É de um frescor bem único retomar contato com os jogos de câmera e a maneira bem autoral de Danny Boyle orientar sua fotografia. Aliás, meu último contato nas telonas havia sido com T2 – Trainspotting (2017), que precisa de crítica aqui no site, mas tem cobertura com uma crítica bem completa do primeiro Trainspotting (1996). Quando falamos do primeiro longa-metragem, Extermínio 1 (28 Days Later, 2002), pensamos em frenesi e adrenalina com cenas usando e abusando do gore e um reconhecimento pela originalidade e frescor dentro de um subgênero de horror tão abarrotado de obras que é o apocalipse zumbi. Extermínio 3
A abertura dessa continuação não deixa nada a desejar quando comparada com as outras duas obras, havendo pouco espaço para contextualização e absorção, pois há imediatamente o frenesi, a loucura e a insanidade daquela realidade e dos infectados em questão. Nesse universo, os zumbis estão tomados por uma mutação do vírus da raiva, havendo um tempo curtíssimo (questão de segundos) para a transformação do infectado e para além disso… Eles correm… E muito. Não há espaço de hesitação e nem mesmo para respirar muitas vezes. Aí já vem um dos méritos mais fortes dessa sequência: tensão e suspense. Não perde em absolutamente nenhum aspecto quando comparado aos outros filmes da franquia. Violento sem recortes e sem muita enrolação para um melodrama quando envolve perdas e mortes. Existem determinados takes em que testemunhamos os infectados num jogo de sombras e com ressalte de vermelho que geram uma verdadeira aura horrífica que me deixou instigado por mais – talvez possa ter sido na dosagem correta, afinal perderia seu efeito impactante com maior frequência – e permanecendo na memória como filme queimado.
Duas novas inserções criativas de infectados aparecem: o “Alfa”, uma figura que é mais forte e inteligente do que os outros, liderando matilhas e tendo um visual perigosamente ameaçador. Do primeiro contato, quando comentam sobre ele, ao momento em que se mostra claramente é perceptível a diferença da caracterização física com os outros infectados. Também surgem os “Arrastadores”, infectados obesos de de baixíssima mobilidade que se arrastam devorando vermes e são extremamente viscosos, nojentos e repugnantes na dosagem correta para gerar impressões únicas. Ambos são elementos divertidos para gerar maior profundidade ao universo, denotando mutações e alterações ao longo desses vinte oito anos de quarentena das Ilhas Britânicas. Em determinado momento, testemunhamos uma cena de perseguição que consegue erguer tensões à ponto de ter gerado reações físicas, o que é um baita mérito (levando em conta a experiência com narrativas sabendo que, pelo menos, alguém teria que sair seguro do momento pela continuidade narrativa). A montagem da cena é executada com exímio para gerar uma adrenalina e aumento dos batimentos cardíacos. Ressalto excelentes elogios para esse segmento.
É preciso destacar que as atuações não são as mais memoráveis do longa-metragem, apesar do excelente protagonista Spike (Alfie Williams), que, tão novo, consegue convencer mesmo com suas decisões questionáveis em alguns momentos beirnado à total falta de sentido. O restante do elenco – Aaron Taylor-Johnson, Ralph Fiennes, Jodie Corner, Edving Ryding – tem seus momentos, sem grandes espetáculos, mas são bem estruturados e planejados. As personagens têm uma construção interessante, estabelecendo uma verossimilhança com as condições atuais da quarentena sobre as ilhas britânicas, principalmente no contraste de interações entre Spike e Erik; o primeiro viveu toda sua vida completamente afastado das tecnologias e interações sociais da contemporaneidade, e Erik, um jovem suíço, pouco compreende o padrão de vida alienígena dos sobreviventes.
Há um comentário macronarrativo em relação à famosa frase do latim “Memento Mori”, que significa “lembre-se que você irá morrer”; essa finitude da vida e seus ciclos, uma compreensão da despedida e dos pontos finais. Isso se reflete diretamente na relação entre Spike e sua mãe adoecida Isla. Spike busca uma cura, uma maneira de reverter o quadro que ao longo filme se agrava de sua mãe. Todo o leitmotif narrativo está em torno dessa viagem até o personagem do Dr. Ian Kelson, um “médico” que dizem ter enlouquecido – salva de palmas para a construção da aura dessa figura com os boatos e sugestões visuais de cortes secos e rápidos. Kelson incorpora uma persona que leciona Spike do “Memento Mori”, esse abraçar do destino e das suas consequências, beirando ao clássico lúdico shakespeariano que encara o crânio relembrando a presença da morte no cemitério. Senti conflitos emocionais em relação ao convencimento das motivações do personagem principal, pois esse “comentário maior” que o filme anseia por repassar gera as tomadas de decisão mais incongruentes e furos de roteiro; assim, vários questionamentos são levantados em relação ao quão “realista” ou “verossimilhante” a narrativa é entrando no clichê da jornada heroica em busca de respostas.
