Que saudades dos filmes gores! E mais do que isso… filmes de finais felizes ilusórios com críticas ácidas, um verdadeiro bofetão na cara de nossas crianças interiores! Este sensacional horror com aroma de sátira nos presenteia com cenas escatológicas e é preciso muito sangue frio para acompanhar algumas partes do filme.
Dirigido pela jovem cineasta norueguesa Emilie Blichfeldt, A Meia-Irmã Feia, lançado há pouco tempo na famosa plataforma de streaming Mubi, reconta a saga da antiga história de Cinderela, porém na versão e visão de sua meia-irmã Elvira. Como uma ode ao inverso das coisas, a película se desenvolve nas peripécias estéticas da meia-irmã feia e da madrasta da bela garota Agnes (a nossa Cinderela), que, no filme, é escanteada para um papel quase oculto nas cenas.
O show à parte vem com as cenas de aplicação de cílios de um método no mínimo bizarro — fazendo o espectador esconder os olhos, com as mãos, de agonia; e a maquiagem (culminada em uma indicação para o Oscar), que enfeia a atriz Lea Myren, também faz parte da grandiosidade deste filme. Obscuro, intrínseco com a perda da pureza em cenas com nu masculino e falas explícitas da personagem principal, a produção vai desenrolando na dificuldade de Elvira se tornar uma mulher desejada para o baile do príncipe Julian, no qual este está procurando uma pretendente para ser sua esposa.
De rinoplastia medieval, aprender etiqueta até comer ovos de tênia para emagrecer, Elvira é um retrato de como o machismo acabou com a sanidade e limites das mulheres para poderem ser vistas pelos seus amados. Enquanto Julian, o príncipe, se diverte com os amigos sem fazer nenhum esforço, garotas de todo reino ficam por meses em preparação ao seu encontro, uma situação desigual que se repete por anos. O filme, de início, parece um tanto quanto tolo, mas em seu desenvolvimento, exibe várias camadas de crítica ao ser humano e suas mesquinharias, como competição, egoísmo, machismo (como dito anteriormente), briga por poder, “dinheiro compra tudo”. No desenho animado ou no conto, a meia-irmã é retratada como uma vilã, mas no filme, Elvira é apresentada como vítima de uma sociedade opressora. Já sua mãe, que também é a madrasta malvada em outros formatos, aqui é somente uma viúva que quer ter dinheiro para sobreviver e colocar sua filha feia e desprezada em boa evidência.
As cores fortes e obscuras, o ambiente com a percepção de que estamos no musgo (limbo) o tempo todo, trazem a sensação de sufoco da máscara de rinoplastia da personagem e o gore do título é digno de aplausos, pois, por tempos, não vimos filmes com cenas nojentas e desgostosas. A deterioração do ser humano pelo corpo perfeito, assim como foi retratado por outro filme do Mubi, A Substância, é bem evidente em A Meia-Irmã Feia. Quanto mais procedimentos, mais degradação da identidade e do seu corpo externo. O streaming Mubi está querendo realmente passar alguma mensagem para nós, espectadores. A diretora “acerta a mão” em tudo que se propõe a fazer, o timing é bom e prende o espectador na tela sem forçar, com enquadramentos espetaculares no horror corporal, lembrando por alguns momentos Laranja Mecânica (Kubrick, 1972) e toda bizarrice é bem orquestrada.
Recomendado àqueles(as) que são fãs de obras trash e de horror estapafúrdios das décadas de 1980 e 1990, recheadas de nojeiras e críticas sociais como Pink Flamingos (Waters, 1972) — com menos obscenidades, é claro —, A Meia-Irmã Feia entrega a proposta e nos intriga, sem ser filme “cabeção”. Para todos os tipos de público, recomendadíssimo!
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Filme: Den stygge stesøsteren (A Meia-Irmã Feia) Elenco: Lea Myren, Thea Sofie Loch Næss, Ane Dahl Torp, Flo Fagerli, Isac Calmroth Direção: Emilie Blichfeld Roteiro: Emilie Blichfeld Produção: Noruega, Polônia, Suécia, Dinamarca, Romênia Ano: 2025 Gênero: Comédia, Terror Sinopse: Uma releitura sombria do conto da Cinderela, o filme acompanha a meia-irmã marginalizada que, em meio à obsessão por beleza e aceitação, é levada a extremos físicos e emocionais, revelando o lado cruel por trás do ideal do “felizes para sempre”. Classificação: 16 anos Distribuidor: Scanbox Entertainment Streaming: Mubi Nota: 9,0 |

