CRÍTICA – NIKI DE SAINT-PHALLE

CRÍTICA – NIKI DE SAINT-PHALLE

Na estreia de Céline Sallette, dirigindo seu primeiro longa, é notória sua maturidade com a câmera e seu olhar sensível em retratar a vida de Niki de Saint-Phalle, uma célebre e criativa pintora francesa cuja história foi carregada de melodramas e conflitos internos que foram transpostos para sua arte — ora como um mecanismo de fuga, ora como um mecanismo de canalizar todos os seus traumas através de sua manifestação criativa. Talvez o fato de ser uma diretora mulher “no controle” tenha sido o toque especial que o projeto precisava para trazer essa condução tão terna e delicada acerca da trajetória de Saint-Phalle.

O roteiro de Sallette e Samuel Doux escolhe perscrutar não somente o lado criativo de Niki, mas principalmente seu lado mais intimista, mais humano: ela sendo mãe, esposa, amiga. Em cada faceta, enxergamos uma mulher com diversas camadas; sempre cheia de amor a dar às pessoas que a cercam, mesmo que ela individualmente se sinta perdida ou, até mesmo, incompleta por carregar consigo certos demônios de seu passado. Tamanha complexidade é evidenciada pela performance formidável da atriz Charlotte Le Bon, que entrega uma atuação muito verdadeira e visceral.

Há uma questão um tanto obscura e traumática de Niki envolvendo seu pai — caso esse que, inclusive, foi encoberto por um dos médicos que a atendeu quando foi internada numa clínica psiquiátrica, por conta de certas crises de agressividade que ela adquiriu por ter que conviver com essa ferida nunca cicatrizada. Se o espectador já conseguia compreender as complexidades em torno da personalidade da artista, desse ponto em diante, o filme consegue despertar não somente um olhar empático, mas de admiração genuína: como é possível transformar tamanha dor em arte? É como se o esse longa tivesse “batido no liquidificador” um pouquinho de cada um desses filmes: Um Estranho no Ninho (1975, em “versão feminina”), Big Eyes (2014), Com Amor, Van Gogh (2017) — respectivamente.

Também há uma dicotomia crescente sobre como Niki lida com os seus tormentos — seja com a mancha que seu pai deixara ainda em sua infância, seja com os seus bloqueios criativos, ou com suas frustrações amorosas. Isso porque, apesar de suas evidentes fragilidades emocionais — muito também por ter seus traumas negligenciados por algumas pessoas ao seu redor — , o longa consegue explanar o quão ela buscou ser forte a ponto de transformar suas dores em uma arte com significado elevado, ao nível de gerar identificação genuína em seu público-alvo. A fotografia vívida e as belas ambientações inclusive contribuem muito para fazer uma certa alusão às suas obras e trazer essa essência pictórica.

Uma cena que evidencia bem a relação de Niki com a arte é o momento em que, na clínica, ela “surta” por não conseguir pintar, por ter sido privada de recorrer ao que mais dava refúgio à sua mente — ironicamente, aproveitando para elucidar ainda mais que o lugar, que supostamente seria para curá-la, estava fazendo-a enlouquecer, no sentido metafórico e literal. Nesse sentido, a direção de Sallette consegue transmitir a intensidade emocional de Niki, explorando como ela não só escolheu canalizar seu talento em uma autoterapia, mas também como necessitava disso.

Uma escolha não tão certeira foi a de contar a história de Niki numa narrativa não linear. Há saltos temporais que até mesmo confundem o espectador por não conseguir situar bem em que momento tal acontecimento ocorreu. Certas elipses também acabam enfraquecendo o potencial do drama — quando estamos visivelmente envolvidos em um “capítulo” da vida de Niki, há um salto abrupto pra outro recorte de sua trajetória, o que quebra consideravelmente a imersão.

O filme também derrapa por trazer — até demais —– os conflitos de Niki com seus parceiros de vida, o que por vezes acaba deixando a questão de sua carreira artística em segundo plano. Não que essas cenas sejam suficientes para reduzir a artista aos seus relacionamentos, mas, talvez pelo fato da duração do filme ser um tanto curta, é como se o núcleo principal de sua vida fosse condicionada aos homens com os quais ela se envolveu, ofuscando o peso de suas célebres obras. Ou seja, o espectador que for assistir ao filme sem conhecer absolutamente nada sobre a carreira da artista, pode acabar saindo da sessão ainda não conhecendo muito a fundo.

Em suma, Niki de Saint-Phalle é um filme que poderia, sim, arriscar mais em sua linguagem cinematográfica para refletir melhor a ousadia e originalidade da protagonista. Porém, ainda acerta bastante ao resgatar, de maneira lúcida e humanizada, a memória de uma artista autêntica (e, por que não, revolucionária?). Ao optar por trazer um retrato real e até poético, a essência do roteiro destaca a personalidade marcante e a força feminina da pintora diante de um meio artístico predominantemente masculino, e como a arte não era somente seu trabalho, mas seu refúgio, seu caminho de paz.


Pôster do filme Niki de Saint-Phalle Filme: Niki de Saint-Phalle
Elenco: Charlotte Le Bon, John Robinson, Damien Bonnard, Judith Chemla, Alain Fromager, Virgile Bramly, Grégoire Monsaingeon, Nora Arnezeder
Direção: Céline Sallette
Roteiro: Céline Sallette, Samuel Doux
Produção: França
Ano: 2024
Gênero: Biografia, Drama
Sinopse: Cinebiografia da pintora francesa Niki de Saint-Phalle, acompanhando sua trajetória desde os EUA dos anos 1950, seus traumas e como a arte se torna seu refúgio.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Imovision, Wild Bunch
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

 

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