Marty Mauser, interpretado por Timothée Chalamet, é um jovem aspirante a campeão de tênis de mesa, e sua convicção em atingir o sucesso é imbatível. Inescrupuloso, tem olhos unicamente para as etapas que precisa alcançar até a consagração, o que acaba por atingir, das mais diversas formas, as pessoas mais próximas a ele. Um corpo inquieto e caótico, que na maioria das cenas está apressado para ir de um ponto ao outro e de volta outra vez, um personagem em ebulição. A representação desse estado de espírito é construída desde a concepção, quando se veem espermatozoides frenéticos rumo ao óvulo ao som de “Forever Young”, de Alphaville, na sequência do título. Os efeitos especiais põem ênfase na velocidade e na vibração das células, ressaltam a energia desse evento que origina a vida, e a equivalência pictórica do óvulo com a bolinha de pingue-pongue indica o valor que o esporte tem para a vida de Mauser — é o que justifica sua existência.
Tal razão de viver parece ser, aliás, constantemente lembrada pelo universo, já que elementos visuais que remetem à ebulição, propulsão e energia são espalhados ao longo do filme, como quando Mauser observa, através da janela do avião em que está, raios por trás de uma formação de nuvens; elementos fugazes que reiteram o momentum do tenista. Similarmente, a trilha musical de Daniel Lopatin floreia essa potência com músicas eletrônicas de ritmo acelerado, especialmente nas sequências de partidas de tênis de mesa. Além disso, sintetizadores de instrumentos de sopro e de xilofones dão uma sensação maior ainda de velocidade, inspirado em techno japonês, marca recorrente do compositor americano desde a trilha de Joias Brutas (2019), de Benny Safdie e Josh Safdie. Marty Supreme
Por sinal, aproveito a menção desse filme para delimitar algumas claras semelhanças estruturais entre esse e o atual trabalho de Josh Safdie, mas com pontos de distinção fundamentais. Em muito se assemelha Howard Ratner, protagonista de Joias Brutas, interpretado por Adam Sandler, a Marty Mauser, bem como muito se assemelham as narrativas dos filmes. Ambos os protagonistas, além de serem as forças motrizes de suas respectivas narrativas, ultrapassam as barreiras de uma construção fílmica naturalista, pois banham o filme com símbolos de suas personalidades. Há uma aproximação do corpo desses personagens com o corpo fílmico como visto, por exemplo, no exemplo da sequência que parte do encontro de espermatozoides com um óvulo até a iconografia do pingue pongue. Em Joias Brutas o mesmo ocorre: a sequência do título do filme parte de uma visão microscópica de opala, joia que simboliza o cerne da obsessão de Ratner, até transformar-se na visão interna da colonoscopia do protagonista. Ambos põem seus mais próximos a perder; ambos dobram as apostas em busca do objetivo maior; ambos têm uma megalomania declarada; ambos vivem uma odisseia de entraves, dos mais cotidianos e familiares aos mais absurdos e violentos. O ponto de divergência, é que, para as personagens com as quais ambos os protagonistas se relacionam, um é desprezível, o outro é irresistível.
Há algo de fascinante, para o olhar das mulheres com quem Mauser se envolve, nessa jovem figura com mania de grandeza. De um lado, Kay Stone, vivida por Gwyneth Paltrow, se interessa pela ousadia e pelo vigor desse rapaz, que é décadas mais novo que ela, à despeito de reconhecer a infantilidade do sujeito e de menosprezar, ao menos inicialmente, a natureza de seu esporte. Do outro lado, Rachel Mizler, interpretada por Odessa A’Zion, nutre um sentimento romântico por ele, e, para Mauser, a idade aproximada faz com que essa relação não passe, ao menos inicialmente, de um relacionamento juvenil, já que o protagonista, agora, está viajando para outras cidades e almejando uma viagem ao Japão. É a partir do desenvolvimento de Mizler que Mauser passa a encarar as responsabilidades de um futuro pai, o que ele tenta evitar o tempo inteiro. Não somente isso, mas a maneira como ele a vê muda após um incidente com um mafioso, interpretado por Abel Ferrara, no qual a jovem prova que pode ser tão ardilosa quanto ele, se a situação exigir. Ambas as mulheres são o contraponto principal que vão tentando entender e atenuar o infame Marty Mauser, especialmente Mizler, cuja gravidez terá implicação direta no transbordar de emoções do tenista de mesa na cena final, quando, finalmente, depois de tantas atribulações no mundo do tênis de mesa, ele é capaz de parar e pensar em alguém além de si.
O tênis de mesa é artifício para a história de uma vítima da própria soberba, e uma com a sorte de contar com pessoas que se importam, mais do que uma história de um esportista ambicioso. Fosse tênis de quadra, xadrez, vôlei, a estrutura seria a mesma. Mauser escapa das constrições do contexto histórico, um judeu, vindo de família humilde, com anseio de se provar, que arranja um jeito de ir ao Japão para recuperar sua honra após uma derrota importante contra Endo, oponente japonês interpretado por Koto Kawaguchi. Decerto, se há alguma amarra contra Mauser, é a amarra de todos os americanos, o capital. Toda a trajetória do tenista neste filme é em busca de dinheiro para custear suas viagens e para pagar uma multa devido ao escândalo que deu após aquela derrota contra Kawaguchi, o que o coloca em situações perigosas e/ou constrangedoras, principalmente tratando-se de Milton Rockwell, interpretado por Kevin O’Leary. Essa empreitada atrás de capital é mais uma similaridade com Joias Brutas, mas também com seu ponto de divergência, já que o Howard se enfiou em uma espiral interminável em apostas, culminando na aposta da própria vida; esse sempre foi seu destino, é como ele vive, e, naquele contexto, especialmente considerando a idade e as oportunidades perdidas de pôr um fim nisso, ninguém era capaz de pará-lo. Já em Marty Supreme, a impressão que o filme traz é a de que há esperança para esse rapaz; de que essa é uma corrida por objetivos concretos e dignos; de que ainda há razões e chances de que amadureça.
Particularmente, essa estrutura tão familiar de um filme para o outro, ainda que com seus tensionamentos particulares em Marty Supreme, não trouxe a mim uma experiência tão surpreendente. O elenco como um todo é bastante carismático, o que é de se esperar devido aos nomes principais, mas destaco os estreantes Tyler, the Creator, interpretando o melhor amigo de Mauser, e, em especial, Kevin O’Leary, cuja interpretação funciona bastante pela proximidade com a figura real. Honestamente, sua aparição em tela funcionou praticamente como um jump scare para mim, que o conheço como o, muitas vezes desagradável, Mr. Wonderful do Shark Tank. Enfim, é um ótimo elenco, talvez o meu favorito do ano de 2025, com uma trama enérgica, mas a comparação com o trabalho anterior é inevitável devido às tantas similaridades.
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Filme: Marty Supreme Elenco: Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrol, Odessa A’Zion Direção: Josh Safdie Roteiro: Ronald Bronstein, Josh Safdie País: Estados Unidos Ano: 2025 Gênero: Drama Sinopse: Marty Mauser se recusa a ser apenas mais um trabalhador precarizado na cidade de Nova York dos anos 1950. Ele não medirá esforços para alcançar seus sonhos. Classificação: 16 anos Distribuidor: Diamond Films Brasil Streaming: Indisponível Nota: 7,0 |


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