A parceria entre Shih-Ching Tsou e Sean Baker não é recente. A dupla já dirigiu, lá em 2004, Take Out, um longa bem visceral e intimista sobre um entregador de comida chinesa que tenta ganhar a vida em Nova York. Enquanto a abordagem desse abraça um viés mais pessimista e dramático, em A Garota Canhota, os diretores tentam imprimir a atmosfera mais cômica e leve, semelhante ao que vimos em Projeto Flórida (2017), ao retratarem a beleza da vida em meio às dificuldades do cotidiano.
A Garota Canhota é repleto do intimismo e olhar social que Baker costuma trazer em suas obras. Sua montagem juntamente com a direção sensível de Shih‑Ching são a união perfeita para dar o tom que o filme pede: um drama com uns bons toques de humor reflexivo ao apresentar três personagens femininas inseridas naquela Taipei moderna e desafiadora. A mãe extremamente trabalhadora, a filha adolescente com personalidade forte, e a neta… no auge de sua infância e inocência.
Em meio às dificuldades financeiras e conflitos familiares, o cerne da trama se volta à I-Jing, que se deixar incutir por uma crendice que seu avô a dissera: a mão esquerda seria “a mão do diabo”, o que acaba levando-a a crer que certas más ações (deliberadas ou não) não foram realizadas por ela mesma, mas sim por sua mãozinha canhota “do mal”. Essa visão ingênua da garotinha proporciona algumas cenas um tanto cômicas e inesperadas, e outras com um teor até filosófico, pela reflexão de como uma “simples” frase pode carregar consigo o poder de distorcer parte da concepção de mundo de uma criança.
Tal virada de chavinha nada mais é do que o reflexo da inocência da infância, sobretudo pelo fato da pequena sempre ter que testemunhar, calada, todo o caos e conflitos das vidas adultas que a cercam. “Você não deve se meter em assuntos de adulto, você é apenas uma criança”, é uma das muitas frases de exclusão que a garotinha ouve com frequência. O fato é que, por vezes, há um certo descuido por parte das adultas em instruir I-Jing sobre o que é certo e o que é errado; talvez, pelo caos da rotina e os problemas incessantes lserem uma distração constante.
O ritmo de A Garota Canhota não tem pressa em nos apresentar cada camada das três personagens centrais, o que acaba facilitando a conexão e empatia para com elas. Desde os passeios “subversivos” da pequena garota, ao rolo arriscado e quase amoroso da adolescente, juntamente com a luta diária e complacência da mãe, são dispositivos que proporcionam essa proximidade com realidades comuns: cada uma com sua personalidade e visão de vida, permitindo inclusive que o ímpeto da impulsividade fale mais alto em algumas ocasiões.
Ao decorrer da trama, algumas revelações são fofocas das boas: tensas, porém divertidas de acompanhar. As celeumas tão típicas do cinema de Baker (vide Tangerine e Anora), não estão ali à toa — são tantas as adversidades que algumas pessoas têm de lidar que, em algum momento, é óbvio que os ânimos ficarem à flor da pele é algo não somente justificável como humano. Isso define exatamente o que o longa consegue exprimir: humanidade. Sobretudo em retratar a realidade de três gerações que não tiveram nenhum suporte masculino.
Isso dá gancho a uma observação interessante: a narrativa consegue pincelar bem, de maneira não escancarada, que os homens que passaram (ou surgem) na vida dessas mulheres, direta ou indiretamente, representam instabilidade: o pai (e também o avô) tendo sido ausente; o affair da jovem I-Ann completamente inconsequente e irresponsável; o avô doutrinando a neta com desinformação; o moço locador do imóvel cobrando o aluguel incessantemente tal qual o Sr. Barriga em Chaves… o sexo masculino aqui é o epítome do estresse e desgaste emocional.
Mas como nem tudo são flores, por serem muitas as subtramas que o filme aborda, algumas não são suficientemente aprofundadas, sobretudo na metade final, onde alguns segredos familiares começam a vir à tona meio do nada. É como se o longa abandonasse essa visão mais descompromissada de artifícios mais batidos e trouxesse um teor até novelesco, que acaba destoando um pouco de tudo o que vimos anteriormente. A sorte é que tais cenas não se deslocam da trama, mas acabam apressando um final que teria tudo para ser mais memorável.
Ainda assim, A Garota Canhota nos ganha por esse ar intimista e honesto que exprime. Nem todo filme de áurea mais singela e cotidiana consegue soar orgânico, espontâneo de alma. Shih-Ching Tsou definitivamente possui um talento nato para fazer esse tipo de cinema, já que é notório seu tato para conduzir personagens com realidades tão reminiscentes a tantas que vemos todos os dias. Ver “gente como a gente” no cinema é sempre um deleite (necessário, inclusive). Um ótimo representante de Taiwan indicado à pré-lista do Oscar 2026.
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Filme: A Garota Canhota Elenco: Janel Tsai, Shih-Yuan Ma, Nina Ye, Brando Huang, Akio Chen, Xin-Yan Chao Direção: Shih-Ching Tsou Roteiro: Shih-Ching Tsou, Sean Baker Produção: EUA, França, Singapura, Taiwan Ano: 2025 Gênero: Drama Sinopse: Uma mãe solteira e suas duas filhas retornam a Taipei para abrir uma barraca no mercado noturno e, enquanto se adaptam à nova vida, antigos segredos e tradições familiares ameaçam a união das três. Classificação: 16 anos Distribuidor: Netflix Streaming: Netflix Nota: 7,0 |

