CRÍTICA – KOKUHO

CRÍTICA – KOKUHO

Chega nos cinemas brasileiros Kokuho (2025), dirigido por Sang-il Lee, o filme live-action de maior bilheteria da história do Japão. O longa foi indicado, nos prêmios da Academia Japonesa, evento a acontecer no dia 13 de março de 2026, a todas as categorias elegíveis; e indicado, no Oscar, à Melhor Maquiagem e Penteado — apenas. Não é novidade que, como notoriamente ressaltou Bong-Joon Ho, em uma entrevista para a Vulture (2019), o Oscar não é um festival de cinema internacional, é um evento “muito local”. Contudo, é inegável que é um evento central na veiculação global de filmes, pois passam a distribuir-se obras que, sem a indicação, jamais circulariam na maioria das salas do Brasil. É claro, não em todas as salas, nem em todos os estados, mas o simples feito deste filme chegar ao Brasil me faz ter alguma esperança de que os espectadores reflitam sobre os tesouros de países estrangeiros, que proporcionam uma experiência cultural e artística distinta. Sendo mais direto, nessa corrida de assistir os “filmes do Oscar”, Kokuho me fez consolidar o julgamento de que pouquíssimos exemplos da seleção deste ano foram especiais como este.

Kokuho trata da trajetória de Kikuo Tachibana, interpretado por Ryo Yoshizawa, um jovem aprendiz de kabuki, um espetáculo teatral tradicional japonês em que atores interpretam mulheres de maneira extremamente estilizada, arte denominada de onnagata. Ele é o protegido de Hanjiro Hanai, interpretado por Ken Watanabe, e o melhor amigo de Shunsuke Ogaki, filho de Hanjiro. Ambos se dedicam, desde a adolescência, à companhia de teatro de seu mestre, com a ambição de tornarem-se, em algum momento, atores célebres. A distinção de Kikuo na trama é a condição de “forasteiro”, pois, no meio artístico do kabuki, fazer parte de uma família de atores é essencial. Daí instaura-se a competição entre os dois jovens, já que, enquanto um tem a certeza de seu nome e seu sangue, o outro conta apenas com a dedicação incansável para se destacar. Como se não bastasse, Kikuo também é filho de um yakuza; o assassinato de seu pai deixará uma marca e o dará um impulso de vingança que será canalizado para uma ambição ímpar.

Ainda que queira adentrar nas qualidades de Kokuho, é preciso tratar de aspecto inconsistente do filme para deixá-lo de lado já. A estrutura da trama é simples e novelesca, efetiva em sua familiaridade, mas prejudicada pela duração da produção — e não estou dizendo que o filme devia ter sido menor, à despeito de suas três horas de duração, pelo contrário. Especialmente na segunda metade, o título aposta em várias elipses temporais que, considerando a construção dos conflitos prévios, omitem demais o desenvolvimento da dupla principal. A resolução, ou o apaziguamento, de algumas tensões importantes ocorre em momentos que nos são privados pela cartela que indica o ano da nova sequência, e isso deixa uma sensação de incompletude dramática impossível de ignorar. No entanto, o filme compensa essa debilidade de roteiro com o absoluto interesse da direção na arte do kabuki, permitindo cenas de duração generosa, para a admiração de excertos de espetáculos, cuja qualidade se deve às impressionantes interpretações da dupla principal e ao jogo de câmeras que nos permite adentrar o palco, privilégio que somente a cinematografia proporciona.

Além desse primor na filmagem dos espetáculos, destaco, também, a interpretação de Soya Kurokawa, astro de Monster (2023), de Hirokazu Kore-eda, interpretando o jovem Kikuo durante o período adolescente do filme. Já nas cenas iniciais, quando ainda era um ator amador, demonstra um alcance vocal e uma interpretação corporal marcantes. Tanto no cotidiano, pelo carisma juvenil, quanto interpretando, pelas características do onnagata, Kurokawa prende o olhar e garante que o espectador tenha em sua memória, quando o filme passa para a fase adulta, essa persona marcante. Yoshizawa, pela experiência, entrega um Kikuo virtuoso e expressivo nos palcos, em contraste com sua versão mundana, mais apática, resultado de uma concentração exclusiva ao kabuki. Sua interação com Yokohama também rende diversas cenas de intensidade, da confidência e amizade ao ódio e à rivalidade. O protagonista também desenvolve uma personalidade fria e cruel com as mulheres com quem se envolve, que sempre ficam de lado às margens de seu interesse.

