Não é todo dia que existem as oportunidades de ir assistir um filme de terror nacional no cinema. Um filme que carrega o nome de figuras icônicas na divulgação e ampliação do acesso em vários espectros da cultura popular. Jovem Nerd e seus parceiros são responsáveis pela execução do projeto e, buscando uma iniciativa para além do podcast e das produções textuais ou imagéticas (livros e quadrinhos), trazem às telonas brasileiras uma ousadia dentro de certas tendências constantes do nosso cinema – que não são problemas, mas caminhamos quase sempre dentro de um mesmo eixo temático ou crítico. Lembro de quando iniciei uma maratona constante de filmes nacionais e, em sua grande maioria, envolvem sempre questões sociais de desigualdade e personagens periféricas. Acaba se tornando exaustivo e enfadonho. Realça as tendências das altas cúpulas acadêmicas esse desprezo por valorizar aquilo que produzimos dentro do eixo fantástico e muitas vezes suprimindo iniciativas que poderiam gerar reais frutos. É necessário estabelecer alguns olhares para pensar sobre A Própria Carne e certas delicadezas, pois está longe de ser uma obra prima, mas, independente do resultado – que está longe de ser medíocre ou ruim –, é preciso parabenizar essa busca por ir na contramão dos movimentos generalizantes que tentam valorizar somente os realismos.
Fui com expectativas medianas em relação ao filme comparado ao que esperava antes de ler e assistir críticas de outrem sobre o longa-metragem. Já esperava certas limitações que foram comentadas pelos próprios produtores do filme, principalmente orçamentárias que, consequentemente, geraram certos cortes no roteiro em termos de explorar potenciais narrativos interessantíssimos. Estamos durante o período da Guerra do Paraguai. Acompanhamos três desertores que buscam fugir dos horrores desse conflito e acabam caindo em uma armadilha: uma fazenda decadente em que somente um velho e uma garota vivem e, desde a primeira montagem visual do lugar, já é estabelecido que algo muito mais misterioso ocorre ali para além dos parâmetros do que é considerado normal. A ironia é: graças ao meu nível de expectativa, fui muito mais surpreendido do que esperava, assim os saldos em relação ao filme são bem mais positivos do que negativos. Vamos, então, aos comentários elogiosos.
Em primeiro lugar: fotografia. As montagens de cena estão primorosas em relação tanto para estética, havendo takes belamente compostos para world-building, quanto narrativamente, ousando e abusando ao mostrar em vez de falar. Sua composição remete ao que pode ser denominado como folk horror com elementos claramente lovrecraftianos, pois é uma influência clara no imaginário criativo dos produtores Alexandre Ottoni (Jovem Nerd) e Deive Pazos (Azaghal) quando pensamos em suas contribuições originais ao imaginário ficcional brasileiro. É bem contextualizado e construído, sem a apelação de filmes internacionais do gênero que precisam ficar expondo através de diálogos os horrores infinitos do desconhecido. Não. Aqui são os símbolos. Pequenos gestos. Objetos. Silêncios. Sugestões. Sem cair nas falhas de explicar minúcia por minúcia do que está ocorrendo. As montagens explicitam bem que são sugestões que ficam para o próprio público buscar entender e interpretar. Isso por si só é um mérito, ainda mais se você que está lendo é um veterano que consome com certa constância obras em variadas mídias que participam desses gêneros do terror/horror. O público é tratado com inteligência e os produtores compreendem a armadilha que poderiam cair caso ousassem explicar aquilo que não é para ser explicado.
Nosso elenco é um núcleo bem concentrado de atores, destacando-se os três protagonistas desertores do exército brasileiro — Gabriel (Pierre Baitelli), Anselmo (George Sauma) e Gustavo (Jorge Guerreiro) — e as duas figuras que habitam a fazenda macabra, o Fazendeiro sem nome (Luiz Carlos Persy) e a Garota (Jade Mascarenhas). Desse núcleo de cinco atores, todos exercem bem seu papel, mas o destaque fica para Gustavo e o Fazendeiro, que brilham em diversos momentos tanto pelo apelo humanizado de um homem negro em tal contexto — que é Gustavo, único personagem que tem sua psique interna mais bem trabalhada — quanto o Fazendeiro com seus trejeitos físicos e faciais que conseguem causar tensão, medo e simultaneamente conquistar pelo visual belissimamente bem composta. Suas atuações conduzem o filme e conseguem compensar o trabalho mais comum do restante do elenco — que está longe de ser negativo, é importante ressaltar esse aspecto.
