CRÍTICA – GOAT

CRÍTICA – GOAT

Sempre que vemos o nome Jordan Peele em algum projeto, imediatamente nossos olhos brilham — ao menos aqueles que são apreciadores de filmes de terror. Afinal, é inegável o talento do norte-americano para o gênero por possuir uma filmografia praticamente irretocável, tanto por parte da opinião da crítica quanto do público geral. Lamentavelmente, nem mesmo seu dedinho na produção de GOAT foi o suficiente para fazê-lo ter sequer um terço da qualidade dos filmes que o cineasta dirigiu e roteirizou até aqui.

Em GOAT, acompanhamos o quarterback Cameron Cade no auge da fama. Após uma grave lesão causada por um fã ensandecido, topa ser treinado e orientado por Isaiah White. Não demora muito para, a partir daí, acompanharmos uma jornada de obsessão em busca de um objetivo, como em Whiplash ou, até mesmo, num Cisne Negro da vida, pela proposta de trazer um professor e/ou orientador que está ali não só para ensinar, mas para sobretudo provocar um inferno psicológico em seu “aluno”. Uma pena essa dinâmica opressiva não funcionar neste longa de Justin Tipping.

O título em português GOAT (Greatest Of All Time), que significa “O Melhor de Todos os Tempos”, é imensamente fiel à proposta que o filme carrega. Isso porque não somente essa frase é legitimada a cada oportunidade, como o longa em si é recheado com outras frases de efeito tão clichês e bregas quanto aqueles adesivos que lemos nas traseiras dos carros — que estão ali para fazer o espectador revirar os olhos de tão ridículas, pois só servem para externalizar e reforçar a masculinidade tóxica que já está mais do que escancarada.

Inclusive, o maior problema de GOAT reside nisso: em tentar fazer um “grande musse” em algo que está gritante, seja pela latência óbvia de sua crítica, ou por meio da própria decupagem que Tipping opta em orquestrar. O longa acaba se tornando um show de simbologias e alegorias que não intrigam ou acrescentam em algo ali, virando nada mais do que uma ostentação imagética gratuita e repetitiva. Não há nuances, nem profundidade; quando se começa a crer que alguma daquelas imagens está nos dizendo alguma coisa, imediatamente se nota que não.

O filme tenta pisar onde o pé não alcança. Ao invés de apostar no simples e efetivo, vemos uma sucessão de tentativas de “mirabolar” o que já está em evidência desde os primeiros minutos. A falta de nuance impacta diretamente na imersão, visto que é notória a carência de rumo do roteiro. O texto até tenta adicionar algumas camadas mais dramáticas, como, por exemplo, uma questão inquietante de Cameron com seu pai, mas absolutamente nada sobre isso comove ou desperta algum real senso de peso emocional.

Além desses fatores, as interpretações são curiosamente destoantes. Marlon Wayans começa bem, até consegue convencer dando vida a um cara austero, impulsivo, meio perturbadinho das ideias. Mas não demora muito para ele pesar na atuação e tornar seu personagem caricato, até canastrão. Em contrapartida, Tyriq Withers não consegue entregar carisma, emoção ou algum tipo de revolta genuína. É inexpressivo, o que nos distancia ainda mais de embarcar em suas motivações, torcer por ele. Não vemos esse sangue nos olhos no fato dele querer ser “o maioral”, ou pelo fato de estar sendo humilhado por White.

É inegável que a fotografia e toda a direção de arte de forma geral são competentíssimas, sendo talvez o único ponto louvável, ainda que deixem o longa com a identidade visual de um grande videoclipe estiloso. É que não adianta muito algum fator técnico ser bom isoladamente. Há filmes com uma identidade visual tão acachapante quanto GOAT e, ao mesmo tempo, conseguem entregar um roteiro e desenvolvimento que façam jus àquela qualidade técnica — afinal, uma coisa não anula a outra; muito pelo contrário: se complementam. Definitivamente, não é o caso de GOAT.

Os assuntos que teriam algum potencial para elevarem a trama, como a própria busca por uma perfeição inatingível, pressão midiática, fãs abusivos/invasivos e conflito parental, ficam aquém, sendo somente pincelados, nunca aprofundados. O que fica é a obviedade de que a masculinidade tóxica sempre desencadeará em violência, ainda mais no âmbito de um esporte que já é bruto por natureza, porém até isso é mal articulado, pois, vale dizer: não vemos sequer uma partida que explique tal talento absurdo (tanto de White, quanto de Cade). São apenas os treinos “sádicos”, os delírios infundados, o BBB dos brutos. E o looping se repete…

Enfim, GOAT mira num terror psicológico existencial e acaba sendo um longa pretensioso, que tenta provocar estímulos visuais a todo momento como forma de mascarar a redundância de seu argumento. Para um filme que escolhe usar o futebol americano como pilar metafórico, até o episódio Futebol Americano, de Chaves, faz com que tenhamos uma melhor base sobre como o o esporte funciona (não estou sendo irônica). Há signos, ambientes contrastantes, jogo de sombras, luzes neon… mas e quanto ao peso da história que acompanhamos? Não há.


Filme: GOAT
Elenco: Tyriq Withers, Marlon Wayans, Julia Fox, Tim Heidecker, Jim Jefferies, Guapdad, Tierra Whack, Indira G. Wilson
Direção: Justin Tipping
Roteiro: Zack Akers, Skip Bronkie e Justin Tipping
Produção: Jordan Peele, Win Rosenfeld, Ian Cooper, Jamal M. Watson
Ano: 2025
Gênero: Terror/Thriller
Sinopse: Cameron Cade é um jogador promissor que acaba sofrendo um incidente na véspera de um evento decisivo para sua carreira. Seu ídolo Isaiah White oferece-se para treiná-lo em um retiro isolado e, conforme o treinamento avança, seu comportamento tóxico faz Cade enxergar um risco iminente.
Classificação: 18 anos
Distribuidor: Universal Pictures
Streaming: Não disponível
Nota: 4,0

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