Discutindo o autorismo de Ingmar Bergman em O Sétimo Selo, lançado no mesmo ano que Glória Feita de Sangue (1957), defrontamo-nos com uma significativa barreira: a ausência de assinaturas visuais tão evidentes, como movimentos de câmera marcantes ou as elipses de montagem à la Godard. Entretanto, a filmografia de Bergman segue um padrão marcado por uma seleção rigorosa dos temas, ilustrados a partir de um simbolismo visual característico e denso — como a “dança macabra” em O Sétimo Selo e a fusão dos rostos de Liv Ullmann e Bibi Andersson em uma única imagem, em Persona (1966). Por meio dessa combinação, caracterizada por uma organização visual bastante precisa, o cineasta sueco desenvolvia a sua verdadeira assinatura autoral no cinema.
De maneira similar, a obra de Stanley Kubrick também possui uma identidade muito menos pautada em marcas visuais recorrentes (como os travellings de Quentin Tarantino, repetidos exaustivamente) e mais em um controle rigoroso da mise-en-scène, além da exploração de temas como a obsessão, a violência, o Estado e a condição humana. Isso é acentuado devido a sua trajetória profissional ter sido marcada por experiências com os mais diversos gêneros cinematográficos — como Guerra, Ficção Científica, Horror, o Épico e a Comédia. Cada filme de Stanley Kubrick parece ser tão diferente um do outro (como comparar O Iluminado a 2001: Uma Odisseia no Espaço?), ao mesmo tempo em que surgem de uma mesma premissa conceitual, narrativa e estética.
Em Glória Feita de Sangue, um Major francês ordena a um General que intime um Coronel a liderar um ataque suicida às tropas alemães. Quando a missão tem o seu final trágico, e todos os combatentes são mortos ou desertam, três soldados são condenados à morte sob a acusação de “covardia”, para servir de exemplo e “elevar o moral” das tropas. Por meio dessa narrativa, Kubrick reflete sobre as estruturas estatais e militares, que oprimem e conduzem a humanidade à ruína moral, revelando as contradições entre uma racionalidade burocrática e os horrores de uma modernidade marcada por hierarquias desumanas. É a vida humana reduzida a um objeto descartável, em que a dignidade se esvai, a cruel precarização do ser!
A crítica do cineasta ganha forma na medida em que essas contradições são estruturadas narrativamente, e atingem plena expressividade por meio de uma metódica organização visual das sequências, que abrange a mise-en-scène e, fundamentalmente, se apoia na montagem. As cenas protagonizadas pelos militares de alta patente ocorrem em salões luxuosos, com uma arquitetura imponente que impressiona pelo caráter majestoso, transmitindo uma aura de poder e importância. Já aquelas protagonizadas pelos soldados, nos níveis mais baixos da hierarquia, ocorrem em ambientes que vão do decrépito ao insalubre, do claustrofóbico ao sombrio, como bares, trincheiras, alojamentos e celas.
Ao contrapor essas imagens, propondo um diálogo entre elas e sugerindo a interpretação ativa do espectador, Kubrick constrói uma crítica social e política forte que se aproxima dos pressupostos estéticos da montagem intelectual russa: a tensão entre imagens opostas. Entretanto, a ilustração das relações de poder não se limita aos efeitos da construção dos cenários e da montagem, mas também se faz presente na interação efetiva de personagens em cena. O Coronel Dax (Kirk Douglas), apesar de sua menor estatura física — o ator media 1,75 m —, ganha presença imponente entre os soldados graças aos ângulos de câmera, enquadramentos e posicionamento no espaço. Porém, diante dos generais, ele raramente se sobressai, revelando sua vulnerabilidade diante da autoridade do alto comando.
No entanto, essas hierarquias não são estáticas; ao contrário, possuem uma dinâmica que as redefine constantemente. Isto é, as relações de poder são continuamente abaladas, sugerindo a flexibilização das forças de dominação e a possibilidade de triunfo das virtudes éticas, como a coragem, a liberdade e a justiça. E é justamente no controle de mise-en-scène, por meio dos movimentos de câmera que constroem novos enquadramentos, e da movimentação dos atores, que essas hierarquias aparentes se desestabilizam — e, em alguns momentos, se invertem. A continuidade, a iluminação e a profundidade de campo são mobilizadas à maneira de Orson Welles, em Cidadão Kane (1941), tensionando as estabilidades visuais e dramatúrgicas das cenas. Por exemplo, quando o Coronel Dax confronta o Major George Broulard, demonstrando sua determinação, o personagem “cresce”, ganhando uma projeção simbólica, ressaltando sua coragem diante da opressão institucional.
Dessa forma, Stanley Kubrick propõe uma estrutura que concilia dois tipos de montagem aparentemente antagônicas: a montagem clássica invisível e a montagem intelectual dialética, espelhando a herança formal tanto de Orson Welles quanto dos cineastas soviéticos. Não obstante, Kubrick demonstra um domínio do cinema clássico, aparentemente operando dentro de uma lógica tradicional de fazer cinema, mas buscando provocar no espectador um impacto de distanciamento e reflexão crítica — característicos do cinema moderno. Essa abordagem permite que, mesmo ao trabalhar com os gêneros cinematográficos, fazendo filmes que na superfície compartilham poucos elementos em comum, a mesma premissa possa ser atingida: a reflexão sobre a fragilidade humana diante de uma opressão sistemática.
Retornando à sinopse: “Em Glória Feita de Sangue, um Major francês ordena a um General que intime um Coronel a liderar um ataque suicida às tropas alemães”. Essa sinopse que eu propus não consta em nenhum material original, mas serve ao propósito de evidenciar alguns elementos fundamentais da premissa criativa de Stanley Kubrick: a crítica à irracionalidade e brutalidade das instituições; à hierarquia rígida e autoritária; e à perversidade de um sistema que reduz a vida humana a objeto descartável. Além de Glória Feita de Sangue, outros filmes do cineasta encarnam plenamente essa crítica: 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968); Laranja Mecânica (1971); O Iluminado (1980); Nascido Para Matar (1987).
E é curioso, e para alguns até contraditório, que Kubrick, que sempre se posicionou com tanta contundência contra a desumanização e os abusos de poder, seja frequentemente descrito como uma figura autoritária e opressora. Como diretor, era um perfeccionista implacável — seu rigor visual é a maior evidência —, um tanto controlador, acumulando polêmicas envolvendo a sua relação com os membros de elenco. Sem a intenção de diminuir o legado do cineasta, fica o questionamento: até que ponto é possível a coexistência entre lucidez crítica e práticas autoritárias?
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Filme: Glória Feita de Sangue Elenco: Kirk Douglas, Ralph Meeker, Adolphe Menjou, George Macready, Timothy Carey Direção: Stanley Kubrick Roteiro: Stanley Kubrick, Calder Willingham, Jim Thompson Produção: EUA Ano: 1957 Gênero: Guerra, Drama Sinopse: Um Major francês ordena a um General que intime um Coronel a liderar um ataque suicida às tropas alemães. Quando a missão tem o seu final trágico, e todos os combatentes são mortos ou desertam, três soldados são condenados à morte sob a acusação de “covardia”, para servir de exemplo e “elevar o moral” das tropas. Classificação: 14 anos Distribuidor: United Artists Streaming: Prime Video/Looke Nota: 9,5 |