Existe o famoso áudio (utilizado até mesmo no trailer) que é o poema Boots, de Rudyard Kipling, escrito há mais de um século sobre a decadência e a perda da sanidade dos soldados em campo de batalha. Elaborado originalmente pensando na guerra dos boerês, ocorrida no continente africano, esse áudio cria uma ambientação “inquietante” e “estranha”. Quando testemunhamos a cena em que a gravação é tocada junto com as imagens (quase em um formato de edit), percebe-se a intenção de encarcerar no público a questão cíclica da guerra, uma preparação das novas gerações para a historicidade das terras inglesas que (como o restante do mundo) viu litros e mais litros de sangue serem derramados em suas profundas veias. É um momento belo e de contemplação, porém, pareceu-me solto demais e pouco convincente, não gerando o “tamanho impacto” que provavelmente fora imaginado para o momento, restando a sensação tal qual um edit do reels ou do tik tok – que instiga a criatividade, mas logo depois se esfacela na continuidade narrativa.
Simultaneamente, é interessante por não cair nos clichês do gênero de zombies que é o “lidar com a horda” ou “a insegurança do vilarejo” já que que Spike viv numa sociedade bem estabelecida e com suas regras definidas – outra salva de palmas para o world-building narrativo. É uma jornada que se distancia e, ao mesmo tempo, permite a abertura de pontos de continuação (o filme deixa bem claro que haverá uma sequência) que instigam em ver os potenciais interessantes de uma construção mais concreta desse universo apocalíptico.
Vou citar um exemplo de tomada de decisão que extrapola até mesmo nosso protagonista Spike – em cuja defesa se pode argumentar sobre a inexperiência e a ingenuidade de juventude. Num determinado momento, o dr. Kelson tem um dos Alfas, apelidado de Sansão, sobre controle, imobilizando-o com tranquilizantes, e ignora a criatura, deixando-a viva, mesmo sabendo do perigo que representa não somente para si, mas para outros sobreviventes também. Por que não encerrar a vida de Sansão ali de uma vez? São decisões que geram estranheza e quebram momentaneamente a imersão narrativa pela famosa “burrice” convencional para que o roteiro caminhe em direção aos argumentos e interações futuras que foram imaginadas.
Para aqueles inseguros, quando pensamos no legado cult de Extermínio 1, recomendo que vá seguro e sem expectativas absurdas; você saíra com uma sensação recompensadora em relação ao longa-metragem. A parceria entre Danny Boyle e Alex Garland gera um resultado que pode ser no mínimo considerado satisfatório. Pode não ser surpreendente, mas é um respiro de alívio em meio a um gênero tão massivamente explorado e retrabalhado – com as mais criativas e variadas maneiras. Vale o dinheiro do ingresso nos cinemas? Talvez em uma promoção de segunda-feira ou o combo completo se for bem entusiasta em um final de semana!
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Filme: Extermínio: A Evolução (28 Years Later) Elenco: Jodie Corner, Ralph Fiennes, Aaron Taylor-Johnson, Edving Ryding, Erin Kellyman, Alfie Williams. Direção: Danny Boyle Roteiro: Alex Garland Produção: Reino Unido Ano: 2025 Gênero: Terror, Horror, Suspense. Sinopse: Já se passaram três décadas desde que o vírus da raiva escapou do laboratório de pesquisas médicas e contaminou grande parte da humanidade, transformando-os em zumbis apavorantes. Agora, acompanhamos as estratégias de sobrevivência de um grupo que, isolados numa ilha, encontraram um jeito de viver entre as criaturas. Amparados por um muro e conectados com os territórios contaminados por uma estrada altamente protegida, alguns cidadãos precisam sair numa missão. Fora da segurança de sua comunidade, eles descobrem novos horrores e mutações que parecem ter acometido não só os infectados, mas também os sobreviventes que ficaram. Classificação: 18 anos Distribuidor: Sony Pictures Streaming: Indisponível Nota: 8,0 |


Keep on writing, great job!