CRÍTICA – A VOZ DE DEUS

CRÍTICA – A VOZ DE DEUS

Penso que ao escrever sobre o filme A Voz de Deus – filme da Competitiva Nacional do 14º Olhar de Cinema -, o texto deveria ser sobre uma ficção em um mundo distópico. Afinal, me parece inconcebível a ideia de pastores mirins pregando em grandes templos e falando sobre adultério e fornicação. Mas o diretor Miguel Antunes Ramos faz questão de nos mostrar como essa prática tem se difundido no Brasil e explicar, ainda que não faça parte do argumento de seu filme, o fenômeno Miguel “Off The King The Power “ Oliveira, o mais novo pastor mirim pop que se autointitula profeta.

Em A Voz de Deus, o diretor nos apresenta, num primeiro momento, um garotinho chamado Daniel que tem sua vida toda voltada à igreja. Sua rotina era de pregações em igrejas e templos, e idas em programas de TV. Em poucos minutos percebemos que a infância daquele garoto foi perdida, pois após uma elipse já o vemos com 16 anos, em uma vida simples, tentando pregar em igrejas de bairro e, por vezes, não conseguindo sequer mais espaço nestas; resta-lhe, então, o resgate daquilo que lhe foi tomado da infância, um momento de diversão com um amigo, em casa à noite, jogando videogame.

Se Daniel deixou de existir para os pastores, agora é a vez de João Vitor Ota que, aos 7 anos, já se veste com roupa social e blazer para seu compromisso na igreja. Ele é a nova sensação e está fazendo exatamente o mesmo caminho trilhado por Daniel e, nesse sentido, é interessante como Miguel Antunes Ramos constrói esse filme através de um método: mostrar as fases pelas quais cada pastor mirim irá passar, ainda que aqui se resuma a estes dois personagens – Daniel e João Vitor. Há, contudo, diferenças entre eles, sobretudo em relação ao período tecnológico em que cada um viveu em seu, digamos, “apogeu”. Daniel gravou louvores em DVDs e a venda dessas mídias era boa parte da renda de sua família. João Vitor, por sua vez, já está inserido nas redes sociais e tem seu sucesso medido pelo número de seguidores e placas recebidas do Youtube. Enquanto que Daniel pereceu para as atualizações tecnológicas e seus dvds, agora, apenas ocupam espaço dentro de uma mala guardada no armário, João Vitor se utiliza das redes sociais para fazer propagandas de lojas de roupas e até se aventurar em criar sua própria marca de vestuário.

Assistindo a outras obras do diretor, deparei-me com o curta Salomão (2013), um filme de 4 minutos de duração sobre a construção do Templo de Salomão, em São Paulo, uma obra faraônica realizada com o dinheiro de doações de fiéis e de tantos outros enganados por Edir Macedo e sua trupe. Aqui já conseguimos perceber o posicionamento do diretor em relação a todo este “espetáculo” promovido pela Igreja Universal do Reino de Deus, mas em A Voz de Deus ele vai além. Mostra como não existem escrúpulos por parte dos pastores ao usar e explorar a imagem dessas crianças para enriquecimento, fazendo delas verdadeiros caça-níqueis, e abandoná-las quando estas estão crescidas e deixaram de ter o mesmo apelo que tinham anos antes.

É preciso destacar, também, o papel da figura paterna, especificamente, em relação aos casos de Daniel e João Vitor. Eles são, ao mesmo tempo, vítimas e responsáveis por toda exploração em cima de seus filhos. Vítimas pelo fato dos pastores usarem, com falsas promessas, de suas fés para acreditarem em um projeto de prosperidade. E responsáveis pelos longos anos de exploração destas crianças em detrimento de uma infância vívida e vivida e, ao mesmo tempo, não perceberem que continuam sendo usados por pastores que gozam de fama, sucesso e dinheiro, morando bem longe do país. Há uma passagem no documentário em que o pai de João Vitor conversa por telefone com um pastor que mora em Boston (Estados Unidos); tal cena mostra todo o capachismo desse pai, fruto da subserviência adotada como ideologia da maioria das igrejas e religiões, ao mesmo tempo em que mostra uma fala vazia do pastor que responde de forma monossilábica “sim”, “certo”, “bom”, deixando a impressão que só quer que aquela ligação termine.

Daniel e João Vitor estão do mesmo lado da moeda. O lado daqueles que serão usados enquanto derem algum retorno à igreja, mas que serão abandonados ao menor sinal de que os seus encantos com os fiéis não surtem mais tanto efeito. Daniel já não quer mais pregar. Tem uma família a qual precisa sustentar. João Vitor, como bem construído na cena final, ainda se equilibra em cima de um touro mecânico, à espera dos últimos segundos antes de sua queda, uma metáfora para os seus últimos dias de “fama” dentro da igreja.


Filme: A Voz de Deus
Elenco: Daniel Pentecoste, João Vitor Ota
Direção: Miguel Antunes Ramos
Roteiro: Miguel Antunes Ramos, Alice Riff
Produção: Brasil
Ano: 2025
Gênero: Documentário
Sinopse: Com o crescimento do neopentecostalismo no Brasil da última década, um fenômeno popular ganhou os púlpitos das igrejas e as telas dos smartphones: a pregação religiosa ministrada por crianças. Mergulhando no universo familiar e da fé de dois pastores mirins de gerações distintas, Antunes Ramos (de “A Flecha e a Farda”, exibido no Olhar’20) revela a infância e a juventude escondidas sob a construção de suas figuras públicas, ao mesmo tempo em que oferece pistas para a compreensão de um país no qual política e religião frequentemente se confundem.
Classificação: 12 anos
Distribuidor: Não Informado
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

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