Ficam os elogios para todo o trabalho de som da produção, os efeitos sonoros e a trilha são excelentemente bem compostos. As músicas são desconfortáveis e simultaneamente imersivas, complementando deliciosamente o visual e o andamento da narrativa, mesmo quando é, em sua grande parcela, um único instrumento de cordas que desafina e afina em diversos momentos para atuar na contínua construção de tensão. Os efeitos sonoros convencem em seus cortes e instrumentos, que nos permitem elogiar o principal destaque do longa-metragem que é a sua violência.
A violência. É simplesmente impecável todos os momentos gore que o filme ousa colocar em suas imagens, sem refrear em momento algum ou censurar aquilo que deve ser mostrado! Ouso dizer que é uma das melhores obras nacionais que assisti até o momento no que envolve a estética da violência visual bem utilizada, ainda mais com tantos efeitos práticos bem executados para passar a sensação de verossimilhança. Em nenhum singelo minuto fica caricato ou falso demais para quebrar a imersão na tensão e horror que estão sendo construídos — e quando toma ritmo não dá para trás! É de uma refrescância malévola e um alívio por serem recursos necessários para concretização do impacto narrativo e, quando ocorrem, já foi estruturado toda uma ambientação que permite tais ousadias narrativas, firmando-se no trágico e sem recuar para qualquer final que seja benevolente com as personagens. Para aqueles que possuem um estômago fraco, saibam que estão diante de um excelente horror visual. São poucas as palavras capazes de contemplar o quanto gostaria de ressaltar e elogiar esse espectro violento do filme, pois é a sua grande pérola e o que facilmente me permite recomendar para aqueles entusiastas do gênero!
Sua narrativa é o ponto intermediário, é aquele que nos permitirá caminhar aos seus lados negativos e certas inconsistências que o mantém naquilo que chamamos de: é um filme, não mesmo? Não que ela tenha se proposto como uma obra-prima ou venha criando essa imagem, aliás sinto que faltou mais investimento em seu marketing para que chegue em públicos além da bolha nerd ou de pessoas minimamente conhecedoras dos nomes que divulgam a cultura pop geek pelos meios virtuais. Furando essa bolha e chegando aos públicos mais gerais, seria mais fácil de visualizar incentivos de continuidade do próprio grupo Jovem Nerd e portas seriam abertas para que outros nomes, empresas, etc., criassem confiança em dar iniciativa para que outras obras de terror/horror chegassem aos cinemas nacionais originadas pelas nossas próprias mentes brasileiras!
Por que ela é o ponto intermediário? Naquilo que se comprometeu ela entrega, mas falta sustância. Quando dois personagens entregam sustância em sua atuação e credibilidade, porém existem outros três personagens no elenco de destaque, há algo de errado. O texto acaba tolhendo parte daqueles que o compõem, reduzindo-os a quase arquétipos: o bobo, o raivoso e a claramente garota insana. Não são explorados seus passados ou suas psiques além daquilo que é conivente para a narrativa andar. Isso é válido para o próprio Fazendeiro que é reduzido a ser uma figura misteriosa que sabe de algo para além dos personagens. Ele conquista pela atuação excelente de Luiz Carlos Persy, mas não passa dessa linha. A complexidade fica para Gustavo – que não tem tantas explicativas, mas tem mais tempo de tela e montagens rápidas de um passado que geram certa intriga e curiosidade ao menos, diferente dos outros.
Fora a problemática do anacronismo dos diálogos, manifestando certas gírias que não condizem com a temporalidade narrativa do momento. Houve um estudo muito simplista e pouco delicado em relação a esse elemento, o que gera quebras imersivas, causando certo desconforto e quase uma retirada por inteiro do pacto ficcional, dando abertura para procurar furos no roteiro. De todas as personagens, a mais inconsistente fica para Anselmo, sua atuação é nada convincente e parece destoar do trabalho dos outros, seu texto — o garoto rico que busca apoio em sua teórica herança — é no mínimo indiferente. Certas interações e informações que são entregues — principalmente quando o grupo chega na fazenda — geram dúvidas sobre a situação no geral, o que é a maior problemática do roteiro, pois não somos convencidos de quase nada ali e abandonamos a suspeita simplesmente aceitando a narrativa pelo que é. Um amontoado de coincidências convenientes para que a narrativa aconteça e se desenrole.
