CRÍTICA – HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET

CRÍTICA – HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET

Existe hoje um modelo amplamente reconhecível de cinema de prestígio, frequentemente associado ao que se convencionou chamar de Oscar bait, em que certos arranjos de dramaturgia, atuação, trilha sonora e fotografia funcionam quase como sinais prévios de importância artística. Esses sinais, ao longo do tempo, deixam de ser apenas escolhas estéticas e passam a operar como paradigmas reproduzíveis, absorvidos por diretores e estúdios, formando um circuito em que a própria forma do filme já antecipa parte de sua recepção. O resultado é uma progressiva homogeneização estética, em que obras distintas compartilham um mesmo esqueleto emocional e narrativo, produzindo no espectador contemporâneo uma sensação curiosa: antes mesmo da primeira imagem, já se reconhece o molde que virá. Assiste-se, então, em estado de expectativa — ou de vigilância crítica. Hamnet

É preciso pontuar que essa expectativa não é um desvio da experiência, mas parte constitutiva dela. O espectador não entra neutro na sala: carrega consigo informações de mercado, rumores de temporada de premiações, reputações autorais e comentários prévios que atravessam o olhar. A antecipação molda tanto a entrega emocional quanto a percepção de previsibilidade formal. Hamnet surge inevitavelmente dentro desse contexto, carregando a promessa de “filme do Oscar”, ou “filme importante”, antes mesmo de apresentar sua primeira cena — e é a partir desse peso contextual que sua experiência começa a se desenhar.

Baseado no livro homônimo de Maggie O’Farrell, Hamnet se passa na Inglaterra do século XVI e nos apresenta Agnes, mulher ligada à natureza e aos saberes do campo, que vive afastada da cidade, enquanto o marido, William Shakespeare, busca sustentar a família através do teatro. Quando uma praga se espalha na Europa, os filhos do casal adoecem, e a morte do menino Hamnet inaugura um luto que reconfigura completamente a vida dessa mulher. Anos depois, a ferida retorna quando Shakespeare apresenta uma nova peça em Londres, obrigando Agnes a confrontar não apenas a ausência do filho, mas a maneira como essa ausência é reelaborada pela arte do marido. O filme se constrói a partir desse retorno da dor, mais interessado em suas reverberações do que na reconstrução dos fatos históricos.

Dentro dessa premissa, Hamnet adere a uma gramática reconhecível do cinema de prestígio. Atuações intensamente estilizadas, música orientando a emoção e uma fotografia cuidadosamente composta conduzem o espectador a estados emocionais muitas vezes previsíveis. A experiência sensorial é calibrada com precisão, mas também carrega uma familiaridade formal que dilui parcialmente a impressão de identidade artística própria. É claro que a identidade autoral de Chloé Zhao está presente, mas dentro de um molde reconhecível. Mesmo nos momentos mais potentes, persiste a sensação de que o filme opera dentro desse modelo já consagrado de drama histórico. Ainda assim, a execução muitas vezes impressiona, principalmente quando a diretora consegue conduzir a emoção, mas sem dissipar uma leve apatia estrutural que acompanha a percepção de que o caminho é reconhecido antes mesmo de ser plenamente percorrido.

Ainda assim, o filme faz uma escolha clara de foco, e isso talvez seja um dos maiores acertos. Chlóe Zhao não constrói uma cinebiografia de Shakespeare, tampouco uma narrativa sobre a origem de “Hamlet” como produto cultural. O eixo está em Agnes: sua dor, sua solidão, sua posição dentro de uma estrutura patriarcal que normaliza sua invisibilidade. A ausência de Shakespeare não é transformada em conflito dramatizado, mas em condição silenciosa da experiência materna. Paradoxalmente, o nome que sustenta o apelo mercadológico do projeto permanece praticamente ausente até o fim. Essa contradição entre proposta artística centrada em Agnes e estratégia comercial apoiada no cânone shakespeariano atravessa a obra como tensão subterrânea. Sendo assim, a dor do luto que ela e Shakespeare carregam — com a matriarca ocupando maior foco no filme — torna-se o grande fio condutor da obra.

