Celine Song segue investindo em histórias de amor. Se em Vidas Passadas (2023) Song abusou do melodrama em uma história na qual a protagonista Nora se vê diante de um amor do passado, que a faz pensar em como sua vida seria ao lado daquele que fora sua paixão da juventude, aqui, em seu mais novo filme, Amores Materialistas, ela trabalha o amor através de uma outra perspectiva, mais fria e mais distante. O melodrama quase não entra na trama – o que pode decepcionar aqueles que esperam assistir um Vidas Passadas 2 –, pois a discussão base é sobre as artificialidades dos relacionamentos e das buscas por pares perfeitos com base em características que mais parecem comandos para a criação de um prompt de ChatGPT – ou de qualquer outro software de inteligência artificial.
Dakota Johnson é Lucy, uma casamenteira que trabalha em uma empresa cujo serviço é achar o par perfeito de sua (ou seu) cliente e o sucesso é medido através do número de casamentos arranjados. O amor aqui é um produto que pode, ou não, estar envolvido no serviço. E é exatamente assim que o amor vai ser tratado neste filme, como um elemento muitas vezes descartável nas relações atuais, uma vez que estas estão mais pautadas na estabilidade financeira e na estética do parceiro. Song designa muitos minutos para a protagonista Lucy entrevistar seus clientes e não economiza na grande lista de perguntas, que se repetem em diversas cenas, mostrando o quão robotizado se tornou, para alguns, essa busca pela “alma gêmea”.
A diretora, que também assina o roteiro, se mostra bem crítica, através de alguns diálogos bem colocados no filme, sobre determinadas pressões sociais que ainda existem, como por exemplo a necessidade de um casamento e a posterior formação de uma família custe o que custar e, por vezes, custando a própria felicidade, se for para saciar alguma necessidade imediata, mesmo que infantil – isto fica claro no filme quando temos uma personagem se casando, e seu futuro marido é mais rico e mais bonito que o da irmã, o que, para ela, significa que “venceu”.
O filme é todo visto através do olhar da personagem Lucy e seu arco tem uma virada importante para o acompanhamento dos desdobramentos da trama. Se em um primeiro momento Lucy vê seus clientes por trás de adjetivações e demandas e, mesmo assim, se mostra completamente confortável, seu nivel de importância, principalmente com uma de suas clientes, a Sophie, muda ao passo que ela mesma se vê envolvida entre Harry (Pedro Pascal) e John (Chris Evans), dois personagens bem antagônicos quanto ao que representam para Lucy, mas que funcionam como argumentos para o que a narrativa está discutindo.
Harry é um parceiro promissor – um bom negócio – que trará a estabilidade e o conforto que Lucy (e todo mundo) quer, mas nesta relação a solidão também se fará presente em diversos momentos, e Song faz questão de ser instantânea quanto a essa apresentação e a faz através de planos mais abertos explorando a imensidão daquele apartamento e a personagem só, extremamente pequena naquela referência adotada. No contraste feito pela diretora temos John, um trabalhador de uma camada bem mais baixa que Harry, que está em diversos subempregos para conseguir pagar o aluguel do apartamento que já é rachado com amigos. Até as cores adotadas nas cenas com Harry e com John servem a esta função de espelhar o que cada um significa: Frio/Quente, Solidão/Companheirismo, Distância/Aconchego e tantos outros elementos dicotômicos.
Embora a diretora se aproprie de certas qualidades e características dos três atores e as utilize nos desenhos de seus respectivos personagens, seu maior acerto está no uso do charme, já bem conhecido, de Pedro Pascal. Ela quer que em determinado momento o público torça por ele sem levar em consideração tudo o que se passa ao redor, e este objetivo é atendido. Mesmo com um romance frio, distante e protocolar, o espectador compra o desejo de Lucy por um relacionamento estável, com luxos, mesmo que exaustivamente burocrático em termos de temperatura e intensidade. O longa chega a diminuir a rotação quando eles estão em cena, mas não com uma ideia de contemplação do momento e sim para evidenciar o quão devagar será o passar daqueles dias.
Ao construir o arco de Lucy e John, ela se aproxima mais do melodrama visto em Vidas Passadas e se utiliza de elementos para forçar a conexão do espectador com a história dos dois: flashbacks para mostrar que entre eles já existe uma história, uma conexão; rimas narrativas que colocam o personagem John, claramente, como alguém que precisa mais da nossa empatia e o próprio gestual dos corpos. Há uma sintonia por trás dos encontros desajeitados entre Lucy e John e, por mais que o olhar de Chris Evans não seja como o de Pedro Pascal, existe muito mais calor quando eles se olham e aparece, de fato, amor quando eles estão juntos, mesmo que apenas conversando.
O filme quando chega ao final recai no clichê do amor na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza – e isso custa um pouco caro ao seu clímax. Isso porque o tom adotado por toda a narrativa foi o de um romance mais maduro, mas afeito à realidade, sem extravagâncias ou sem soar fabulesco. E a forma como Song conduz o final do filme vai de encontro a tudo isso, pois tem na construção de sua última cena tudo o que teria na cena final de um conto de fadas. Uma coisa é certa, Celine Song acredita no amor e está construindo uma verdadeira ode a este nobre e belo sentimento com seus filmes. Qual será a sua próxima história?
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Filme: Materialists (Amores Materialistas Elenco: Dakota Johnson, Pedro Pascal, Chris Evans, Zoe Winters, Marin Ireland, Dasha Nekrasova, Emmy Wheeler, Louisa Jacobson Direção: Celine Song Roteiro: Celine Song Produção: Estados Unidos Ano: 2025 Gênero: Romance Sinopse: Uma jovem e ambiciosa casamenteira (Dakota Johnson) de Nova York se vê dividida entre o par perfeito (Pedro Pascal) e seu ex-amor imperfeito (Chris Evans). Classificação: 14 anos Distribuidor: Sony Pictures Streaming: Indisponível Nota: 8,0 |

