CRÍTICA – M3GAN 2.0

CRÍTICA – M3GAN 2.0

O lançamento do filme M3GAN, em 2022, arrecadou cerca de US$180 milhões em bilheteria surpreendendo até mesmo seu estúdio de produção por não ser um projeto de grandes ambições. Três anos depois, veio aí a já esperada – no sentido de que sabíamos que a ganância iria falar mais alto a ponto de fazerem uma sequência de algo que já não era muito bom, não no sentido de que aguardávamos ansiosamente por isso – sequência da história da boneca de carisma duvidoso e de presença não tão memorável, M3GAN 2.0. Para quem esperou que o resultado fosse ruim, pode haver uma surpresa: o filme ficou ainda pior do que você imaginava.

Em M3GAN 2.0, a trama escolhe seguir a linha de uma ação pipocona que desvaloriza e derruba a pouca base de terror que os realizadores optaram em trazer no primeiro filme. Esse caminho não teria problema, se ao menos fosse divertido… mas até no entretenimento o longa fica devendo. Se no antecessor já havia uma certa covardia em razão da ausência de uma violência mais gráfica (preocupação com questões de classificação indicativa, muito provavelmente, mas não justifica), nesta sequência, ela é descartada praticamente por completo, mesmo com um texto bem propício para fortalecer esse segmento, graças à nova dinâmica que flerta com o que seria um filme slasher; isso devido à chegada da nova robô, AMELIA, programada por hackers para ser ainda mais sanguinária e impiedosa que M3GAN.

Mesmo com a faca e o queijo na mão, o roteiro de Akela Cooper e Gerard Johnstone cai por um caminho mais seguro, menos ousado, e consequentemente… mais genérico. Toda a suposta ameaça a nível global que gira em torno de AMELIA é reduzida a pequenos recortes de ambientes específicos, fazendo sumir qualquer senso de urgência e interesse em ver os personagens tentando deter a robô espiã. Seguimos uma jornada longa e maçante, com zero empolgação.

O longa não se preocupa em se aprofundar no debate que seria o tema-chave: a questão do uso da Inteligência Artificial. Em suma, há somente uma exploração superficial e mal elaborada. O roteiro não busca uma visão lógica ou no mínimo agregadora sobre essa questão. Apresenta-se uma ideia inicial, que é a de que a tecnologia pode ser benéfica ou maléfica à humanidade, dependendo do modo de como a utilizamos (raciocínio mais óbvio do mundo), e, entre idas e vindas, termina com essa exata conclusão e “moral de história”, sem acréscimos ou decréscimos.

E olha que potencial para uma base textual mais sólida e coerente não faltou, visto que o fato da boneca M3GAN ter sido programada com o único intuito de proteger a menina Cady, fazendo-a criar um suposto apego emocional e sendo praticamente uma entidade digital, poderia ser a brecha perfeita para pautar uma questão mais destrinchada do chamado problema do alinhamento, por exemplo, que discute sobre a dificuldade de garantir que sistemas de IA exerçam suas funções de acordo com os objetivos e valores humanos sem levar a consequências indesejadas ou prejudiciais, entre outros assuntos éticos que são tangenciados, mencionados da maneira mais relapsa possível em meio a um bombardeamento de cenas galhofas e sem propósito.

O filme é recheado de diálogos hiperexpositivos, que narram incessantemente quais serão os próximos passos dos personagens para alcançar tal objetivo ou impedir tal coisa, como por qual motivo e quando farão tais atos; cada segundo é uma enxurrada de explanações constantes, como se os realizadores duvidassem escancaradamente da capacidade cognitiva do espectador, mesmo se tratando de um projeto que, para ser minimamente arrevesado, teria que ser repensado e reformulado do zero. É nítida a tentativa de insistir em complexificar uma proposta tão boba e simplista. Não seria precipitado deduzir que havia uma enorme confiança por parte do diretor e roteirista em crer que a presença e personalidade “debochada” da boneca M3GAN seriam o suficiente para manter o interesse e cativar o público. Não tinha um amigo para avisar.

As duas horas de duração, aliás, são surrealmente incondizentes para um conteúdo tão raso e repetitivo, que parece andar em círculos enquanto enche o espectador com cenas patéticas com o claro intuito de viralizar – inclusive, com uma fotografia e enquadramento de câmera pensados em centralizar todo o material visual importante exatamente no meio da tela, não nas laterais, para facilitação de recortes verticais a fim de resultar nos famigerados edits de fãs nas redes sociais. Sim, aqui eles elevam ainda mais essa aposta de fazer o filme “hypar” entre um público possivelmente mais jovem.

A tentativa de fazer vingar um humor nonsense é imensamente fracassada. Se uma cena ou outra até conseguem arrancar uma risada, é por mera sorte, ou talvez por compadecimento. A aposta maior é mergulhar na ação, que mira referenciar filmes como O Exterminador do Futuro 2 e, até mesmo, Missão Impossível, mas acaba acertando num patamar de Os Mercenários 4, com cenas cansativas, mal dirigidas, coordenadas e montadas. A ideia de trazer, em tese, uma robô mais potente e mal intencionada que M3GAN, também só fica na promessa, já que o único “embate” entre elas é insípido e anticlimático. Talvez por essa altura a trama já ter enchido tanta linguiça, tudo o que sobra é exaustão e inapetência em saber como tudo aquilo irá encerrar. Em resumo, M3GAN 2.0 vem turbinado de tudo o que o seu antecessor já havia apresentado de ruim, assemelhando-se a mais um filme genérico qualquer adicionado a algum catálogo de streaming.


Pôster do filme M3GAN 2.0 Filme: M3GAN 2.0
Elenco: Allison Williams, Amie Donald, Ivana Sakhno, Violet McGraw
Amy Usherwood, Aristotle Athari
Direção: Gerard Johnstone
Roteiro: Akela Cooper, Gerard Johnstone
Produção: EUA
Ano: 2025
Gênero: Ação, Ficção Científica
Sinopse: Dois anos após M3GAN sair do controle, sua criadora, Gemma, tornou-se defensora da regulamentação da IA. Sem que ela saiba, a tecnologia de M3GAN foi roubada e usada para criar AMELIA, uma robô espiã assassina.
Classificação: 16
Distribuidor: Universal Pictures
Streaming: Indisponível
Nota: 3,0

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