A virada do século XX para o XXI estabeleceu um silencioso ponto de inflexão no cinema brasileiro, marcado por transformações na dimensão estético-narrativa das produções e uma maior flexibilidade e criatividade quanto ao processo de produção, distribuição e exibição. Esse momento histórico sinaliza a passagem do pulsante Cinema da Retomada dos anos 1990-2000 para o eclético e inventivo Novíssimo Cinema Brasileiro. Dirigido pela baiana Letícia Simões, A Vida Secreta de Meus Três Homens enquadra-se perfeitamente no cânone heterodoxo desta atual fase da nossa cinematografia.
Projeto de cunho pessoal da diretora, o longa, exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes realizada em 2025, é uma grande ode intimista à experimentação, situada a meio termo entre a autobiografia familiar docuficcional e a encenação teatral no divã. Os três homens indicados no título, aqui representados fantasmagoricamente, integram a história de vida de Letícia: seu avô, Arnaud (Guga Patriota), que foi cangaceiro e conheceu Lampião; seu pai, Fernando (Giordano Castro), que colaborou com a ditadura militar no país, atuando secretamente para o Serviço Nacional de Informações (SNI); e seu tio, Sebastião (Murilo Sampaio), um homem negro e gay a quem coube, inconscientemente, a missão de preservar a memória da família por meio de registros fotográficos.
Convocado pela própria cineasta, esse encontro é norteado pelo seguinte questionamento: como chegamos ao Brasil de hoje? Ainda que se compreenda os propósitos da cineasta ao conceber a ideia do filme – uma espécie de linha do tempo da violência perpetrada por uma sociedade patriarcal e machista, tendo como marco simbólico os homens de sua família -, vale dizer, a bem da verdade, que aquela pergunta não recebe uma resposta proporcionalmente à altura da grandeza e importância dela enquanto problemática histórico-social pertinente aos dias atuais. O material em mãos, composto por fotos e pelo resgate de acontecimentos do passado feito por meio de memória oral, realmente é rico em nuances sociológicas e bastante propício a abordagens outras distintas da representação meramente ficcional; todavia, a escolha de trazê-lo à tona recorrendo-se a um método de encenação radical em sua iconoclastia, e de consequências imprevisíveis junto ao público, passa a impressão de uma tergiversação relativamente estéril ao nível discursivo, de modo que a força daquelas três histórias, que se entrecuzam ao longo do tempo, esvai-se ante o choque causado pelos contornos formais assumidos pela obra em seu processo de desconstrução narrativo.
A Vida Secreta de Meus Três Homens inegavelmente mostra-se como um trabalho detentor de personalidade, com destaque para a pernambucana Nash Laila, que faz o papel de narradora (ou, melhor dizendo, Letícia Simões) e serve de âncora de emoções do filme. Por outro lado, o estranhamento imposto pela mise-en-scène minimalista talvez seja algo que dificulte, ou mesmo impeça, o espectador de vivenciar a narrativa como algo próximo a si, e de maneira fluida e empática. Há méritos em pôr os personagens/atores à mesa, evidenciando, assim, a nebulosidade que, por vezes, caracteriza as fronteiras entre o real e o ficcional; esse desvelamento possui um quê de encanto à primeira vista. Reconheça-se, porém, os riscos assumidos por uma empreitada dessa natureza, na qual constata-se o abandono de elementos que, costumeiramente, auxiliam no desenvolvimento da narrativa, a exemplo do figurino e da maquiagem. Em outras palavras, à singeleza formal de uma obra cinematográfica nem sempre corresponde conteúdo capaz de tornar memorável aquilo visto em tela.
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Filme: A Vida Secreta de Meus Três Homens Elenco: Nash Laila, Guga Patriota, Giordano Castro, Murilo Sampaio, Letícia Simões Direção: Letícia Simões Roteiro: Letícia Simões Países: Brasil Ano: 2025 Gênero: Documentário, Drama Sinopse: Três fantasmas se reúnem para responder a uma pergunta: como chegamos ao Brasil de hoje? Os três homens convocados são: Fernando, boêmio pai de família e colaborador da ditadura militar; Arnaud, adolescente que se envolveu com um grupo de justiceiros; e Sebastião, fotógrafo negro e gay que perdeu o amor de sua vida. Classificação: 14 anos Distribuidor: Embaúba Filmes Streaming: Indisponível Nota: 4,0 |

