CRÍTICA – ATO NOTURNO

CRÍTICA – ATO NOTURNO

Ato Noturno, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, a mesma dupla por trás do ousado Tinta Bruta, é um filme que observa o presente com olhos treinados pelo passado. Sua mise-en-scène reverencia e atualiza a tradição dos thrillers eróticos e dos suspenses atravessados por pulsões psicossexuais que marcaram um momento específico de Hollywood, quando o sexo não era apenas tema, mas linguagem, atmosfera. No entanto, em vez de se limitar à citação ou a uma possível imitação, o longa desloca essa herança para um território urbano, brasileiro e contemporâneo, impregnado de desejo, repressão e ambição.

Desde seus primeiros movimentos, a narrativa se organiza sob o signo da ameaça. A câmera se aproxima dos corpos em zooms insistentes, quase invasivos, como se quisesse atravessar a superfície da pele e alcançar aquilo que os personagens tentam manter oculto. A tensão se adensa em espiral, sustentada por jogos de olhar, silêncios prolongados e gestos contidos, enquanto a violência, tanto física como simbólica e política, paira como um espectro permanente. Trata-se de um thriller que reconhece o imaginário dos filmes noir, mas injeta nele uma sujeira urbana menos disfarçada, mais tátil, que rima com o tesão latente dessa abordagem contemporânea do gênero.

O filme acompanha Matias (Gabriel Faryas), um jovem ator em formação, imerso no cotidiano precário de ensaios, testes e pequenas humilhações que estruturam o meio artístico. Ele divide o apartamento com Fábio (Henrique Barreira), colega de quarto e rival afetivo, cuja presença é ao mesmo tempo íntima e ameaçadora. Quando Fábio é convidado para um papel de destaque em uma série de televisão, Matias assiste, em silêncio, ao sucesso do amigo que parece sempre um passo à frente. Paralelamente, ele conhece Rafael (Cirillo Luna) por meio de um aplicativo de encontros. Rafael é político, candidato à prefeitura da capital gaúcha, e carrega nos ombros o peso de uma imagem pública que não admite fissuras. Bonito, ambicioso, estrategista, vive sua homossexualidade na clandestinidade, temeroso do julgamento de um eleitorado conservador e de um sistema político que ainda exige corpos normativos, heterossexuais e domesticados.

O encontro entre Matias e Rafael começa como tantos outros: direto, físico, quase anônimo. Mas logo se transforma em algo que ultrapassa o sexo e se converte em vínculo, em afeto, em dependência emocional. Porém, é um amor que nasce condenado: para Rafael, a relação representa um risco político, enquanto para Matias, uma exposição perigosa em um mercado audiovisual que ainda exige galãs no armário e impõe cláusulas silenciosas sobre comportamento, imagem pública e “vendabilidade”.

A partir desse núcleo, o filme constrói um espelhamento cruel entre seus protagonistas, que são interpretados com precisão por um elenco que compreende a artificialidade essencial do projeto e a incorpora como método. O político e o artista passam a refletir um ao outro. Rafael vive obcecado pela vitória, pela ascensão, pela conquista do poder institucional. Matias, por sua vez, assimila essa lógica e descobre, à medida que se aproxima do sonho de reconhecimento, as exigências podadoras de um sistema que cobra silêncio, discrição e submissão. Ambos aprendem que, para vencer, talvez seja preciso mutilar partes de si.

Essa dinâmica é atravessada pela intriga entre os dois amigos de apartamento. A rivalidade entre Matias e Fábio se intensifica, alimentada por ressentimento, inveja e desejo. Há uma tensão quase erótica nesse embate, uma relação de poder e de perda em que cada conquista de um representa a humilhação do outro. O filme transforma essa disputa numa engrenagem dramática que sustenta o suspense: ninguém é completamente inocente, ninguém está livre de manipular ou ser manipulado.

Visualmente, o longa aposta numa estilização que é, ao mesmo tempo, elegante e suja. A cidade surge como um território de sombras, becos, bares e apartamentos anônimos, onde o desejo circula de forma subterrânea. O voyeurismo atravessa a mise-en-scène: o espectador é convocado a ocupar o lugar de quem observa corpos em trânsito, encontros rápidos, olhares que se cruzam em banheiros, boates e cruising bars. A câmera não julga, mas deseja junto.

O filme dialoga diretamente com práticas e dinâmicas reais da vivência LGBTQIA+. O cruising aparece não apenas como prática sexual, mas como forma de socialização, de reconhecimento entre iguais, de validação e contestação de performances de masculinidade e gênero. Esses espaços de bares, saunas, dark rooms e até ruas, surgem como territórios de liberdade possível, mas também de risco e clandestinidade. Historicamente, o cruising é uma resposta à repressão e à ausência de espaços seguros para corpos dissidentes. Sua existência é um sintoma direto da homofobia estrutural que empurra o desejo para a margem e é justamente aí que o filme encontra sua camada política mais contundente: ambientado no sul do país, região ainda atravessada por um conservadorismo persistente, Ato Noturno fala de repressão com uma frontalidade rara no cinema brasileiro contemporâneo. A libertação sexual que o filme encena é sempre estilizada, mas jamais ingênua. Ela carrega o peso de uma sociedade que tolera o desejo apenas enquanto ele permanece invisível.

Mesmo quando flerta com o realismo urbano, o longa não abre mão de uma teatralidade assumida. Há reviravoltas melodramáticas, situações-limite, encontros que parecem coreografados pela lógica do excesso. Tudo é artificial, e é justamente essa artificialidade que os diretores transformam em motor estético. O elenco sustenta essa chave sem deixar que o jogo descambe para a caricatura. A atuação é precisa na impostação desse mundo onde tudo é performance: a política, o amor, a masculinidade, o sucesso. A trilha sonora de Thiago Pethit reforça essa atmosfera de desejo e ameaça, conduzindo a narrativa como um maestro conduz uma orquestra à beira do colapso. Cada música parece anunciar que algo vai ruir, que alguém vai cair, que um segredo está prestes a ser revelado.

No fim das contas, Ato Noturno é um filme sobre ambição, sobre os custos do sucesso e sobre as violências sutis (e as vezes nem tão sutis assim) que atravessam corpos dissidentes em busca de reconhecimento. É um thriller erótico que fala de amor, mas sobretudo de medo: medo de perder, medo de se expor, medo de existir em voz alta. Entre aplicativos, palcos, palanques e quartos escuros, o filme constrói um retrato amargo de um país que ainda exige silêncio em troca de aceitação. Um país onde o desejo continua sendo uma força política e, por isso mesmo, perigosa.


Filme: Ato Noturno
Elenco: Gabriel Faryas, Cirillo Luna, Henrique Barreira, Ivo Müller, Kaya Rodrigues, Larissa Sanguiné, Gabriela Greco, Antonio Czamanski
Direção: Filipe Matzembacher, Marcio Reolon
Roteiro: Filipe Matzembacher, Marcio Reolon
Produção: Brasil
Ano: 2025
Gênero: Thriller, LGBTQIAPN+
Sinopse: Um ator ambicioso e um político em ascensão vivem um caso em sigilo e, juntos, descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. À medida que se aproximam da fama, mais intenso se torna o desejo de se colocarem em risco.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Vitrine Filmes
Streaming: Não disponível
Nota: 8

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