CRÍTICA – APANHADOR DE ALMAS

CRÍTICA – APANHADOR DE ALMAS

Apanhador de Almas, dirigido pela dupla Fernando Alonso e Nelson Botter Jr., leva o espectador a uma data especial: um eclipse solar. Neste dia, um grupo de quatro amigas, aspirantes à bruxas, visitam a casa de uma mentora em busca de um ritual mágico. Entretanto, o ritual é interrompido e elas ficam presas em uma dimensão estranha, na qual o Apanhador de Almas reside.

Um mundo em movimento

A obra de Alonso e Botter lança o espectador diretamente em um mundo já em andamento, sem prólogos ou anseios. O quarteto de bruxas chega ao seu destino e, de imediato, somos mergulhados naquele universo. Olivia (Duda Reis) cumpre a função de situar o público ao gravar um story que apresenta rapidamente as personagens e a missão – o suficiente para que a jornada possa começar. Não sabemos muito, mas sabemos o necessário. De certo modo, há uma lógica quase episódica, como se fosse parte de uma série: a narrativa se basta em sua unidade, mas também soa como um fragmento daquelas vidas. É uma dinâmica que a princípio pode causar certo estranhamento, mas, à medida que os acontecimentos se revelam (que não vou detalhar para privar meu leitor de spoilers), a estrutura adquire uma nova perspectiva.

Logo mais, entra em cena Rea (Ângela Dip), uma bruxa mais experiente que assume a posição de mentora do ritual. Dentro dessa lógica episódica e direta, as personagens – incluindo Rea – assumem um contorno quase caricatural. Assim como o espectador não tem acesso ao passado daquele mundo, tampouco as figuras em cena parecem carregá-lo consigo; pouco importa o que foram antes, interessa apenas quem e o que são agora, sob o eclipse. Não é à toa que a única personagem que arrisca revelar algo de sua história pessoal é também a primeira a morrer.

Nesse sentido, elas são menos pessoas do que são totens: figuras simbólicas destinadas a ocupar os cinco polos do ritual. Cada uma existe como uma intensificação de sua característica mais marcante; uma certa exageração que as define por completo. E se isso soa, à primeira vista, como um apontamento negativo, não me interprete mal, leitor; estes parágrafos foram um elogio!

O limbo de Apanhador de Almas

Assim que o ritual começa, como todo bom filme de terror, as coisas começam a sair do controle. A cabana onde se encontram é arrancada do real e lançada a uma espécie de limbo. Se, na vida daquelas personagens, nada parece existir além do próprio filme, aqui também nada existe além da cabana. Do lado de fora, uma névoa esverdeada recobre o espaço, tornando impossível qualquer fuga. Em uma dessas tentativas, o mistério desse limbo se manifesta de modo radical: Isabella troca de intérprete – quem parte é Priscila Sol, quem retorna é a excelente Larissa Ferrara. Um gesto que reforça o cerne da obra: não importa tanto quem são elas, mas sim o que estão fazendo ali, presas à lógica do ritual.

O limbo lá fora é brilhante e verde, belamente estilizado. Aleḿ das cores, há uma desorientação visual muito palpável: sombras atravessam o quadro como lampejos de um pesadelo, vozes ecoam sem origem definida, a câmera falha, gira, altera sua cadência de quadros por segundo. Apanhador de Almas é, no geral, um filme bem interessante visualmente. Dentro da cabana as coisas não são diferentes. A dupla de diretores parece se divertir bastante ao explorar, sobretudo, a iluminação cromática; quartos azuis, cômodos vermelhos, outros em laranja; sempre há uma pirotecnia visual no plano que deixa o ambiente mais psicodélico e instável. Há, inclusive, até algumas referências visuais à Suspiria (1977), de Dario Argento.

Clássica cabana de bruxa

Mas, nem só de iluminação colorida vive uma imagem. Alonso e Botter elaboram um espaço que, em sua essência, é a casa de uma bruxa no sentido mais clássico possível: animais empalhados, velas, pentagramas, artigos religiosos – tudo aquilo que se espera encontrar em um território de feitiçaria. A ambientação, assim, é direta e quase lúdica, repleta de tropos do terror. É como uma cabana saída de um conto de fadas sombrio, de um devaneio infantil assombrado, de uma narrativa dos Irmãos Grimm. O antagonista, o próprio Apanhador de Almas, mantém esse espírito: sempre envolto em sombras, mas com detalhes visíveis que, justamente por se deixarem entrever, se tornam ao mesmo tempo cativantes e ameaçadores.

Com uma câmera que se recusa a ficar parada, a dupla de diretores dá ao filme um aspecto orgânico. Não se trata de agitação, mas de um impulso contínuo, ativo o suficiente para transmitir curiosidade. É como se o dispositivo estivesse atento a tudo que acontece ali: quer explorar a casa, conhecer melhor as personagens, descobrir o que elas farão a seguir. Quer sondar o espaço e as figuras que o habitam, como se estivesse menos registrando do que partilhando da sua expectativa.

Apanhador de Almas e a paranóia

Através desses detalhes, vai se criando um clima (terrível, rs) de paranóia. As cinco bruxas – esses cinco totens ritualísticos – mergulham em uma espiral de desconfiança e medo e arrastam o espectador junto. Nós, assim como elas, nunca sabemos ao certo o que vai acontecer. Quem será a próxima a morrer? Qual o próximo perigo que surgirá? Quem irá perder a cabeça agora? Até mesmo a revelação final: há indícios dela espalhados ao longo do filme todo, mas nunca conseguimos ter plena certeza de que a teoria que elaboramos de fato se concretizará.

Assim, Apanhador de Almas é um filme honesto. Em outras palavras, tem plena consciência de suas limitações (inclusive orçamentárias), e nunca tenta ser maior do que elas; pelo contrário, transforma esses limites em parte de sua força. Um terror lúdico: divertido, mas sempre ameaçador. Surge e morre em um espaço restrito, quase como uma série concentrada em um só episódio. Um longa sobre alguns minutos presos no limbo – mas que você, espectador, não deveria deixar no limbo da sua watchlist.


Pôster do filme Apanhador de Almas Filme: Apanhador de Almas
Elenco: Klara Castanho, Ângela Dip, Jessica Córe, Larissa Ferrara, Priscila Sol, Duda Reis
Direção: Fernando Alonso, Nelson Botter Jr.
Roteiro: Fernando Alonso, Nelson Botter Jr., Tarsila Araújo
Produção: Brasil
Ano: 2025
Gênero: Fantasia, Terror
Sinopse: Ao performar um ritual durante um eclipse solar, cinco bruxas ficam presas em um limbo dimensional.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Retrato Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

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