CRÍTICA – JUNTOS

CRÍTICA – JUNTOS

A estreia de Michael Shanks dirigindo e roteirizando um longa já vem com um projeto um tanto curioso e original, cuja premissa por si só já nos soa um tanto perturbadora. Em Juntos, ele aborda vários temas pertinentes que rondam um relacionamento amoroso, utilizando o body horror como principal alegoria metafórica para fortalecer a ideia principal, como outros filmes do gênero buscaram fazer — vide o maravilhoso e audacioso A Substância, ou até mesmo Raw, de Julia Ducournau.

Juntos é um filme inusitado, bizarro, fora da caixa. Acompanhamos um casal que logo de início parece instável, enfrentando algum tipo de crise em sua relação, rendendo inclusive alguns momentos com boas doses de constrangimento. É como se o casal estivesse claramente em conflito não resolvido, aderindo a subterfúgios, ocultando seu respectivo incômodo com algum assunto pendente, empurrando o relacionamento com a barriga. Um quer seguir uma carreira supostamente fadada ao fracasso, o outro não apoia. Um quer mudar de cidade, o outro, nem tanto. Mas isso é dito? Não. É evidente que o diálogo não é o forte entre os dois.

Após caírem numa caverna misteriosa ao fazerem uma trilha numa floresta perto de sua nova casa, as coisas começam a ficar estranhas e o body horror entra em cena. A direção estabelece isso com uma certa calma e cuidado ao construir seus personagens, já tendo explicitado os conflitos entre o casal sem ter que ir “direto ao ponto”. Do incidente da caverna adiante, aos poucos, toda a bizarrice que Shanks traz acaba por destrinchar os altos e baixos da relação de Tim e Millie, fazendo-os perceber que terão de confrontar suas noções de intimidade da pior forma possível.

A codependência acaba sendo o principal pilar do roteiro. Afinal, um casal que está junto há bastante tempo pode acabar se acostumando com a presença um do outro, a ponto de ser possível confundir acomodação com amor. A suposta estabilidade pode, na verdade, ser uma instabilidade mascarada. A atração sexual está abalada; não há conversas abertas sobre suas vontades individuais, para além de um casal. Então, qual seria a linha tênue entre o “nós” e o “eu”? O texto revela várias camadas dessas questões à medida em que a trama avança, trazendo inclusive muitos questionamentos até filosóficos.

O body horror aqui, embora latente, é trabalhado de maneira mais sutil, menos explícita. O que para muitos pode parecer “covardia” em não querer escancarar certas minúcias das cenas que já são agonizantes por si só, pode ser na verdade uma evidência de que nem sempre o horror precisa ser conspícuo, ou se escorar num excesso de sanguinolência, de exageros — o brilho aqui está em toda a atmosfera de tensão gerada em torno de cada cena, e é isso que torna o filme tão visceral em sua essência. Nem mesmo os toques de humor quebram o clima de urgência, fazendo o espectador basicamente rir de nervoso.

Até mesmo a fotografia acaba ficando mais sombria com o desenrolar das bizarrices, trocando cenas diurnas por noturnas, trazendo planos com uma fotografia mais obscura, com mais sombras e escuridão. Há pontuais jumpscares que funcionam muito bem. É fato que Juntos é um longa que possui uma atmosfera crescente, fazendo com que seja impossível sequer deduzir o que virá na cena seguinte. A tensão vai dando espaço à curiosidade, que dá espaço à aflição.

O filme opta ir pelo caminho de entregar uma explicação detalhada sobre o fenômeno sobrenatural que o casal enfrentou — decisão criativa que pode desagradar a muitos. Vamos confessar que, não cair na tentação de aderir a uma “Shyamalanzação” da coisa, ou seja, não entregar um final mastigadinho disfarçado de plot twist, pode sim ser a melhor escolha; mas, no caso de Juntos, tal escolha acaba sendo o fio que puxa para o teor absurdo e cômico que a icônica cena final pedia. Aliás, 2 Become 1 das Spice Girls nunca mais será ouvida da mesma forma.


Pôster do filme Juntos Filme: Juntos
Elenco: Dave Franco, Alison Brie, Damon Herriman, Jack Kenny, Mia Morrissey, Karl Richmond, Francesca Waters, Aljin Abella, Sarah Lang, Rob Brown Chaplin, Tom Considine
Direção: Michael Shanks
Roteiro: Michael Shanks
Produção: EUA
Ano: 2025
Gênero: Terror, Romance
Sinopse: Após um misterioso incidente, um casal terá que lidar e lutar contra uma estranha força sobrenatural que se apoderou de seu relacionamento.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: Diamond Films
Streaming: Indisponível
Nota: 8

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