CRÍTICA – LAR

CRÍTICA – LAR

O documentário LAR, dirigido por Leandro Wenceslau, parte de uma premissa potente: observar o cotidiano de três famílias LGBTQIAPN+ pelo ponto de vista dos filhos. Esse gesto, aparentemente simples, inverte o eixo narrativo tradicional e desloca o olhar para o afeto, que deixa de ser mediado pela norma e passa a ser articulado pelas margens, onde o amor precisa se reinventar diariamente para existir.

Assim como Apolo, de Tainá Müller e Isis Broken, LAR se interessa pelas formas dissidentes de família e pelos corpos que desafiam a heteronormatividade. Ambos partem do íntimo para pensar o político, mas percorrem caminhos distintos. Apolo é um filme de pulsação clara, com uma dramaturgia emocional bem delineada, em que cada gesto parece necessário à construção do todo. Há coesão, ritmo e uma consciência estética que sustenta o discurso. LAR, em contrapartida, prefere o inacabamento: é fragmentado, contemplativo, um filme que escolhe sugerir em vez de afirmar. Há beleza nesse gesto, mas também certa hesitação.

O início é instigante e poético. Wenceslau recorre a imagens de arquivo para tentar traduzir sua relação com o pai, criando um diálogo entre memória e ausência. É um momento de rara sensibilidade, em que o cineasta parece compreender que filmar o afeto é também um ato político: olhar para dentro como forma de entender o outro. Esse prólogo anuncia um caminho autorreflexivo, em que o realizador poderia articular o pessoal e o coletivo, o íntimo e o social. No entanto, essa linha se desfaz rapidamente.

Quando abandona essa perspectiva, LAR se transforma num filme feito de boas intenções, um bolo com ingredientes de qualidade, mas sem fermento suficiente para fazê-lo crescer. As histórias das famílias são necessárias, urgentes, e estão filmadas com respeito e ternura. Ainda assim, falta uma amarra dramática ou conceitual que sustente o conjunto. A montagem, irregular, reforça a sensação de dispersão: acompanhamos momentos que tocam, mas que não dialogam plenamente entre si. O resultado é um filme que observa mais do que atravessa, que vê mais do que sente.

Há, no entanto, um mérito considerável na escolha de Wenceslau: LAR fala de temas complexos com simplicidade e sem o peso da pedagogia. O filme naturaliza a diferença e insere o espectador dentro dessas rotinas com delicadeza: o café da manhã, o dever de casa, as conversas banais. O extraordinário, aqui, reside justamente na banalidade de amar, cuidar e existir sem precisar justificar-se. É nessa normalização do afeto dissidente que o filme encontra sua beleza mais genuína.

Mas a simplicidade, em alguns momentos, se confunde com neutralidade. Falta densidade, uma voz que organize, um pensamento que costure. Se Apolo é capaz de construir um discurso emocional e político que se expande, LAR recua diante da própria potência, como se temesse se posicionar demais. O filme parece buscar um equilíbrio entre a observação e a imersão, mas acaba oscilando entre a crônica e o ensaio, sem se firmar plenamente em nenhum dos dois territórios.

Ainda assim, LAR carrega algo de honesto e necessário. Num país que ainda insiste em apagar o afeto dissidente, ver essas famílias na tela é um gesto de resistência e um lembrete da força política do amor, esse verbo que, filmado com respeito, continua sendo a mais radical das imagens. Wenceslau talvez não encontre a forma ideal, mas encontra o gesto certo: filmar o amor como quem tenta compreender o mundo a partir do que ele ainda pode ser.


Filme: LAR
Direção:  Leandro Wenceslau
Roteiro:  Leandro Wenceslau
Produção: Brasil
Ano: 2025
Gênero: Documentário
Sinopse: Em um mundo onde o conceito de família está em constante transformação, “Lar” revela o cotidiano de três famílias LGBTIAPN+ através do olhar sensível de seus filhos. Enquanto estes jovens navegam entre desafios e alegrias, o diretor entrelaça sua própria história de busca por identidade e pertencimento. Mais que um documentário sobre novos arranjos familiares, é uma reflexão íntima sobre como o verdadeiro Lar se constrói no cuidado e no afeto, transcendendo convenções e redefinindo o significado de família na sociedade contemporânea.
Classificação: Livre
Distribuidor: Embaúba Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

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