CRÍTICA – CIDADE DOS SONHOS

CRÍTICA – CIDADE DOS SONHOS

Chega sempre o momento da grande obra-prima de um diretor. Pelo menos é o que muitos sempre falam e uma afirmação pode ser levada enquanto verdade: é seu título mais famoso e reconhecido. Difícil de tecer comentários que venham agregar qualquer novidade sobre tão discutido, aclamado, criticado filme que está na ponta da língua para uma introdução à cinematografia completa. Houve a reexibição nas telonas, em 2025, em homenagem ao diretor remasterizando os visuais do longa-metragem. Surgem, então, diversas linhas que se cruzam de possíveis aproximações para trabalhar sobre Cidade dos Sonhos… Vou tentar capturar algumas e elucidar diversos pensamentos e reflexões ao longo dessa trajetória.

O universo onírico de David Lynch contempla o sonho coletivo de Hollywood, tocando e tangenciando homenagens que parecem bem pessoais do diretor em relação à famosa “Era de Ouro” hollywoodiana, em que o noir predominava nas telas, dias em que Hitchcock contribuía para a formação de diversos e quase instantâneos clássicos do cinema. Não é à toa que a rua Sunset Boulevard é ressaltada, afinal remete ao clássico Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses, 1950, dir. Billy Wilder) uma das consagradas propagandas do período e porta de abertura para os entusiastas que buscam conhecer melhor sobre a época. Há uma beleza naquelas ruas, mesmo em seu cenário contemporâneo, que vive em um espaço de sonhos, expectativas, frustrações, segredos e pesadelos coletivos de todos os indivíduos que almejaram conquistar algum espaço nessa indústria. É a literal Cidade dos Sonhos, em que mundos imaginários ganham vida pelas lentes e produções de grandes grupos e corporações.

Aqui é encontrada a primeira chave para encaixar as interpretações de Cidade dos Sonhos, pois, a metalinguagem desse imaginário coletivo que Hollywood criou e abasteceu a industrial cultural global com suas narrativas, formadoras de mitos contemporâneos e estruturas convencionais do fazer ficcional cinematográfico. Ambiente que absorveu as diversas expectativas concretas e não concretas em uma escala global, afinal, todos os olhos (críticos ferrenhos seja positivamente ou negativamente) do mundo no Séc. XX e XXI continuam testemunhando os altos e baixos das produções estadunidenses.

Nossa protagonista, Betty (Naomi Watts) é a garota ingênua, inocente, sonhadora e com uma porta de abertura (sua tia) para tentar adentrar nessa terra coletiva dos sonhos. Simultaneamente, testemunhamos a figura misteriosa que é Rita (Laura Harring), a qual, após um acidente de carro em que por sorte não fora executada pelos motoristas, escapa e se esconde justamente no apartamento de Betty. Sem memórias, é auxiliada pela garota inocente na busca por suas lembranças, pois seus únicos objetos pessoais são uma bolsa recheada de dinheiro e uma chave azulada com um formato bem específico. Essa seria a narrativa principal, o nosso fio condutor referencial, mas, simultaneamente, são estabelecidos outros micros arcos ou até mesmo uma narrativa paralela. Uma micronarrativa é a do personagem de Dan (Patrick Fischler), que. junto do amigo Jimmy (Chad Everett), tenta se livrar da paranoia de um sonho que vem tendo sobre uma figura misteriosa que vive nas partes de trás do terreno da lanchonete. Também acompanhamos a micronarrativa de Joe (Mark Pellegrino), que é um assassino de aluguel. Várias dessas pequenas narrativas são para estabelecer uma sensação de coletividade, da participação de diversos e diferentes indivíduos nessa cidade, e gerar certos momentos de comicidade ou até de tensão/suspense.

A narrativa paralela é do diretor de cinema Adam Kesher (Justin Theroux) que é direcionada para uma espécie de modelo cômico-trágico (que, posteriormente, permeia pelos lados de um pesadelo) da infiltração de interesses monetários na indústria e como influência nas tomadas de decisão, retirando a autonomia criativa e o próprio controle de sua propriedade intelectual. Um dos marcos mais exemplares historicamente (que adentra aliás na própria Era de Ouro hollywoodiana) é o ator/cantor Frank Sinatra, que tinha conexões muito bem estabelecidas e declaradas com a máfia italiana — momento que é satirizado inclusive no primeiro filme da trilogia de O Poderoso Chefão (1972, dir. Francis Ford Coppola). Sabemos da ampla influência também dos produtores e investidores dos filmes, os quais detém poder de tentar alterar escalações de elenco e todos os outros detalhes que envolvem a produção de um filme. David Lynch era um assíduo rebelde e protestava contra esse tolhimento criativo em prol da tão comentada lucratividade. Não é difícil achar exemplos de seus protestos (incluindo a execução da terceira temporada de Twin Peaks, 2017). Adam é essa figura que inicialmente se rebela contra o núcleo da máfia, liderado por Mr. Roque (Michael J. Anderson); e essa “atmosfera” é construída com exímio que em todos os outros longas-metragens de Lynch, em que as sombras predominam e a incitação do mistério ao redor dessas organizações criminosas deixa tudo mais sedutor, sensual e intencionalmente perigoso.