Quem é a Garota? Não se fala nada. Ela é um elemento lunático que está ali sofrendo, mas, novamente, não passa além disso. Não é necessário explicar minúcia por minúcia, no entanto, para gerar imersão naquela narrativa e convencer o público de seus argumentos criativos, não se pode ignorar tudo também. A figura do Fazendeiro é intrigante. Ela possui mais informações sobre o mundo do que qualquer outro na narrativa toda, é aquele que detém o conhecimento do todo; inclusive, é aquele que sabe da existência cósmica em grande parcela oculta e sugerida ao longo de boa parte da narrativa. Mas… novamente: é isso. Aceite. Não se ousa colocar o mínimo de profundidade ou background do personagem. Daí advém os problemas porque, sem ousar conceitualizar minimamente, permite-se questionar minuciosamente esses detalhes e, quando as respostas não existem, abrem-se as portas para imputar inconstâncias na qualidade do roteiro.
Nesses parâmetros, se colocarmos comparativas com outras obras lovecraftianas ou de folk horror internacionais, não há nada novo e apenas clichês bem conhecidos. Em uma perspectiva comparativa ao cenário nacional de cinema, é claramente um respiro, mas é isso. A novidade se isso chegasse em públicos internacionais é a ambientação e os elementos estéticos brasileiros, nada além ou ousado demais. O posicionamento temporal histórico em paralelo com a Guerra do Paraguai é um apelo estético somente. Se a narrativa fosse posicionada atualmente em que um grupo de viajantes em uma emergência devido a alguma ocorrência que os levasse a chegar na fazenda, acabaria cabendo no roteiro com o mesmo exato argumento. Não faz diferença nenhuma!
Existem os argumentos do limite orçamentário que não permitiu explorar mais a fundo as questões da Guerra, tudo bem, é compreensível, mas qual a sua utilidade? Nenhuma, absolutamente nenhuma, pois não explora nada além de que os personagens são um grupo de desertores. É triste ver uma oportunidade tão rica ser desperdiçada, pois seu potencial era grandioso para valorizar nossa historicidade. Ah, mas foram anunciados outros projetos, incluindo uma graphic novel da obra que irá explorar mais a fundo outros elementos narrativos dessa história; porém são adjacentes, são extras, fora dessa mídia, que, mesmo complementando, não fazem diferença alguma ao pensar na experiência isolada de ir ao cinema e testemunhar a narrativa. Essa escolha deliberada acaba enfraquecendo, pois vai se tornando um elemento de marketing que fica reduzido à: nossa um filme de terror/horror ambientado na Guerra do Paraguai; não se aprofunda em absolutamente nada além dos uniformes dos personagens no início da narrativa. Talvez seja o ponto mais negativo da produção e de maior frustração já que, ao pensar sobre seus potenciais, o coração se enche de pesar por não terem explorado aquilo que mais deveria ter sido valorizado…
E advém uma reflexão: por que não ousar mais ainda e utilizar de elementos folclóricos, imaginários e criativos nacionais? Não é necessário ir ao universo cósmico de Lovecraft para estruturar uma narrativa de terror, afinal não estamos nos Estados Unidos. Por que não valorizar o imaginário de terror/horror brasileiro que tem tanto potencial em lendas e mitos históricos para a composição de um longa-metragem do gênero com uma identidade mais brasileira ainda? Ficam-se as sugestões e provocações. A Própria Carne é um pontapé inicial que, mesmo com essa recepção morna, não pode ficar somente em um pontapé. Que seja o primeiro de muitos projetos para um cenário rico e com tantos caminhos para serem explorados.
Os elogios e críticas que ressalto estão longe de buscar um martelo de negação, mas sim um cajado de luz para que as sombras de terror e horror sejam valorizadas também em nosso cinema e conquistem renome para além das terras brasileiras ou da bolha geek/nerd da internet! Mesmo que saia dos cinemas, busquem pesquisar, busquem assistir, busquem incentivar que outros assistam para que assim nosso imaginário criativo fantástico encontre cada vez mais oportunidades de se manifestar, ganhando reconhecimento e renome como as nossas obras nossas adeptas do realismo. Que A Própria Carne não seja um título esquecido, mas lembrado como precursor de um futuro dourado para os entusiastas e defensores do imaginário criativo e fantástico tupiniquim.
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Filme: A Própria Carne Elenco: Pierre Baitelli, George Sauma, Jorge Guerreiro, Luiz Carlos Persy, Jade Mascarenhas, Eber Inacio Direção: Ian SBF Roteiro: Ian SBF, Alexandre Ottoni, Deive Pazos Produção: Brasil Ano: 2025 Gênero: Ação, Terror, Thriller Sinopse: Três soldados desertores da Guerra do Paraguai encontram uma casa isolada na fronteira, habitada por um fazendeiro e uma jovem. O que parecia ser um refúgio se transforma em um pesadelo quando eles descobrem que o local esconde segredos. Classificação: 18 anos Distribuidor: Nonsense Creations, Neebla Filmes Streaming: Indisponível Nota: 7,5 |

