Como fã da Fórmula 1 que acompanha a categoria desde o início dos anos 1990, época em que nomes como Ayrton Senna, Nigel Mansell, Michael Schumacher, Gerhard Berger, Jean Alesi e Riccardo Patrese cavalgavam com seus bólidos de fibra de carbono, aguardava com grande expectativa o lançamento de F1: O Filme. A entrega da direção nas mãos do virtuoso Joseph Kosinski (Top Gun: Maverick, Oblivion, Homens de Coragem) aumentava ainda mais a confiança no êxito do projeto, surgido na esteira do sucesso da série documental F1: Dirigir para Viver, da Netflix, que muito ajudou a renovar o interesse do público pela mais famosa das competições automobilísticas.
Fenômeno nas pistas no início dos anos 1990, quando era tido como um jovem arrojado e de talento ímpar, Sonny Hayes (Brad Pitt) foi obrigado a interromper a promissora carreira após um grave acidente que quase lhe custou a vida no GP da Espanha. Passados trinta anos, o piloto norte-americano, mesmo arruinado financeiramente, mantém acesa a chama do amor pela velocidade, aventurando-se em disputas pontuais como as 24 Horas de Daytona, ponto de partida da narrativa do frenético longa-metragem de Kosinski. É quando seu amigo e ex-companheiro de pistas Ruben Cervantes (Javier Bardem) o convence a retornar ao circo da F1 tendo por intuito mudar a sorte da APX GP, equipe que nunca conquistou um ponto sequer e está prestes a ser vendida, o que levaria o manager espanhol à falência.
Se, por um lado, Hayes representa a experiência necessária para mudar os rumos da APX GP, Joshua Pearce (Damson Idris) é o parceiro de team que traz a jovialidade e o ímpeto capazes de fornecer ao experiente piloto boas razões para dar o melhor de si em seu tardio recomeço na F1. Um dos méritos do roteiro escrito pela dupla Joseph Kosinski e Ehren Kruger é não encarar de frente a batalha de egos envolvendo essas duas personagens, optando por situá-la, de maneira naturalista, no contexto dos bastidores da escuderia pela qual correm. Portanto, esse choque de personalidades — arrogância narcisista versus imprudência altruísta, o desejo de se firmar e o desejo de reviver a glória roubada — move a trama do filme de modo bastante condizente com aquilo que costuma acontecer, de fato, fora do paddock. Cria-se em torno de Hayes e Pearce, assim, toda uma rede orgânica de pessoas tão ou mais decisivas que os próprios pilotos para o sucesso de uma equipe, com destaque para Kate McKenna (Kerry Condon), cuja presença se justifica por sua capacidade técnica ímpar, algo que, felizmente, contraria a velha e antiquada lógica de realçar uma personagem mulher apenas por conta de sua beleza física ou para servir de par romântico-sexual do protagonista masculino.
Dentro das pistas, F1: O Filme proporciona ao espectador uma experiência bastante intensa e imersiva quanto a estar dirigindo um carro da categoria a quase 300 km/h. O hiper-realismo visto em cena remete diretamente às imagens em primeira pessoa exibidas durante as corridas; no entanto, aqui há um estado de maior pureza imagética, uma vez que a trepidação se faz menos sentida, e, por conseguinte, a imagem resultante é plasticamente menos ruidosa. O êxito técnico da empreitada não seria possível sem o esmero que particularmente caracteriza o trabalho de Kosinski, devoto do plano cinematográfico como espelho capaz de representar o mundo de modo tridimensional e hipertrófico. Muito menos sem a pujança da fotografia dessaturada, porém hipnótica de Claudio Miranda, bem como a trilha de calibre minioperesco de Hans Zimmer. Por fim, ressalte-se o trunfo do longa em ter como produtor o heptacampeão mundial Lewis Hamilton, fator este que facilitou sobremaneira a missão do diretor em compreender como poderia filmar situações de corrida sem deixar de lado a logicidade visual imanente às transmissões da F1.
Embora seja relativamente fácil salientar os aspectos positivos, não escapa ao fã mais assíduo das provas aos domingos o fato de que nem tudo em cena é plenitude de verossimilhança. Se existe um ponto crítico do longa, ou, digamos, um calcanhar de Aquiles, este diz respeito à sua incapacidade de reconstituir a dinâmica competitiva do automobilismo, com especial atenção à relação entre espaço e tempo nos momentos de ultrapassagem. Assim como obras dedicadas ao futebol padecem do problema da representação cinematográfica de sua prática por atores/atrizes não versados na linguagem corporal própria àquela modalidade esportiva, F1: O filme mete um dos pés pelas mãos quando tenta explorar mais a fundo a disputa nas corridas. Mesmo a montagem vibrante levada a efeito por Stephen Mirrione não dá conta de esconder a facilidade com que os pilotos da APX GP ganham posições em relação aos concorrentes, mesmo com um carro de nível teoricamente bem inferior ao das poderosas Red Bull Racing, Ferrari e Mercedes. Por sinal, chegamos ao fim da história sem saber qual piloto e equipe foram vencedores daquela temporada — tudo bem que o foco seja acompanhar Sonny Hayes, em sua jornada redentora do herói, como aquele que corre movido tão somente pelo prazer de guiar, mas as coisas soariam mais próximas à realidade se o roteiro houvesse sido costurado contextualizando-se o andamento do campeonato.
No fim das contas, o grande mérito de Joseph Kosinski é conseguir oferecer um filme acessível e atrativo para um público mais amplo que não acompanha o dia à dia da Fórmula 1, e, ao mesmo tempo, agradar suficientemente aos seus entusiastas de primeira hora, responsáveis por transformá-la em um fenômeno global de audiência, marketing e retorno financeiro. Sente-se na tela verdadeiramente o peso do protagonismo da F1 no cenário automobilístico mundial, em parte porque não se buscou, nesse projeto, contornar os bastidores da disputa interna em uma equipe, um dos pontos altos a mobilizar a atenção do público. Ao aliar narrativamente duas facetas complementares da intensa vivência na categoria, estabelecendo um retrato cinematográfico coerente e magnético aos olhos, F1: O Filme deixa como legado uma empolgante abordagem do universo das corridas de carros. Ainda que longe da perfeição, coloca-se, desde já, como um dos mais expressivos trabalhos a cultuar o automobilismo no cinema, ao lado de títulos como Speed Racer (Lana e Lilly Wachowski), Rush: No Limite da Emoção (Ron Howard), Ferrari (Michael Mann), Grand Prix (John Frankenheimer), Ford v Ferrari (James Mangold) e Se Meu Fusca Falasse (Robert Stevenson).
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Filme: F1: O Filme Elenco: Brad Pitt, Damson Idris, Javier Bardem, Kerry Condon, Tobias Menzies, Kim Bodnia, Sarah Niles, Will Merrick, Joseph Balderrama, Abdul Salis, Callie Cooke, Samson Kayo Direção: Joseph Kosinski Roteiro: Ehren Kruger e Joseph Kosinski Produção: Estados Unidos Ano: 2025 Gênero: Ação, Drama, Esportes Sinopse: Um piloto de Fórmula 1 sai da aposentadoria para orientar e formar equipe com um piloto mais jovem. Classificação: 12 anos Distribuidor: Apple Original Films e Warner Bros Streaming: Indisponível Nota: 7,5 |


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