As narrativas de Adam/Betty/Rita irão se cruzar em diversos momentos por pequenos detalhes, incluindo até mesmo as personagens das diversas micronarrativas estabelecidas ao longo dos devaneios imaginários do roteiro. Há vários elementos surrealistas e, diferentemente de Estrada Perdida (em que esse fator é um fio condutor de toda sua narrativa com momentos cômicos e de terror andando de mãos dadas) ou de Eraserhead (em que a aura de terror predomina, tornando-se um surrealismo em relacionamento sério com a estética do pesadelo), em Cidade dos Sonhos é estabelecido um equilíbrio bem balanceado dos elementos narrativos surreais, propondo-se quase um gráfico de escalonada em que, nos seus momentos de conclusão, o surreal é por inteiro dominante em cena. Elementos nonsense não ficam completamente desamarrados ou justificados apenas pelo apelo visual, pois, dão abertura para diversificadas interpretações e motivações dentro da própria narrativa, algo que não necessariamente é extrapolado pela metanarrativa, apesar de ela existir. O surreal lynchiano aqui é agregado ao elemento noir, essa aura que casa com a investigação (às vezes somente pelo estético), pois não possuímos um detetive decadente lutando contra uma grande corporação corrupta e que no final não existe resolução, mas vários modus operandi e elementos formais da narrativa noir estão presentes, como a própria figura emblemática da femme fatale que é Rita.

Rita é a personagem conexão entre todos os pontos narrativos, o fio que induz o elemento caótico e a linha de seguimentos, é a força motriz da narrativa, pois, mesmo que indiretamente, faz as narrativas se cruzarem e gera conflitos entre os outros personagens do elenco. Além de sua própria beleza hipnótica, que embalsama todos em suas vontades (sendo sua maior vítima a figura de Betty que explora seus segredos por ter se apaixonado), mesmo sem suas memórias, seus traços de personalidade (estéticos e internos) não desaparecem. Existe uma malícia em suas intenções, mesmo que não consigamos de imediato compreender, levando Betty a afundar nos pesadelos e nos segredos daquela realidade, transportando-a cada vez mais profundamente no oceano coletivo de imaginações. Isso leva nossa “protagonista” a testemunhar uma apresentação no teatro da madrugada chamado Silêncio em que um dos melhores segmentos de cenas é presenciado pelo público.

Deixarei aqui para vocês próprios construírem suas opiniões. É impactante. Sedutor. Triste. Melancólico. Aterrorizante. E, como a própria letra cantada de Chorando, por Rebekah Del Rio, o que diferencia a beleza de um simples sonho misterioso da dura e bruta realidade são as lágrimas.

Aproveito o contexto dessa cena para mencionar rapidamente o quanto ela se conecta ao universo narrativo de Twin Peaks e do próprio Eraserhead, os quais, pessoalmente, creio compartilharem das mesmas forças sobrenaturais e embates de vontades. Diferente de Estrada Perdida, em que não é possível traçar conexões diretas, apenas com algumas forçadas interpretações e extrapolações que vão para além de pistas concretas, o teatro Silêncio aparece na terceira temporada de Twin Peaks e é um palco central para revelações e segmentos narrativos. É difícil contextualizar sem me delongar demasiadamente em explicações sobre o universo narrativo compartilhado que Twin Peaks possui, ainda mais com a criatividade de David Lynch que nunca o deixou de lado; então, por precaução, é a única menção que será feita sem necessidades de longos textos sobre o tema.

Aproveitarei essa curva para comentar sobre a questão do sobrenatural presente em Cidade dos Sonhos.

O sobrenatural presente é representado pela personagem chamada Caubói (Monty Montgomery) e a entidade não nomeada que vive atrás da lanchonete. Essas duas figuras parecem se complementar e simultaneamente são manipuladoras dessa realidade onírica, afinal, em determinado momento — CUIDADO COM SPOILERS a partir desse trecho — fica bem óbvio que a realidade narrativa está ambientada em um sonho, ou dois sonhos? Ou um sonho e a realidade dura e concreta? Difícil de localizar, pois existem diversas aberturas para interpretar.

Caubói parece ser uma figura que abre e fecha os caminhos, quase representando a figura do boiadeiro explorador, daquele que guia o rebanho e, simultaneamente, é o conhecedor dos caminhos. É uma participação rápida, momentânea e fragmentada, mas deixa suas impressões. Já a figura quase monstruosa, deformada e medonha que vive nos fundos da lanchonete é uma entidade de temor, de punição, de realce dos pesadelos, tendo seu espectro muito próximo da morte, destino e pontos finais. Algo que encarcera, que eleva a potencial loucura e sentimentos negativos dos indivíduos, que são tocados pelas suas vontades e iniciativas. Caubói é quem abre o caminho para uma divisão narrativa, para um outro segmento que se conecta diretamente com Betty e Rita, levando-as para a realidade dura e concreta ou a abertura para uma realidade pesadelo, em que o lado idealizado, ingênuo e investigativo sai de lado para uma tragédia de paixões inflamadas, de cobiça e ambição, inveja e ciúmes — e, claro, muita manipulação.

