CRÍTICA – KONTINENTAL 25

CRÍTICA – KONTINENTAL 25

Classificar o cinema levado às telas pelo romeno Radu Jude é uma tarefa que ecoa pelas páginas de um dicionário, haja vista o tanto de vocábulos que poderiam ser evocados para referir-se ao mesmo, e, ainda assim, seriam insuficientes para dar conta da singularidade de mise-en-scène tipicamente proposta por ele, excêntrica e cáustica em relação às vertentes cinematográficas canônicas e à realidade que alimenta a construção narrativa fundamentalmente (pós-)satírica de suas obras.

O mais recente projeto do diretor, Kontinental 25, conquistou – com méritos totais, diga-se de passagem – o prêmio de Melhor Roteiro na Berlinale 2025. Do início ao fim, temos uma aula de como abordar universalmente, e de modo cirúrgico, a temática da crise moral humana face à condição de exclusão e/ou opressão social. A semiótica desse retrato em imagens em movimento é feita à luz de uma realidade global cujas raízes de verdade absurda e cínica encontram nutrientes primários em solo local fértil – neste caso em específico, a cidade de Cluj, situada na mitológica Transilvânia, noroeste da Romênia. Orsolya (Eszter Tompa) é uma oficial de Justiça que se vê afogada em uma tormenta de culpa após o sem-teto Ion (Gabriel Spahiu) ceifar a própria vida, motivado pelo despejo de uma improvisada moradia num sótão após uma megacorporação imobiliária europeia obter uma sentença judicial.

Os instantes iniciais do longa são de melancolia palpável. Ion é captado perambulando pelas ruas de forma quase documental, com a câmera de Radu como testemunha à distância do infortúnio daquele homem, outrora um grande esportista nacional. Mesmo essa vibe realista de contornos sombrios não impede o diretor de lançar mão de sutil humor para tecer críticas à maneira como a sociedade e o Estado lidam com pessoas como aquele solitário mendigo. Isso é feito a partir da inserção de Ion em situações cuja bizarrice não dá para rechaçar, a exemplo da coleta de materiais recicláveis em um parque público tomado por dinossauros mecatrônicos, ou, ainda, o descontentamento de transeuntes devido a ele estar repelindo os ataques de um cão-robô enquanto vasculhava a lata do lixo. Nesse sentido, a coisificação dos indivíduos alcança o seu ápice no contexto do capitalismo tardio, em que as coisas do mundo têm mais valor do que a própria existência humana – e isso vale mesmo para uma nação que, durante décadas, estivera sob a influência da União Soviética, e, hoje, tenta surfar nas ondas do sonho dourado de pertencimento à União Europeia.

No entanto, é através de Orsolya que a narrativa se estrutura em todo o seu vigor de crítica social àquilo há muito naturalizado como normal. O sentimento de culpa leva a personagem a percorrer, involuntariamente, uma espécie de trilha expurgatória que lhe permite refletir sobre a trágica morte que presenciara. Aqui, no entanto, não interessa olhar para a personagem com semblante de piedade, mas, antes, reconhecê-la como alguém inabalavelmente autocomplacente. Radu Jude espreita Orsolya de modo contemplativo ao longo de quatro encontros, cada qual deles percebido a partir de planos fechados estáticos de longa duração.

Esses momentos se constituem como o cerne narrativo de Kontinental 25, servindo de metáfora crítica, por assim dizer, para as dimensões às quais recorremos quando almejamos purificação em relação a um fantasma do passado. O primeiro deles acontece numa praça, com uma amiga, e revela a tentativa burguesa de fazer da caridade um ato compensatório às desigualdades estruturais de renda, status e poder. No segundo, Orsolya, húngara de nascimento, expõe, através do diálogo com a mãe, aspectos que historicamente permeiam as conturbadas relações entre Romênia e Hungria, mutualmente alimentadas por um arraigado sentimento xenofóbico. O terceiro se dá com um ex-aluno da faculdade, e nele se vê a busca do prazer como meio de fuga eventual da normalidade cotidiana, cerceadora e sufocante. Por fim, no quarto encontro vemos a protagonista em um papo sobre fé e salvação com um clérigo ortodoxo, uma óbvia mas não menos interessante expressão do lugar da religião como lugar de (re)conforto espiritual frente ao desconfortável mundo material.

Hilário sem deixar de ser contundente em sua abordagem, o novo longa de Radu Jude é uma síntese poderosa da atual sociedade romena, cada vez aderente à economia global, e, por conseguinte, entorpecida pelo inebriante aroma do capitalismo e suas promessas de bem-estar para quem demonstre possuir méritos e predisposições funcionais à manutenção do sistema, independentemente das consequências disso para as demais pessoas, sobretudo os esquecidos como Ion. A impactante sequência final simboliza o mal estar contemporâneo derivado da preponderância dos interesses corporativos sobre as necessidades sociais mais prementes. Indubitavelmente, um filme com um olhar inusitado a refletir a nação de seu realizador, mas, também, a fatídica realidade à qual a humanidade chegou por vontade própria.

Obs: Kontinental 25 foi visto no XVI Janela Internacional de Cinema do Recife.


Filme: Kontinental 25
Elenco: Eszter Tompa, Gabriel Spahiu, Annamária Biluska, Marius Damian, Serban Pavlu e Adrian Sitaru
Direção: Radu Jude
Roteiro: Radu Jude
Produção: Romênia, Suíça, Luxemburgo, Brasil e Reino Unido
Ano: 2025
Gênero: Comédia, drama
Sinopse: Em Cluj, capital da Transilvânia, Orsolya trabalha como oficial de Justiça. Certo dia, ela precisa despejar um morador de rua de um porão, o que tem resultados desastrosos.
Classificação: Não
Distribuidor: Não informado
Streaming: Indisponível
Nota: 9,7

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