Ne Zha 2 é o nome da animação chinesa que surpreendeu o mundo inteiro e se tornou a maior bilheteria de um filme animado da história – e a quinta produção em arrecadação mundial. Nascido de pais mortais, um jovem semideus (Ne Zha) rebelde usa seus imensos poderes para lutar contra uma força ancestral que pretende destruir a humanidade. Ne Zha, apesar de carregar um destino sombrio, possui a chance de mudar o curso da história e provar que ele é muito mais do que a lenda ao seu redor. Quando um inimigo antigo ressurge das profundezas, disposto a mergulhar o mundo no caos, o jovem semideus se vê obrigado a enfrentar monstros colossais e batalhas épicas, além dos próprios demônios interiores.
O filme é baseado em uma figura mítica muito popular na China, cujas origens possuem elementos do budismo e do taoismo. Nas primeiras versões do mito, a mãe de Ne Zha, Lady Yin, ficou grávida por um período de três anos e meio. Em vez de uma criança, ela dá à luz a uma bola de carne. O pai, Li Jing, suspeitando de um presságio maligno, ataca a “criatura” e dela surge um menino já formado: Ne Zha! A criança se torna um discípulo do mestre divino Taiyi Zheren, que lhe ensina habilidades sobrenaturais. Uma das suas histórias mais populares narra o conflito com o Dragão Rei, na qual Ne Zha mata um de seus filhos, desencadeando a fúria do animal, que reivindica dívida pela morte do príncipe. O Dragão Rei exige a vida dos pais de Ne Zha que, para salvá-los, se oferece como sacrifício, mas é revivido com um novo corpo feito de lótus – adquirindo status divino e cumprindo o seu destino.
Entre as versões mais conhecidas do mito e o filme, há tantos aspectos em comum quanto distintos. Mas fato é que Ne Zha 2 extrai as potências do universo simbólico do imaginário chinês e as utiliza como estrutura, motor e direção – ou seja, tudo que dá forma, impulsiona e orienta – de uma jornada épica, marcada pelo espetáculo e pela densidade mítica. Por meio de uma narrativa que sequer perde a coesão em algum momento, o filme perpassa por temas como o destino e a rebeldia contra as autoridades, além de articular reflexões sobre dualidades que ecoam tanto no pensamento oriental quanto ocidental, como bem versus mal, humano versus divino e determinismo versus livre-arbítrio. Entretanto, rejeita uma filosofia estritamente dual que isso poderia sugerir, tensionando os limites entre esses conceitos, transcendendo-os o tempo todo, em busca de uma unidade – desafiando o modo ocidental de percepção desses fenômenos.
Logo de início, o protagonista é um demônio. Isso já é o suficiente para flexibilizar as noções convencionais de bem e mal. A “escolha” de colocar um ser tradicionalmente associado ao mal no centro da narrativa obriga o espectador ocidental a abandonar uma visão baseada em categorias morais fixas. Nesse sentido, o fenômeno da identificação cede lugar à uma compreensão mais simbólica e menos dogmática – assim funcionam os mitos, inclusive no ocidente. Essa abordagem pode soar como uma barreira tanto cultural, por confrontar valores ocidentais contemporâneos, quanto semiótica, ao desestabilizar símbolos arraigados no imaginário popular desse público. Além disso, em vez de uma narrativa em forma de pêndulo de forças opostas – um protagonismo contra antagonismo -, o filme reposiciona constantemente o olhar espectador, que ora se alinha a uma perspectiva, ora a outra. Há muito mais uma oscilação subjetiva, fluida, do que uma oposição fixa, sugerindo que deuses e demônios não são entidades externas, mas sim forças que atravessam o sujeito, deslocando as batalhas para um terreno mais íntimo. Entretanto, Ne Zha 2, quando se trata de sentido e alcance, deve ser encarado por um prisma profundamente universal: o da busca pela renovação e a reconexão com as tradições, mais uma vez, por meio da superação do dualismo, com unidade e equilíbrio.
Nesse sentido, Ne Zha 2 é um filme renova ao dialogar com os sentimentos mais íntimos e as aspirações de um público infanto juvenil, na medida em que a revolta do protagonista contra as autoridades – incluindo a familiar -, a busca por identidade e a ruptura com algumas tradições refletem os dilemas existenciais próprios da juventude e revelam um conflito geracional marcado pelo desejo de autonomia. A animação chinesa consegue transmitir toda essa carga simbólica de uma maneira acessível para um público mais novo, ao mesmo tempo que valoriza as tradições e os costumes de uma cultura local – e aqui está a magia do equilíbrio, pois reconecta o público a um legado mítico, mostrando que seus símbolos ainda são capazes de expressar as inquietações de cada geração. Ne Zha 2 consegue “passar a sua mensagem” por meio de uma dinâmica visual e narrativa rica que, segundo Arthur Tuoto em sua crítica, combina uma noção real de escala, ritmo e dramaticidade. Dessa forma, possui um senso único de aventura, ação e espetáculo.
Nesse mix de elementos intensamente sensoriais, unidos de forma coesa, Ne Zha 2 consegue prender a atenção tanto do público infantil quanto dos espectadores mais velhos. Também, ao promover o entretenimento, responde aos anseios de novos espectadores, sedentos pelo espetáculo, sem alienar profundidade simbólica e sofisticação estética, reconectando com tradições de forma criativa – em certa maneira, é o contraposto que funciona do mal-sucedido Moana 2. A unidade e equilíbrio em Ne Zha 2 não se dá somente entre elementos expressivos (como escala, ritmo e dramaticidade), mas também, ainda segundo Arthur Tuoto, entre conceitos mais amplos: a técnica e a estética. E acrescento a ideia de que essa harmonia é indissociável da relação também harmônica entre orçamento e criatividade.
Enquanto muitas produções contemporâneas de Hollywood soam extremamente econômicas, mesmo diante de orçamentos robustos, em Ne Zha 2 todas as cenas parecem ter sido executadas tal qual foram concebidas, sem restrições à sua qualidade – do nível de detalhe na textura e nos ambientes, mesmo em planos mais longos, até a complexidade coreográfica. Com cerca da metade do orçamento – e duração muito superior – às novas animações Disney, o filme chinês impede que elementos externos e a atual dificuldade de conexão com novos e diferentes públicos comprometam sua proposta – pelo contrário, lhe dá forças para atravessar barreiras afetivas, culturais e de consumo.
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Filme: Ne Zha 2 Elenco: Yanyinh Lu, Joseph Cao, Han Mo, Damien Haas, Lü Qi Direção: Jiaozi Roteiro: Jiaozi Produção: China Ano: 2025 Gênero: Ação, Fantasia Sinopse: Após uma grande catástrofe, as almas de Ne Zha e Ao Bing são salvas, mas seus corpos enfrentam a ruína. Para lhes dar uma nova vida, Taiyi Zhenren recorre à mística lótus de sete cores em uma ousada tentativa de reconstruí-los e mudar seus destinos. Classificação: 12 anos Distribuidor: A2 Filmes Streaming: Indisponível Nota: 10 |