Deparamo-nos com as personagens possuindo papéis trocados: Diane (Naomi Watts) e Camilla (Laura Harring) também estão em uma relação amorosa, porém Diane se sente manipulada por Camilla — que deseja por um ponto final em sua relação -, mas a outra possui uma quase fúria violenta em manter Camilla sobre seu controle e sentimento. Diane é o espectro totalmente oposto de Betty, pois não é ingênua e sim amargurada por aquela realidade que devorou seus sonhos e, até mesmo, aspectos de felicidade. Perde-se o tom sensual da realidade, apaixonado, belo, misterioso, para realçar sombras de decadência, de sujeira, de uma insanidade que devora o intelecto de Diane a cada novo segmento testemunhado. Camilla é alguém que almeja o topo, independente do que seja necessário fazer ou até mesmo conquistar. Se a figura de Diane é a protagonista real, tudo o que fora testemunhado antes era um sonho dela projetando a Cidade dos Sonhos em um novo começo para longe daquela brutalidade em que tudo escorre de suas mãos, incluindo sua saúde mental.

E o terror predomina, sem realces tão absurdistas (apesar de em sua conclusão eles serem predominantes), gritando em nossas caras a dura realidade de Diane, que é claustrofóbica, sugando a sua vitalidade a cada novo momento naquela brutal realidade. Sua decadência à loucura vem da perda total de controle — até mesmo de sua autoestima; consumida pela energia do ambiente, chega à conclusão máxima que é retirar a própria vida. Nesse momento — em que os pesadelos vêm cobrar o restante de sua sanidade —, é até mesmo ultrajante o nível de qualidade horrífica que é atingido.

É a conclusão. A Cidade dos Sonhos em que indivíduos são devorados enquanto outros dominam, manipulam, controlam e até mesmo moldam os sonhos alheios. Essa paranoia coletiva que já possuiu seus dias de glória, restando somente o grande capital de investimento. Mas, ainda assim, tem um charme sensual, sedutor, conquistador.

Foram infinitos devaneios interpretando e reinterpretando o filme e se deixar essa porta aberta, continuaríamos encontrando milhares de fios de ouro em meio ao palheiro. Essa é a beleza de Lynch. Essa abertura para a imaginação flutuar para diversificados caminhos. Nem cheguei a tocar nas possíveis interpretações LGBTQIA+ da relação entre Betty e Rita (Diane e Camilla), porém, por pouco domínio de ferramentas críticas embasadas nos estudos de gênero (focados no núcleo artístico), me dou o direito de me abster para não cometer erros desrespeitosos. Mas existe até mesmo essa possibilidade que pode gerar lindas análises com sementes que podem vir a crescer árvores extensivas nesse núcleo de críticas.

Sobre as atuações de Cidade dos Sonhos, não restam a não ser elogios, principalmente para a dupla que encara grande parte das telas — Naomi Watts e Laura Harring —, que brilham com sua beleza e performance. O destaque é de Naomi, que incorpora duas personagens que completamente destoantes uma da outra; é quase de imediato o reconhecimento discrepante das personagens. Você compreende a ingenuidade de uma e a decadência da outra, principalmente pelos recortes em seu olhar, permitindo-nos apreciar o que há de mais belo no cinema: falar sem exposição, mostrar em vez de explicar. Nos vários momentos em que a narrativa brinca com a metalinguagem, até mesmo sobre a questão do atuar, você percebe essa nuance narrativa e as mudanças de intensidade na atuação de Naomi. É incrível e merece sempre ser ressaltada essa personagem de sua carreira. Porém, é válido que o elenco brilha aos olhos mesmo com todas as suas caricaturas e exageros, distantes do que seria uma atuação verossimilhante aos padrões comportamentais humanos — ou até tão próximo das estranhezas rotineiras dos indivíduos em que nós mesmos não percebemos os mistérios da vida e das próprias reações.

A jornada toma um passo muito próximo do fim… Pois ainda precisamos adentrar em um Império…

Pôster do filme Cidade dos Sonhos Filme: Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive)
Elenco: Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux, Ann Miller, Mark Pellegrino, Robert Forster, Dan Hedaya, Angelo Badalamenti, Patrick Fischler, Brent Briscoe, Monty Montgomery, James Karen, Chad Everett, Melissa George, Michael J. Anderson
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch
Produção: Estados Unidos
Ano: 2001
Gênero: Terror, Horror, Suspense
Sinopse: A loira Betty Elms acaba de chegar a Hollywood para se tornar uma estrela de cinema quando conhece uma morena enigmática com amnésia. Enquanto tentam descobrir a identidade da mulher, o cineasta Adam Kesher enfrenta problemas sinistros durante o processo de escolha de elenco para seu último projeto.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: Universal Pictures
Streaming: Prime Video
Nota: 10

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