CRÍTICA – EXTERMÍNIO 1

CRÍTICA – EXTERMÍNIO 1

É bom aproveitar as oportunidades de revisitar um clássico cult do cinema de apocalipse zumbi. Ter assistido e escrito a crítica de Extermínio 3: A Evolução e participado do debate construtivo (mesmo que rápido) com colegas aqui do site gerou essa expectativa de revisitar e retrabalhar as impressões sobre essa saga que futuramente será uma tetralogia. Haverá uma divisão clara nesse texto que é a análise individual do longa-metragem e, próximo de sua finalização, você encontrará comparações entre o novo título e o primeiro, Extermínio 1 (uma das motivações que promoveram essa revisitação ao clássico); então fique atento sobre spoilers (serão avisados oportunamente) sobre o novo lançamento.

Tido como revolucionário em relação ao gênero de terror que trabalha, existem conceitos interessantíssimos que são expostos em seu texto, principalmente em relação à construção de mundo e estabelecimento de verossimilhança narrativa. Buscou-se afastar da manifestação do sobrenatural pensando em possibilidades concretas de um acontecimento pandêmico envolvendo um vírus que  transformasse a humanidade em bestas ferozes que predam a própria espécie. A infecção é por meio de uma mutação do vírus da raiva que está sendo estudada em macacos; um grupo de ativistas entra furtivamente nesse centro de pesquisa para salvar os animais e, consequentemente, são responsáveis pelo início do surto epidêmico nas ilhas britânicas. Uma cena de abertura que já faz comentários sobre o histórico cíclico de violência da humanidade, uma mensagem sobre essa tendência de autodestruição da espécie homo sapiens.

Da maioria dos universos de apocalipse zumbi, talvez o vírus de Extermínio 1 seja um dos que ficam no topo das listas para se evitar, primeiro, porque os infectados correm (e não é pouco) e, segundo, a infecção é rápida demais, havendo o limite de tolerância de vinte segundos para uma reação. A violência da infecção também é notável, pois extrapola a questão da mordida, afinal qualquer contato com sangue ou saliva você pode ser transformado, seja pela boca ou pelos olhos. Além de tudo é necessário tomar cuidado com os resquícios que são gerados quando os sobreviventes sofrem ataques ou matam algum infectado. Não há espaço para a dramatização daquele que se transforma, os conflitos de matar ou não matar aquele que foi infectado e todo o melodrama de presenciar alguém querido sendo tomado pela doença. Aqui é adrenalina pura e, nos segmentos que envolvam os infectados, eles brilham em todas as cenas que aparecem pela manutenção de um ritmo rápido em que, pelos jogos criativos de câmera, tudo fica mais frenético, rápido e cheio de suspense. Segundos de hesitação não serão levianamente punidos.

O filme foge das convenções narrativas clássicas que é a formação do grupo de sobreviventes de grande escala (em que acompanhamos ao longo da narrativa cada morte de diferentes maneiras) ou a própria resolução da horda que ataca um ponto fixo de sobrevivência. Acompanhamos o personagem de Jim (Cillian Murphy) acordando de um coma após 28 dias do surto viral na Inglaterra. As cenas de abertura possuem um exímio de qualidade absurdo, pensando na praticidade de execução dos takes em locais icônicos de Londres nos quais Jim anda solitário pelo cenário apocalíptico abandonado, tudo sem o auxílio de efeitos especiais — e é uma grande quantidade de exposições com o adicional de variações de ângulo.

Notamos um hiperfoco por parte de Alex Garland (que a memória não relembrava da parceria estabelecida entre Danny Boyle nesse primeiro longa-metragem) em roteirizar cenas de abertura com igrejas. É o primeiro contato de Jim com os infectados, testemunhando pilhas de cadáveres nos assentos do local religioso, posteriormente se defrontando com um padre infectado; deixando bem claro o tom de Extermínio 1 e uma execução hábil para construir tensão, com sugestões de escritos na parede, a ousadia de não utilizar de nenhuma trilha sonora ou cacofonia, tornando tudo nu e cru para aqueles que acompanham a jornada do protagonista.

