Estreia da pernambucana Milena Times em longas-metragens, Ainda Não é Amanhã propõe-se a trazer, para a realidade da terra natal da diretora, o debate em torno de uma gravidez inesperada, que se torna um calvário para uma jovem mal saída da adolescência. Janaína (Mayara Santos), 18 anos, preta e periférica, estudante de Direito numa faculdade privada, mora com a avó e a mãe num pequeno apartamento no Recife. Certo dia, após o atraso da menstruação, ela faz o teste e descobre que está grávida do namorado; e logo percebe que o seu futuro, até então destinado a fazer dela a primeira mulher da família a possuir um diploma universitário, corre sérios riscos de ser interrompido.
Em diálogo direto com a luta das mulheres em prol da autonomia sobre os seus próprios corpos, e a consequente defesa da descriminalização do aborto, o cinema contemporâneo tem estado mais aberto a discutir o tema, elegendo prioritariamente, para isso, a perspectiva do lugar de fala assumido por cineastas mulheres. Bons exemplos disso são obras como Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre (Eliza Hittman, 2020), O Acontecimento (Audrey Diwan, 2021), Incompatível com a Vida (Eliza Capai, 2023) e Levante (Lillah Halla, 2023). Ainda Não é Amanhã se inscreve diretamente nesse rol de obras cinematográficas que versam sobre o aborto de maneira mais franca, retirando-o da esfera narrativa do tabu.
Há de se considerar como positiva a decisão de não tratar o aborto sob uma perspectiva panfletária, do tipo que insiste em esfregar na cara do público ideias que supostamente seriam de entendimento óbvio, e, por isso mesmo, não necessitariam de quaisquer explicações para serem aceitas. Existe uma preocupação genuína de Milena Times quanto a discutir a questão de maneira orgânica e sutil, por meio da dialética estabelecida entre a universalidade moral do tema e a particularidade da realidade vivida por Janaína. O tom mais intimista conferido à abordagem, sem o recrutamento de religiosos pró-vida como antagonistas, potencializa o foco da narrativa na autonomia feminina com relação ao seu corpo.
O discurso quanto à escolha de trazer ou não uma nova vida ao mundo é posto factual e materialmente em cena, acessando-se os pormenores do cotidiano da protagonista, incluindo os inúmeros riscos que se impõem à sua tentativa clandestina de driblar a proibição legal do aborto no Brasil, contando com a ajuda da inseparável amiga Kelly (Bárbara Vitória). Aliás, sororidade é um conceito que se aplica bem ao desenvolvimento narrativo do longa, uma vez que a rede (visível ou não) de solidariedade e apoio mútuo entre mulheres, estabelecida como estratégia de (r)existência, ganha contornos bastante evidentes.
Se sobra sensibilidade no trato da história pessoal de Janaína, há, por outro lado, um certo vazio no modo como as demais personagens são exploradas, considerando-se o seu lugar na narrativa. Mesmo a mãe ou a avó dela não possuem maior relevância no transcorrer da trama. Ao renunciar a uma construção mais aprofundada com relação àqueles que orbitam a protagonista no seio afetivo-familiar, Ainda Não é Amanhã acaba por redimensionar a encenação, desdramatizando-a um pouco excessivamente. A dor existencial em meio à gestação deixa rastros perceptíveis em seu dia a dia, a exemplo da queda no rendimento na faculdade, mas não há espaço para compartilhá-la com outrem em seu próprio lar. Até certo ponto, isso é compreensível, haja vista ser comum o julgamento condenatório da parte de familiares em situações envolvendo a precocidade da experiência da maternidade; todavia, a escala desse “distanciamento” intergeracional contém uma dose de exagero não palatável por completo para o espectador.
Comente-se, ainda, sobre o tom genérico de grande parte das cenas no tocante à decupagem, que apela constantemente para planos desprovidos de uma “imaginação cinematográfica”, quase sempre enquadrando as personagens de maneira frontal nos espaços ocupados por elas. Os aspectos técnicos e estéticos subjacentes a uma crítica dessa ordem não dizem respeito ao desejo latente por uma abordagem maneirista – cinematograficamente seria até indevida neste caso. Apenas está a se afirmar que falta uma visão criativa de contornos melhor definidos em relação àquele universo fílmico apresentado ao público.
Em que pese as limitações derivadas da incipiente experiência de Milena Times com histórias de maior fôlego, Ainda Não é Amanhã se constitui como obra que entende a importância de discutir sua temática central negando-se bandeiras caricatas e reducionistas. Mais que uma causa política, o aborto é uma realidade na vida de milhares de mulheres, as quais padecem em silêncio por não terem a liberdade para tomar decisões que atravessam a existência de seus corpos. Nesse sentido, filmes como este são fundamentais para que se amplie o debate a respeito de uma prática conhecida de todos, mas convenientemente jogada para debaixo do tapete em razão da hipocrisia social. Mesmo não sendo impactado por alguns aspectos de ordem criativa da mise-en-scène, visualmente acanhada, não há como negar a sensibilidade discursiva do projeto, inscrito diretamente no rol de trabalhos contemporâneos dedicados a perscrutar o tema a partir do olhar de cineastas mulheres.
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Filme: Ainda Não é Amanhã Elenco: Mayara Santos, Clau Barros, Cláudia Conceição, Bárbara Vitória, Mário Victor, Guta Menelau, Lalá Vieira. Direção: Milena Times Roteiro: Milena Times Produção: Brasil Ano: 2024 Gênero: Drama Sinopse: Janaína está no primeiro ano da faculdade de Direito e é a primeira pessoa da família que consegue acessar a universidade, mas uma gravidez indesejada ameaça os planos que ela havia traçado. Classificação: 14 anos Distribuidor: Embaúba Filmes Streaming: Indisponível Nota: 6,0 |