O luto não é tratado como acontecimento isolado, mas como estado contínuo que molda o ritmo das cenas e a economia dos diálogos. A longa sequência da peste exemplifica esse gesto: menos interessada na factualidade da doença, mais dedicada a submeter o espectador à duração do sofrimento. E é nessa sequência que Jessie Buckley apresenta uma atuação muito marcante. Hamnet prefere fazer sentir antes de explicar. Em meio a esse realismo sensorial, surgem momentos de invenção simbólica — paralelos mitológicos no nascimento dos gêmeos, a presença figurada da morte, a sugestão de reversibilidade da vida —, instantes em que a obra respira e se permite escapar do registro predominante. São nessas passagens que Hamnet encontra sua singularidade mais evidente. Ainda assim, o eixo emocional permanece sustentado por dispositivos tradicionais de identificação, conduzindo diretamente à empatia, o que talvez explique certa sensação de distanciamento pessoal que sobrevive mesmo diante da intensidade dramática. A estrutura narrativa, então, apenas acompanha esse foco no sensorial. Saltos temporais e supressões de informações não parecem falhas de coesão, mas recusa deliberada de uma narrativa histórica factual. A montagem se organiza por estados afetivos, não por completude de acontecimentos. As lacunas podem gerar estranhamento, mas reforçam a decisão de não transformar a obra em reconstituição tradicional.

Nesse percurso, é possível ler o filme como reflexão sobre arte nascida do trauma, embora essa via nunca se torne central. Alguns leem o filme com esse foco, o que não é uma leitura equivocada. Mas o grande centro do filme não é esse. A própria criação artística de Shakespeare aparece sobretudo pelo impacto que produz em Agnes, não como jornada interior do dramaturgo. Quando a peça finalmente surge, ela não afirma o gênio do autor, mas devolve a dor à mulher que a originou. A encenação de “Hamlet” opera então como ponto de convergência entre memória, perda e representação. A catarse não se constrói por discursos explicativos, mas pela fricção entre a cena teatral e o rosto de Agnes, em que o filme alcança sua potência mais reflexiva. Tudo que foi vivido até ali tem sua catarse na obra artística “Hamlet”, mas Chloé faz questão de trazer a dor de Agnes, sempre colocada de lado, em primeiro plano. A perspectiva do olhar da peça é, em grande parte, da protagonista.

E toda essa decisão da diretora tem impacto visual. A obra evita uma reconstrução histórica densa ou carregada. A estética limpa aproxima o século XVI do presente, sugerindo que a experiência de Agnes não pertence apenas ao passado. Essa escolha reposiciona uma mulher historicamente invisibilizada em chave contemporânea, fazendo da atemporalidade não um descuido de ambientação, mas uma estratégia de sentido.

Por fim, Hamnet se insere num modelo de cinema de prestígio que não desapareceu, apenas passou a coexistir com outras estéticas valorizadas recentemente no Oscar. O filme dialoga mais com essa tradição institucionalmente reconhecida do que com caminhos realmente disruptivos do cinema atual. Herdeiro direto de um molde consolidado, encontra força na execução e na emoção, mas também carrega o peso de uma forma que já conhecemos bem. É um filme com um final catártico realmente impressionante, mas cuja forma (ou fórmula?) o sabota em diversos momentos.


Filme: Hamnet (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Jacobi Jupe, Noah Jupe, El Simons, David Wilmot, Joe Alwyn
Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao, Maggie O’Farrell
Produção: EUA
Ano: 2025
Gênero: Drama, Romance
Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino. Explorando os temas da perda e da morte, o filme acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa, que inspirou a criação da peça Hamlet.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Universal Pictures Brasil
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

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