A Pixar Animation Studios é a detentora do recorde de prêmios de Melhor Animação conquistados no Oscar. Desde 2002, ano em que a categoria foi estreada, o estúdio já levou 11 estatuetas. Nomes como Procurando Nemo (Stanton, 2003), Toy Story 3 (Unkrich, 2010) e Wall-E (Stanton, 2010) foram responsáveis por essa brilhante trajetória da companhia na história do “prêmio mais importante do cinema” — vencendo sete vezes em dez anos de premiação entre 2004 e 2013. Essa jornada foi marcada pela consolidação da fórmula Pixar de fazer cinema combinando primor técnico e uma forte comunicação emocional com todos os públicos.
Entretanto, os últimos anos tem sido diferente. Embora a Pixar sempre apareça entre os indicados a melhor animação e outras categorias, o estúdio deixou de ser dominante na premiação. Mas o “problema” vai muito além disso: os seus filmes não têm impactado as novas gerações como anteriormente! Essa diferença geracional possui estreita relação, entre outros fatores, com as novas formas de consumo do audiovisual e a necessidade de uma linguagem visual mais ágil.
Luca (Casarosa, 2021) é o primeiro filme da Pixar que demonstra entender bem esse conflito — e um dos poucos bem-sucedidos nesse sentido. Em vez de uma abordagem emocional mais complexa, Luca aposta na dinâmica entre dois amigos e nas suas jornadas de autodescoberta, marcada pela abordagem de temas contemporâneos — em contrapartida aos temas mais universais de títulos como Up! Altas Aventuras (Docter, 2009). A combinação de uma narrativa mais ágil e descontraída com temas que tocam as novas gerações serviu de base para o que viria a seguir.
Desde então, o único lançamento de grande impacto da Pixar foi Divertida Mente 2 (Mann, 2024) — se levarmos em conta apenas o aspecto da bilheteria, é claro! Mas nenhum filme conseguiu lidar bem com a nova abordagem, transformando o que nasceu como inovador em algo muito apelativo e preguiçoso. Eis então que Elio surge, não necessariamente como um feito extraordinário, mas como um vislumbre de possibilidades.
Elio é um menino órfão, com uma imaginação vibrante e um comportamento não convencional. Ele é criado por Olga, a tia que representa seu único vínculo emocional na Terra. O sentimento de inadequação do protagonista sob a perspectiva infantil é mais uma vez explorado pela narrativa — assim como em Luca e Divertida Mente. Desse ponto de vista, o mais novo filme da Pixar não tem nada de inovador. No entanto, é inegável a sua capacidade de contextualizar uma nova abordagem visual, muito marcada pelo superestímulo e saturação de informações: a criação de um mundo fantástico, completamente novo, onde cada detalhe é um novo segredo a ser descoberto.
Dentro desse contexto, não apenas enxergamos o mundo como Elio, mas toda a narrativa se revela como uma verdadeira experiência tátil — a interação com o novo se dá através do toque e da exploração física.
Embora o conteúdo dramático e os vínculos emocionais em Elio sejam de suma importância, a narrativa se move prioritariamente pelo encadeamento frenético de eventos. Esses estímulos disputam a atenção do protagonista de maneira constante. O jovem cede naturalmente à cada novidade como uma criança que troca um brinquedo pelo outro, priorizando o fascínio imediato em detrimento do carinho pelo brinquedo antigo.
Mas tampouco pode-se dizer que a narrativa segue um “passeio aleatório”. A jornada de Elio como Embaixador da Terra no Comuniverso é fundamental para que ele compreenda o poder do vínculo — temática que constitui o DNA narrativo da Pixar. Só que dessa vez essa temática se desprende do prisma adulto — como é fortemente marcado em Procurando Nemo e Monstros S.A. (Docter e Silverman, 2001) — para abraçar uma perspectiva puramente infantil, na qual o aprendizado nasce da relação direta com o novo e não mediado pelo olhar parental.
Por isso, Elio é uma obra notável ao reforçar a postura da Pixar de abraçar e tentar se conectar totalmente ao público infantil, além de se adaptar aos seus anseios — como a busca por um lugar no mundo! Será que assim o estúdio conseguirá recuperar o seu impacto e ter a mesma relevância que outrora tivera? Ou será que devemos aceitar que o brilho das décadas anteriores foi fruto do casamento irrepetível do auge criativo do estúdio com uma audiência cujo tempo e sensibilidade já não voltam mais?
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Filme: Elio Elenco: Yonas Kibreab, Remy Edgerly, Zoe Saldaña, Brad Garrett Direção: Adrian Molina, Domee Shi, Madeline Sharafian Roteiro: Julia Cho, Mark Hammer, Mark Jones Produção: EUA Ano: 2025 Gênero: Animação, Aventura, Comédia, Ficção Científica Sinopse: Elio encontra dificuldades para se conectar com o mundo ao seu redor. Após ser acidentalmente transportado através das galáxias, ele é confundido com o embaixador da Terra por uma organização interplanetária. Classificação: Livre Distribuidor: Walt Disney Studios Streaming: Indisponível Nota: 5,5 |