O elenco consta com um pequeno núcleo de atores principais, havendo o grupo de sobreviventes minúsculo do protagonista, que além de Jim conta com Selena (Naomie Harris), Frank (Brendan Gleeson) e Hannah (Megan Burns). Posteriormente, encontram um núcleo de soldados sobreviventes em que o rosto mais marcante é de seu major Henry West (Christopher Eccleston). Há a participação rápida da personagem de Mark (Noah Huntley), que está junto de Selena na cena em que encontram Jim, mas sua morte ocorre rapidamente (realçando o pouco espaço de reação e a iniciativa e ímpeto de sobrevivência poderoso de Selena). As atuações não são um grande marco, talvez ficando elogios para Cillian Murphy, porém será que esse crédito não vem pelo já carisma conquistado do ator ao longo de sua carreira e os diversos papéis marcantes interpretados por ele? Não saberia responder com precisão, mas, em sua primeira cena, percebemos a ousadia em se expor completamente nu em uma cama, o que merece elogios pela coragem. Sobre as outras atuações, pode-se dizer que o resultado é nada que vá para além da média convincente havendo bons momentos de integração do elenco dos quatro sobreviventes que se unem com o mesmo propósito.

Há o estabelecimento de uma discussão e, desde a cena de abertura, está óbvio que Extermínio 1 deseja tecer um comentário sobre a questão cíclica de violência da humanidade. Isso é incorporado pelas falas do personagem do Major Henry West que diz que nada está fora da normalidade: “seres humanos matando seres humanos”. Isso advém de uma figura militarizada, que vive em um meio onde nada do que testemunha é novidade a não ser o contexto em que isso é testemunhado, visando, com um discurso superficial, restabelecer o que considera “civilizado” e que fora perdido naqueles dias. Superficial porque percebemos sua hipocrisia, afinal manipula o grupo de sobreviventes pelo interesse de manter seu pelotão sobre sua liderança, prometendo-lhes mulheres através da isca, que gravaram em um rádio, indicando sua localização como um ambiente de proteção para sobreviventes e por possuírem uma resposta para o “vírus”.

A resposta é nula, inexistente, baseada na não concretude do argumento do retorno civilizatório, que é exemplificado pela própria personagem ao conseguir tomar banho quente. Simultaneamente vemos a jornada de Jim — figura que é inicialmente ingênua, fraca e pouco reativa — tornando-se um genuíno sobrevivente em prol daqueles que tem afeto, seu último resquício de humanidade. As sequências finais geram impacto e possuem uma fotografia de absurda qualidade (mesmo com o uso de celulares em muitos takes). A mensagem não é novidade e nem agrega tanto na narrativa, ficando como um pano de fundo sem tantos propósitos, uma busca por profundidade que não é ruim, mas soa sem graça ou sem demasiado impacto.

O mais interessante em relação à narrativa pessoal das personagens são os equilibrados momentos de leveza ao longo dessa jornada frenética. Por mais curto que seja, há uma clássica sequência de supermercado abandonado em que o grupo pega recursos para sobreviver, divertidíssima e leve dentro de todas as tensões propostas, mas não é a única hora que testemunhamos um recorte com essa quebra de ritmo — que é muito bem-vinda, pois gera conexão emocional com os personagens (mesmo com suas atuações não sendo muita coisa).

Agora o grande máximo de qualidade é seu encerramento. ALERTA DE SPOILERS para quem não assistiu Extermínio 1. A partir daqui também se dará início as comparações com o novo lançamento — Extermínio 3: A Evolução; então, tome cuidado e pule para a parte em que é encerrada a crítica com spoilers.

