determinada obra de arte vem sempre carregada de uma consciência da historicidade da obra, de seu lugar numa cronologia. E mais: a visibilidade dos estilos é, ela própria, um produto da consciência histórica. Se não fossem os desvios ou as experimentações com as normas artísticas prévias que nos são conhecidas, nunca reconheceríamos o perfil de um novo estilo. Sobre o Estilo (Sontag, 1965)
O “grau zero da escritura”, como Sontag relembra a partir de Barthes, é uma forma altamente seletiva. Mesmo que Barthes discorra sobre isso com um enfoque em literatura, é algo que, querendo ou não, vale para qualquer forma de arte. O que se apresenta como transparência é, na verdade, uma escolha estética. E em Valor Sentimental, essa escolha é tudo menos inocente.
O filme de Trier se apresenta como se estivesse apenas registrando vidas: atores ensaiando, um diretor envelhecido revisitando o próprio passado, uma jovem atriz tentando negociar sua autonomia num ambiente carregado de memórias. A câmera parece discreta, os enquadramentos parecem obedecer a uma gramática clássica, a montagem não chama atenção para si. A impressão inicial é a de neutralidade, de querer apenas observar.
Falsa Imparcialidade
A mise-en-scène é construída para parecer isenta. Mas, quando se observa com mais atenção, percebe-se o grau de manufatura envolvido. Cada gesto, pausa, plano, tudo parece calibrado para produzir uma resposta específica: te emocionar. Não te emocionar no sentido literal, de te fazer sentir algo — afinal, essa linha todo filme busca —; mas no sentido melodramático (e, nesse caso, desesperado). Fazer o espectador se compadecer, ter empatia, sentir a dor dos personagens com eles; sofrer e chorar com eles. De maneira bem direcionada, e até mesmo artificial, Valor Sentimental implora, quase desesperadamente, para que você sinta algo. Não que haja algo de errado em ser melodramático e querer despertar comoção. Mas, há algo de errado quando o filme não possui confiança em sua encenação para alcançar isso organicamente e te suplica de maneira artificial para entrar nesse estado. Um filme afobado para que você sinta nele um valor sentimental (desculpa, não resisti).
O enquadramento fecha, a respiração se torna audível… É difícil não sentir que o filme está nos cutucando com uma mão persistente no ombro, pressionando-o cada vez que devemos nos emocionar, como se nos lembrasse: “olha, agora é a hora, hein!”. A tal “invisibilidade” do estilo funciona como uma espécie de disfarce moral; é como se isso fizesse com que o sentimentalismo parecesse como algo que emergisse organicamente da situação, quando, na verdade, ele foi enfadonhamente instalado ali. Na superfície busca demonstrar delicadeza, mas não precisamos nem afundar muito para perceber o cálculo excessivo.
Os flashbacks de Valor Sentimental
É até meio irônico que os momentos mais interessantes do filme são os que ele tenta parecer menos orgânico. Parece que quando essa máscara cai, quando deixa de buscar por um “estilo inestilizado” (que não existe), por um “sentimentalismo orgânico” (nada orgânico), as coisas fluem mais naturalmente. Os flashbacks, por exemplo, são momentos exemplares disso. Neles, a imagem adquire textura de película, com granulação visível e cores ligeiramente desbotadas. A forma passa a se mostrar, não quer mais fingir neutralidade. No lugar disso, há um prazer quase fetichista na materialidade do passado. São os instantes mais honestos do filme; neles o longa admite que está construindo uma experiência estética. Não há mais pretensão de transparência, assume a memória como uma dimensão mediada, filtrada e estilizada. É o que é, não quer ser o que não é.
Esse contraste entre o presente “naturalista” e o passado texturizado ecoa no conflito central entre o diretor mais velho — representante de uma geração que acredita em uma teoria cinematográfica mais old-school — e a jovem atriz — que encarna uma relação mais fluida com o trabalho, menos reverente às regras. O embate entre as características dessas personas é o coração do filme. O diretor, Gustav, é alguém preso a uma concepção de controle como responsabilidade. A atriz, Rachel, representa uma sensibilidade que desconfia dos métodos totalizantes.
Gustav e a Metalinguagem
Talvez o estilo mais sóbrio (mas ainda estilo) de Trier pudesse se justificar como um artifício metalinguístico que incorpora (podemos falar “incorporar” para algo metafísico?) os ideais de Gustav. Talvez… Se, ao menos, o filme buscasse passar essa ideia, poderia ser. Isto é apenas eu tentando buscar uma justificativa para algo que não tem, exatamente, uma. Se encararmos a figura de um diretor como a personificação da linguagem cinematográfica (afinal, é ele que molda a sintaxe) e a figura do ator como a personificação do conteúdo (já que é ele que empresta seu corpo para que as palavras possam tomar sonoridade), poderíamos perceber um reflexo do embate teórico entre Gustav e Rachel na constituição do filme.
