Passados mais de duzentos anos da Proclamação da Independência às margens do Riacho do Ipiranga, talvez seja difícil sustentar, nos dias atuais, a ideia de que o sol da liberdade mantém-se a brilhar no céu da pátria brasileira. Contrariando o registro de Joaquim Osório Duque Estrada, na letra do Hino Nacional, sombrias nuvens de ódio e autoritarismo dominaram o horizonte da nação nos últimos dez anos, ameaçando, inclusive, a manutenção da ordem democrática.
No cinema, várias foram as obras que lançaram luz sobre esse período conturbado da história do país, a exemplo de O Processo (Maria Augusta Ramos, 2018), Excelentíssimos (Douglas Duarte, 2018), Democracia em Vertigem (Petra Costa, 2019), A Nossa Bandeira Jamais Será Vermelha (Pablo López Guelli, 2019), Mato Seco em Chamas (Adirley Queirós e Joana Pimenta, 2022), Apocalipse nos Trópicos (Petra Costa, 2024), entre outros. O documentário No Céu da Pátria Nesse Instante, da cineasta carioca Sandra Kogut, é o mais recente filme a se debruçar sobre a nossa deprimente realidade contemporânea. O longa explora a corrida eleitoral à Presidência da República que dividiu o Brasil em 2022 e teve desdobramentos no fatídico 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores do candidato derrotado, o ex-presidente Jair Bolsonaro, invadiram e depredaram as sedes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, em Brasília, numa clara tentativa de golpe de Estado.
Não dá para se desprezar a premissa que sustenta a produção do filme, fenomenológica em sua essência e bastante promissora. A ideia de acompanhar o modo como distintos atores sociais percebiam e vivenciavam aquela disputa mostrava-se como uma oportunidade única de mergulho no universo da polarização política em que o Brasil se vê mergulhado. A câmera de Kogut mira, assim, o dia a dia de militantes voluntários, políticos, eleitores comuns e mesários eleitorais em meio à acirrada campanha eleitoral para presidente. No entanto, se tais indivíduos tinham o potencial de fornecer uma mirada mais complexa sobre o atual cenário político brasileiro, o que vemos, no fim das contas, é uma obra decepcionante, que não consegue tecer qualquer comentário verdadeiramente profundo sobre o Brasil atual, subaproveitando suas personagens ao estabelecer uma montagem que reforça clichês acerca das visões de mundo e comportamentos dessas pessoas ao invés de propor um olhar novo em relação a seus posicionamentos ideológico-políticos.
Ainda que não devesse se submeter ao falacioso discurso que enfatiza a busca de uma neutralidade frente aos acontecimentos do mundo captados pela lente, a diretora em alguma medida compromete o equilíbrio da abordagem de seu filme ao transparecer seu alinhamento progressista na maneira como se relaciona com seus informantes. É bem evidente a maior intimidade, até mesmo do dispositivo da câmera, quando ela está na presença de Marcelo Freixo (PSB) e esposa, além de apoiadores do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. O distanciamento físico e dialógico em relação aos eleitores pró-Bolsonaro acaba sendo um fator de incômodo de todo o filme, sobretudo porque se mostra um obstáculo quase intransponível ao entendimento das motivações que levam uma parcela expressiva da população a apoiar um candidato cujos discurso e práxis cotidianos notadamente são extremistas.
Porém, o principal pecado de No Céu da Pátria Nesse Instante reside na sua pretensa intenção de expor um retrato diversificado sobre a eleição presidencial de 2022. É inacreditável haver uma preocupação de se garantir uma pluralidade de perspectivas, considerando-se cidadãs e cidadãos oriundos de diferentes regiões brasileiras (Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Pará e Distrito Federal), ao mesmo tempo em que se negligencia narrativamente o Nordeste. De certo modo, isso implica até numa deslegitimação do filme enquanto construtor objetivo de sentidos. É inconcebível fazer qualquer análise do pleito eleitoral de 2022 sem que haja um interesse mínimo pelos seus desdobramentos na região que, percentualmente, mais rendeu votos a Lula, sendo decisiva para a sua vitória.
Haveria tantas outros aspectos a serem comentados aqui — especialmente a dimensão ética da construção narrativa por intermédio da montagem, algo que perpassa as histórias da mesária revelada a posteriori militante petista, ou a do casal que afronta verbalmente integrantes das milícias cariocas. No entanto, para evitar chover no molhado quanto ao caráter superficial do documentário de Sandra Kogut, o melhor mesmo é não se alongar no texto por ora. Gostaria muito que estivéssemos diante de uma obra cuja grandeza fosse proporcional à pompa de seu título, mas, infelizmente, ela carece de uma abordagem dialética sobre o atual contexto social e político nacional. O que resta para o público, ao fim, é apenas o pálido registro cinematográfico do céu de nossa moribunda pátria nesse instante.
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Filme: No Céu da Pátria Nesse Instante Elenco: Adenilson Ferreira, Antonia Pellegrino, Edivan Santos, Estela Maria de Oliveira, Juliano Maderada, Milena Batista, Neli Belem, Osvaldo Pires, Rute Sardinha Direção: Sandra Kogut Roteiro: Sandra Kogut Produção: Brasil Ano: 2023 Gênero: Documentário Sinopse: Rodado ao longo do ano de 2022, o filme acompanha de perto os meses turbulentos do período eleitoral que culminaram na invasão do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do STF, no dia 8 de janeiro de 2023. Classificação: 12 anos Distribuidor: O2 Play e Lira Filmes Streaming: Não Nota: 3,0 |

