Sabe aquelas histórias que vemos e falamos: “isso é tão absurdo que parece coisa de filme”? É exatamente esse o caso de O Bom Bandido. É que no filme, acompanhamos a história real de Jeffrey Manchester, um ex-militar que está fugindo da polícia por ter roubado mais de 40 restaurantes do McDonald’s. O que torna essa situação cômica é o fato de ele ter deixado uma forte “marca registrada” em meio a esses crimes: a fama de ser um assaltante gentil com as suas vítimas. Ou seja, ele é um bandido de coração mole.
O fato do filme escolher se introduzir no núcleo de Jeffrey com a sua família é um mega acerto. Acaba sendo inevitável, já nos primeiros minutos, sentirmos um compadecimento e até simpatia pelo cara: ele ama seus filhos e, embora use sua inteligência e habilidades para realizar “tarefas duvidosas” a fim de tentar lhes proporcionar uma vida com mais conforto e mimos, é evidente o quê de inocência em seu coração. Daí, já fica implícito que há um verdadeiro vilão “oculto” — o sistema.
Cianfrance tira de letra no quesito escrever personagens complexos, intensos. Ao contrário de seus excelentes filmes anteriores, como Namorados para Sempre e O Lugar Onde Tudo Termina, em O Bom Bandido, ele adiciona boas doses de um humor que o personagem e a história definitivamente pedem, pelo absurdo constante dos fatos que temos o prazer de acompanhar. É curioso ver como o capitalismo pode “virar a chavinha” de uma pessoa boa em sua essência, em detrimento de coisas materiais.
Também é um barato vermos como ele conseguiu se virar ficando meses escondido numa loja de brinquedos (o sonho de infância de qualquer criança, diga-se de passagem!). É até irônico pois aquele ambiente contrasta com sua personalidade pueril. O filme cutuca bem essa questão dos limites da solidão/solitude, o que acaba gerando reflexões de como a socialização é tão importante para nós enquanto seres humanos. Afinal, “não aparecer acaba implicando em ser esquecido”, como bem menciona o próprio personagem em certo momento, numa narração em off.
O filme explora bem os sabores e dissabores no fato dele estar sozinho, fazendo uma loja de lar. Óbvio que há alguns momentos que soam embelezados ou romantizados para dar aquele toque que o cinema pede para ser atrativo, mas são tão divertidos que se tornam “perdoáveis”. Aliás, há quase que um toque metalinguístico involuntário aqui: nós, observando Jeffrey, tal como espectadores de reality show, enquanto este observa os funcionários daquela loja para passar o tempo — o que rende ótimos momentos, aliás.
Channing Tatum serviu como uma luva para este papel. Em Pisque Duas Vezes, filme de terror no qual interpreta um vilão bilionário digno de repulsa, ele pesa um pouco a mão, não convencendo ao vestir aquela persona. Aqui, seu nível de entrega cênica proporciona uma verossimilhança absurda, e um carisma indiscutível. Há uma fisicalidade incrível no ator (a cena em que ele faz praticamente um parkour nu pela loja é maravilhosa), além dele passear bem entre o humor e drama. Juro que nem seria exagero mencionar que seria justa uma vaguinha num Oscar da vida.
É realmente admirável o ritmo fluido que a montagem proporciona. É de uma cadência tão bem articulada que nos vemos envolvidos em cada segundinho do que está sendo apresentado em tela. É como se virássemos, para além de espectadores, amigos fantasmas de Jeffrey. Outro fator que também enriquece muito essa questão de sabermos melhor o que se passa na sua mente, por exemplo, é a narração em off, que também é um recurso muito feliz aqui, tornando aquela jornada ainda mais cativante e intimista.
Nem mesmo quando o longa põe o pé no freio e desacelera um pouco — bem como as doideiras contínuas da vida dele, que acabam dando uma boa estagnada em determinado ponto — há algum declínio. Isso graças à exímia montagem da dupla Jim Helton e Ron Patane, que também trabalharam nos outros dois filmes de Cianfrance mencionados anteriormente e não permitem que o ritmo fique instável. Ou seja, há ação, há drama, há comédia, há romance, há até thriller, porém nenhum anula o outro. Ao contrário: se complementam.
Aliás, quando o filme começa a ir para um teor mais romântico em que o bandido do telhado conhece Leigh Wainscott (a funcionária da loja onde ele estava escondido) e suas duas filhas, a trama consegue fisgar ainda mais nossa atenção; seja por “shippar” o casal ou, sobretudo, pela crescente tensão que se instaura por conta daquele cenário semelhante a uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento. É fofo ver aquele vínculo genuíno sendo construído, mesmo sendo por tijolinhos de mentiras que estão fadados a desmoronar.
Nesse momento, a questão midiática é jogada um pouco de lado, dando até a impressão de que o homem foi esquecido pelas autoridades, mas isso não é lá um grande demérito. Já que no início do longa há uma baita ênfase no quanto Jeffrey estava sendo pintado como grande ameaça à segurança de uma nação inteira (hipérbole ou não), aqui nos dá falsa sensação de que aquela dinâmica de gato e rato não existe mais. Porém, ledo engano: qualquer passo errado, a polícia já estava na espreita para agir. A calmaria tem suas horas contadas.
Por fim, O Bom Bandido é um daqueles filmes “feel-good“, por mais que, em seu âmago, haja a tristeza como alma. Não se trata de “glorificar bandido”, mas de explorar mais uma camada humana de um ser errante. Afinal, nem todas as nossas decisões equivocadas devem ser o fator determinante para nos colocar em caixas de “bom” e “mau”. Por vezes, há um macro que é ignorado por conta de um micro que é ampliado. É certo que de “micro’ a trajetória de Jeffrey não teve em nada, afinal… que história!
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Filme: Roofman (O Bom Bandido) Elenco: Channing Tatum, Kirsten Dunst, Ben Mendelsohn, Peter Dinklage, LaKeith Stanfield, Juno Temple, Melonie Diaz, Uzo Aduba, Lily Collias, Jimmy O. Yang Direção: Derek Cianfrance Roteiro: Derek Cianfrance e Kirt Gunn Produção: Estados Unidos Ano: 2025 Gênero: Comédia, Drama Sinopse: Jeffrey Manchester é um ex-militar que rouba restaurantes McDonald’s através do telhado. Ele ganha o apelido “Roofman” e, após escapar da prisão, passa meses escondido dentro de uma loja Toys “R” Us, enquanto inicia um relacionamento com Leigh e tenta manter sua identidade oculta. Baseado em acontecimentos reais. Classificação: 14 anos Distribuidor: Diamond Films Streaming: Indisponível Nota: 8,0 |