Por sinal, a representação das mulheres neste filme certamente pode render debates, ainda mais devido ao fato de que o filme gira em torno de atores interpretando mulheres, mas mesmo essa frase me parece bastante reducionista sobre o que é o onnagata e sobre qual é o ponto de Kokuho. O filme parte dos anos 1960, e corre por décadas à frente, comentando sobre um universo masculinizado, e sobre personagens que põem seu propósito pessoal acima de suas relações familiares. As mulheres são acessórios propositalmente, pois questões de gênero não se passam na mente desses personagens. É claro que uma leitura reivindicativa pode ser feita, pois, originalmente, o kabuki também permitia mulheres nos palcos, mas isso mudou em meados do século XVII, quando o xogunato proibiu devido à associação com prostituição, informação que Kokuho exibe na cartela inicial. Porém, enquanto espectador estrangeiro e sem conhecimento aprofundado de kabuki, me parece que Sang-il Lee tratou do que queria tratar sem hipocrisia.

Sem entrar em spoilers, mais à frente, o protagonista acaba tendo que encarar seus erros, que incluem a maneira como lidou com as relações que tinha, tanto com seu melhor amigo quanto com as mulheres de sua vida, mas, mesmo assim, o desejo de se tornar kokuho, a mais alta honra para um ativo cultural japonês, persiste acima de tudo. Como disse, é uma trama familiar, mas que ganha muita força com as interpretações e os aspectos sensoriais. A direção de arte dispensa comentários, já que reconstitui algo que já é vislumbrante, e a trilha musical tem uma questão interessante que deixo, para encerrar, como reflexão ao leitor e àqueles que assistiram ao filme.

Durante as cenas de kabuki, ouvem-se os instrumentos tradicionais, conforme são tocados nos espetáculos reais, mas, por vezes, entra a trilha musical instrumental extra diegética de Marihiko Hara, com seus instrumentos de corda e de sopro em uma mixagem ecoante e atmosférica. Em geral, o filme mostra alguns minutos ininterruptos da peça até a hora que entra a música e resume para passar para frente. Minha pergunta é: já não é fascinante a música tradicional? Será que, por exemplo, na fenomenal cena da garça suicida, era necessária essa reiteração pomposa dos violinos? A música instrumental intensifica a emoção ou desvirtua a música diegética, própria para a peça? Não tenho respostas, mas defendo inclinações radicais, pois, por mim, este filme poderia ser mais longo ainda, com, ao menos, um ato de kabuki na íntegra. Seria uma radicalização formal, que adicionaria aproximadamente uma hora de filme, mas é tão interessante, ainda mais com a decupagem que nos faria passear pelo cenário e aproximar dos rostos dos atores; preferiria assim, para evitar que a boa trilha orquestral de Hara, presente em outros momentos do filme, sirva somente como mero apoio nas cenas de kabuki.

Pôster do filme Kokuho Filme: Kokuho: O Preço da Perfeição
Elenco:
Ryo Yoshizawa, Ryusei Yokohama, Mitsuki Takahata, Shinobu Terajima
Direção:
Sang-il Lee
Roteiro:
Satoko Okudera
Produção:
Japão
Ano:
2025
Gênero:
Drama
Sinopse:
Após a morte de seu pai, líder de uma gangue yakuza, Kikuo, de 14 anos, é confiado aos cuidados de um famoso ator de kabuki. Ao lado de Shunsuke, único filho do ator, ele decide se dedicar a esse teatro tradicional.
Classificação:
14 anos
Distribuidor:
Sato Company
Streaming: 
Indisponível
Nota:
8,0

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