Propor uma solução para o apocalipse é genuinamente uma ideia que até hoje me desperta felicidade. É até mesmo um pouco frustrante imaginar continuidade nesse universo que poderia estar muito bem encerrado com essa única obra — por mais curiosidade gerada pelas possibilidades futuras sendo exploradas (como foram). Os zumbis desse universo não se alimentam dos mortos, focando-se somente em espalhar a infecção e sua brutalidade; logo, surge a questão simples e que nos escapa até ser apresentada: como eles irão se alimentar? Quanto tempo um infectado sobrevive? Resposta que é dada: poucas semanas, assim é observada uma luz no fim do túnel. Obtemos, então, duas respostas que geralmente são ignoradas ou ocultadas do público em prol de um mistério: como se deu o início do problema? É entregue no início do filme e ele próprio encerra essa problemática, pois descobrimos que os infectados morrerão de fome.

Outra quebra das convenções narrativas clichês é o não apocalipse completo da sociedade. O problema é epidêmico, restringindo-se exclusivamente às ilhas britânicas, notando-se então que é algo localizado e específico. Talvez tenha sido o maior brilhantismo de Extermínio 1 e do porquê ele é tão conceituado e respeitado na ala cult dos filmes de terror no subgênero de zumbis. Possui inovações descontruindo convenções previamente estabelecidas em que, trabalhando com a memória, não é fácil relembrar outros exemplos que tenham utilizado dos mesmos recursos narrativos, seja antes do próprio longa-metragem ou posterior — deixo claro que não é o único a inovar no subgênero, sendo a trilogia antecessora (fundadora inclusive) de George A. Romero também bem fora do que é considerado convencional.

Quando colocamos a régua de comparação em relação ao terceiro título da franquia, é necessário admitir que há uma evolução considerável em qualidade, principalmente no tocante à própria cinematografia. As atuações possuem mais qualidade e deixam melhores impressões, talvez por um amadurecimento do próprio Alex Garland (que ganhou uma grande experiência enquanto diretor de lá para cá), estruturando uma narrativa mais coesa e que insere melhor uma mensagem — apesar de ainda conter falhas no quesito equilíbrio e absorção narrativa dessa mensagem de maneira orgânica. Extermínio 3: A Evolução é um salto evolutivo, que propõe uma expansão do universo, elaborando em maior detalhe a variação desses infectados e a própria estrutura social daqueles que sobreviveram a essa epidemia. Não é inovador em relação à quebra de convenções narrativas, na verdade utiliza dos clichês, mas evolui e amadurece em todos os outros aspectos — incluindo na própria escalada de tensão e adrenalina.

ENCERRO OS SPOILERS por aqui!

Após grandes delongamentos textuais, deixo as conclusões de que continua fresco esse primeiro filme, divertido, sensual, tenso e violento na dosagem correta. Vale a pena? Com total certeza e pelas motivações corretas, afinal é sempre interessante testemunhar obras que quebram convenções e criam modelos narrativos para um subgênero que nunca desaparece dos meios criativos e da mídia! Vá explorar o universo de Extermínio 1, que é um título que merece cada vez mais reconhecimento dentro da indústria cinematográfica para que novos saltos sejam dados!


Pôster do filme Extermínio Filme: 28 Days Later (Extermínio 1)
Elenco: Cillian Murphy, Brendan Gleeson, Naomie Harris, Christopher Eccleston, Noah Huntley, Megan Burns
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Alex Garland
Produção: Reino Unido
Ano: 2002
Gênero: Terror, Horror, Suspense, Sci-fi
Sinopse: Jim (Cillian Murphy) desperta do coma em um hospital de Londres. Completamente confuso e estranhando a ausência de pessoas nas ruas, ele nada sabe sobre o ocorrido e se esconde após encontrar diversos cadáveres e seres monstruosos, infectados por um vírus disseminado.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: Searchlight Pictures, 20th Century Studios
StreamingUniversal+, Primevideo
Nota: 8,0

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