Em uma pequena cidade nos Estados Unidos, às 2h17, um grupo de crianças sai de casa rumo à escuridão e simplesmente desaparecem. A premissa de A Hora do Mal (2025), dirigido por Zach Cregger, instiga, e ela é apresentada logo na sequência inicial, narrada por uma criança. Alguns detalhes dessa abertura chamam a atenção, como os enquadramentos atrás da nuca. Os rostos dos adultos só são vistos de frente após o fim desse prólogo, e essa ausência de identidades faz com que esses personagens formem um amálgama que representa aquela comunidade. Tanto é que o filme é dividido em capítulos, em que cada um deles é designado a cada um dos personagens. Não se trata, no entanto, de uma divisão de pontos de vista, mas, sim, de uma ruptura do subúrbio americano, da exposição da fragilidade comunitária por meio das subtramas dos moradores. Decerto, essa divisão também sugere pontos de partida diferentes para desvendar o que aconteceu, os pontos vão se ligando conforme os personagens se encontram, mas é uma abordagem mais pautada no caótico do que em uma trama de investigação tradicional.
A começar pelo primeiro capítulo, Justine (Julia Garner) é professora, e as crianças que desapareceram eram todas de sua turma, com exceção de Alex (Cary Christopher) que foi o único a ir à aula normalmente na manhã seguinte. Justine é acusada e assediada pelos pais das crianças, que exigem respostas, mas ela afirma estar tão preocupada e sem explicações quanto eles. Como medida protetiva, o diretor da escola, Marcus (Benedict Wong), a proibiu de entrar em contato com Alex, que foi transferido para outra turma. Em meio à indecisão de falar ou não com a criança, o filme mostra como esse acontecimento afeta sua vida privada: assiste programas de televisão que, pela evidente qualidade duvidosa, estão servindo como distração desesperada; passa a beber mais ainda, seja em um bar, em casa ou até mesmo dirigindo; se envolve em um affair, e por aí vai. Televisão, bebida e traição conjugal em uma pacata cidade interiorana: elementos essenciais à visão crítica ao american way of life que o filme adota para preparar o terreno do que está por vir.
Por sinal, trago a atenção para a representação dos alimentos no filme, pois, além do álcool, há uma série de planos detalhes da típica culinária americana, como as latinhas de Coca-Cola e hambúrgueres. Não por mero estereótipo, mas como um registro do tipo de alimentação que fundamenta uma sociedade. Em momento algum é mostrada alguma comida balanceada ou nutritiva, o máximo que chega é em comida enlatada, em contextos que a desvalorizam mais ainda. Sem entrar em spoilers, o destaque no tipo de alimentação desse subúrbio é chave para compreender alguns fatores relacionados à figura central do último capítulo, mas de maneira sutil e, definitivamente, aberta a interpretações.
Os capítulos que seguem continuam mostrando essas e outras problemáticas do subúrbio americano, como a marginalidade, o uso de drogas e a decadência de uma área mais urbana da cidade. Nunca são exatamente o foco do filme, e é nisso que Zach Cregger tem grande sensibilidade. Já no seu longa anterior, Noites Brutais (2022), o diretor demostrava interesse em tratar de traumas sociais do Estados Unidos, em como valores enraizados na sociedade americana apodrecem o entorno. A América em decadência, bairros largados, desumanizados, a sujeira que não cabe mais debaixo do tapete, o horrível debaixo de uma casa alugada, o fenômeno das 2h17. Porém, em A Hora do Mal essa ambientação crítica me parece bem mais natural e precisa do que no longa anterior, que dedicava algumas cenas para tratar explicitamente dessas características. Neste novo filme, essas características fazem-se presentes o tempo todo e sem alarde, mas com tanta importância quanto o mistério a ser desvendado.
Tenho uma questão, contudo, com a maneira na qual o filme é estruturado. Em similar estilo à virada na metade de Noites Brutais, o que divide os capítulos é, frequentemente uma cena de grande tensão ou de relação com o mistério do filme. Quando o capítulo seguinte começa, o filme volta no tempo, mostra uma série de acontecimentos no desenrolar das subtramas até chegar, enfim, em uma outra cena de tensão e, depois, o filme repete isso com o personagem seguinte. Tratando-se de Justine e de Archer (Josh Brolin), um dos pais das crianças desaparecidas, esse caminho até a troca de capítulos mantém uma tensão constante que condiz com o envolvimento deles com o caso. Já quando parte para os capítulos do policial Paul (Alden Ehrenreich), o jovem drogado James (Austin Abrams) e Marcus esse tom sombrio muda. Paul está totalmente desinteressado no caso, até porque sua vida pessoal e profissional anda de mal a pior, James entra na confusão toda por coincidência e Marcus tenta deixar os pensamentos de trabalho no local de trabalho para passar seu fim de semana em paz com o companheiro. Esses contextos fazem com que o filme passe a exibir um tom distinto, como pequenas tangentes do cerne da trama. Seus capítulos são menores, trazem informações importantes para o mistério e têm cenas marcantes também, até porque estão próximos do final, mas esse vai e vem na carga dramática do filme, junto da absurdez dessas cenas marcantes, dá ao filme uma instabilidade que, ainda que justificada, ameniza, bastante, a experiência do medo.
Isso não é necessariamente um problema, na verdade, até que faz um bom trabalho em introduzir aos poucos essa estranheza em detrimento de um suspense convencional até culminar na sequência final, uma resolução impagável. A Hora do Mal é um filme que esconde ambição sob uma roupagem familiar, uma fachada convidativa para uma experiência de descompasso, que é capaz de propor reflexões sobre o país em que o filme se passa, provoca e instiga curiosidade para solucionar o caso e ainda tem um jogo de cintura para entreter com o estranho e o absurdo. É de se esperar que surjam debates sobre o gênero do filme, sobre como estão distribuídas as “dosagens” de gênero, do horror, do investigativo, do suspense, até, sim, do coming of age, da comédia e de outros mais. Bem, me parece que a graça no cinema de Zach Cregger é, justamente, brincar com as expectativas relegadas ao horror e, no fim das contas, fazer um filme à sua maneira, de sua autoria — e é sempre bom ver um novo autor ganhando espaço.
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Filme: A Hora do Mal (Weapons) Elenco: Julia Garner, Josh Brolin, Alden Ehrenreich, Benedict Wong, Cary Christopher, Austin Abrams Direção: Zach Cregger Roteiro: Zach Cregger Produção: EUA Ano: 2025 Gênero: Horror, Mistério Sinopse: Todas as crianças da mesma sala de aula, exceto uma, desaparecem misteriosamente na mesma noite e exatamente no mesmo horário. A comunidade fica se perguntando quem ou o que está por trás do desaparecimento.
Classificação: 18 anos |