“Poderíamos”, no futuro do pretérito do indicativo, e não “podemos”, no presente do indicativo. Distinção necessária para denotar, novamente, que isso não é algo que se concretiza. Não gostaria de operar uma separação entre conteúdo e forma; isso é impossível, não há como separar, o conteúdo é a própria forma pois é através dela que ele se manifesta — mas isso é um papo muito longo para essa pequena digressão. Entretanto, vamos assumir, pelo aspecto lúdico do exercício imaginativo, que esse divórcio é possível.
Amálgama de Vidas
Se Gustav é a forma do filme — mais sóbrio, contido, rígido — e Rachel o conteúdo, não deveria este ser como ela? A jovem é um espírito livre, impossível de conter. Mesmo assim, a trajetória da história de Valor Sentimental é o completo oposto: controlada, rígida, arbitrária demais. Nada escapa ao esperado, nada parece voluntário ou orgânico; os personagens agem como robôs, seguindo o prompt do que é esperado deles naquelas situações, fazendo tudo que podem para que o espectador seja fisgado. A única pessoa que apresenta um pouco de espontaneidade é Nora (Renate Reinsve), a filha de Gustav. Ela acaba, de certo modo, atuando como um respiro no filme; um frescor. Indiretamente ou diretamente, é através da mediação dela, inclusive, que o filme começa a se transformar um pouco mais.
Aos poucos, algo estranho acontece: as posições começam a se embaralhar. O diretor envelhecido revela fragilidades que o aproximam da atriz; a filha, ora admira ora odeia o pai, ora quer se afastar do set de filmagem e ora quer o papel da atriz; a intérprete, por sua vez, começa a reproduzir gestos de controle que antes criticava, buscando metodicamente se apagar para se tornar o que Gustav espera dela. Ao final, as figuras não estão mais claramente separadas; elas se convertem num amálgama. Não apenas porque aprendem umas com as outras, mas porque o filme sugere que todos são manifestações de uma mesma ansiedade relacional.
Consciência Sobre a Forma
A visibilidade do estilo é produto da nossa consciência histórica, como lembra Sontag. O problema é que, em vez de radicalizar essa consciência, Trier a administra. O amálgama final dos personagens funciona também como uma pacificação formal, na qual as diferenças se dissolvem numa harmonia que soa confortável demais. Fica a sensação de que Trier está sempre à beira de expor completamente seu próprio dispositivo — de admitir que seu “estilo” é altamente consciente, que manipula, conduz e organiza nossa experiência afetiva. Mas ele sempre recua. Por fim, opta por um acabamento elegante, por uma coerência emocional que tranquiliza.
Valor Sentimental não é exatamente um filme ruim; há momentos de real intensidade e há uma percepção aguda das fraturas geracionais no campo artístico. Mas ele confirma, talvez involuntariamente, o que Sontag apontava: a fantasia de uma arte sem estilo é persistente porque nos poupa do desconforto de reconhecer a artificialidade. Trier parece querer que acreditemos que fomos tocados pela vida dos personagens quando, na verdade, fomos conduzidos por uma maquinaria formal extremamente bem calibrada. Algo que, por si só, não é demérito — em certo nível, todo filme faz. Contudo, como o caso aqui, quando é excessivo dá a volta e se torna algo frio, artificial demais. Deixou de ser apenas um pedido para que você entre na onda e se tornou uma imploração desesperada — o que, em última instância, denota falta de confiança. O verdadeiro Calcanhar de Aquiles do filme está aí: não na história que ele conta, mas na maneira como tenta nos convencer de que não está contando com tanta intenção assim.
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Filme: Affeksjonsverdi (Valor Sentimental) Elenco: Stellan Skarsgård, Elle Fanning, Renata Reinsve, Inga Ibsdoter Lilleaas Direção: Joachim Trier Roteiro: Eskil Vogt, Joachim Trier Produção: Dinamarca, Noruega, Reino Unido, Suécia Ano: 2025 Gênero: Drama Sinopse: Valor Sentimental conta a história do diretor de cinema Gustav e seu projeto mais pessoal: um filme sobre sua família. Classificação: 14 anos Distribuidor: Retrato Filmes Streaming: MUBI Nota: 4,0 |

