A cinebiografia íntima Blue Moon narra a dolorosa decadência de um dos maiores gênios da Era de Ouro do teatro musical: Lorenz Hart (Ethan Hawke). Na noite de 31 de março de 1943, o musical Oklahoma!, que se tornaria um dos mais influentes da história, estreia sob todos os holofotes. A peça é comandada pelo ex-parceiro de Lorenz, Richard Rodgers (Andrew Scott), e um novo colaborador. Enquanto isso, em uma mesa de canto do icônico restaurante Sardi’s, Lorenz luta contra o alcoolismo e a queda de autoconfiança.
No início do filme, o protagonista caminha embriagado por um beco escuro em Nova York. Fraco, doente e sem equilíbrio, cai sobre o chão molhado pela chuva: o momento que antecede a sua morte. Essa cena não só estabelece a crise do personagem, como também introduz uma atmosfera dos anos 1940, não a partir de uma representação fidedigna, mas filtrada pela estética dos filmes noir: a iluminação precária, as vestes da época e a forte presença da chuva priorizam o simbolismo em detrimento da precisão histórica.
Blue Moon poderia ser apenas mais uma de tantas cinebiografias lançadas em Hollywood — aquelas que se limitam a celebrar ícones outrora esquecidos pela própria indústria —, se não fosse o olhar de um cineasta experiente como Richard Linklater. O cineasta americano ficou marcado pela sua Trilogia do Antes e Boyhood (2014) — ambos em parceria com o ator veterano Ethan Hawke. Aqui, o diretor se afasta dos dramas com inclinações hiper-realistas; Blue Moon celebra a estilização, o uso do espaço, do som e dos exageros para explorar as camadas da narrativa. Em vez de uma abordagem mais “crua”, opta-se por um verniz que oscila entre a elegância e a melancolia.
Essa primeira cena já deixa claro que o filme não se trata de um culto à personalidade de Lorenz Hart — e que a audiência sequer deveria se apegar ao personagem. Ele é apresentado como uma figura pouco interessante e em crise. Blue Moon desloca esse culto ao ícone para outro eixo: a exaltação da própria linguagem artística e dos processos de criação. A persona de Lorenz Hart e o seu trágico fim são explorados para discutir a crise do autor, que perde cada vez mais espaço na indústria. A Hollywood e a Broadway dos anos 1940 colocavam o resultado comercial acima da expressão pessoal — modelo que, apesar das poucas exceções, é dominante até os dias de hoje, em que a autonomia criativa é asfixiada pela padronização mercadológica.
Junto do autor, as formas de representação também entram em crise: não há mais espaço para a criatividade. Entretanto, Blue Moon não cai na armadilha óbvia da lamentação, como quem espera por uma solução utópica. Ao mesmo tempo que expõe os elementos dessa crise, os subverte e diverte o público com eles. Por exemplo, a metamorfose física dos atores, muito utilizada em cinebiografias para impressionar facilmente o público — Christian Bale (Vice, 2018), Jared Leto (Casa Gucci, 2021) e Rami Malek (Bohemian Rhapsody, 2018) — vira um elemento de paródia em Blue Moon. Ao ridicularizar a ideia da “imitação perfeita”, Linklater reivindica para o ator o direito de atuar em vez de apenas mimetizar.
Há um exagero nas caracterizações, especialmente de Ethan Hawke e Margaret Qualley, que interpreta Elizabeth. Ethan surge com uma careca transbordando artificialidade e Margaret ostenta um loiro tão oxigenado que grita “é peruuuuuca!”. Mas, para além da representação caricatural, os atores entregam intensidade e performance real. Essa abordagem resgata um elemento nostálgico fundamental do cinema: a suspensão da descrença, perdida no meio da mesquinha demanda por um realismo literal comum nas produções contemporâneas.
Em Blue Moon, os gestos exagerados e os figurinos extravagantes são bem-vindos, como se os atores interpretassem não pessoas, mas o que realmente são: personagens de cinema. Aqui, o filme reforça a celebração do estilo, do artifício e do exagero, tornando a narrativa histórica secundária diante de uma linguagem que busca traduzir a crise da representação das formas artísticas — em especial a música, o teatro e o cinema. Essa obsessão pela forma remonta a Eu e Orson Welles (2008), colaboração anterior entre Richard Linklater e o roteirista Robert Kaplow.
Um ponto interessante dessa relação entre o teatro musical e o cinema em Blue Moon é o manejo simbólico do espaço fílmico. Toda a narrativa ocorre em um único ambiente, rigorosamente delimitado por uma cinematografia que transforma o cenário em uma arena de conflitos. A ênfase recai sobre o salão vazio do restaurante Sardi’s, onde Lorenz é acompanhado por um coro mínimo: o barman Eddie, o jovem e talentoso pianista Morty e o jornalista e crítico E. B. White. Eles representam a audiência residual para quem um antigo mestre das multidões ainda pode provar a sua relevância em um derradeiro ato, já que o filme se desenrola nos últimos instantes antes da sua morte.
Portanto, ao renunciar à precisão documental e optar pelo artifício e pela estilização, Richard Linklater revela-se mais fiel ao espírito de Lorenz Hart do que uma biografia tradicional jamais poderia ser. Por mais que a narrativa aborde a tragédia da morte, Blue Moon recusa uma espécie de “luto passivo”: é preferível celebrar a ideia de que a arte sobrevive e se reinventa a partir de sua própria linguagem.
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Filme: Blue Moon Elenco: Ethan Hawke, Bobby Cannavale, Andrew Scott, Margaret Qualley Direção: Richard Linklater Roteiro: Robert Kaplow Produção: EUA, Irlanda Ano: 2025 Gênero: Biografia, Comédia, Drama Sinopse: Ambientado quase inteiramente no icônico restaurante Sardi’s em 1943, o filme acompanha o letrista Lorenz Hart na noite de estreia de Oklahoma!. Classificação: 14 anos Distribuidor: Sony Pictures Classics Streaming: Indisponível Nota: 8,0 |

