CRÍTICA – O DESERTO DE AKIN

CRÍTICA – O DESERTO DE AKIN

O Deserto de Akin (2025), novo filme do diretor Bernard Lessa (A Matéria Noturna, 2021), mostra uma preocupação em ambientar o espectador sobre aquele determinado momento do país — a eleição de 2018 —, através do olhar de um angolano, médico em Cuba, que veio para o Brasil, através do Programa Mais Médicos, e agora se vê em dúvida sobre seu futuro diante da iminente eleição de Bolsonaro.

Este é um daqueles filmes cujo drama tangível deveria se afirmar através dos discursos e debates presentes no longa, mas, aqui, se esvai pela total apatia nas cenas e diálogos que se sucedem e teimam em não chegar a lugar algum. Embora tramas paralelas surjam, como por exemplo, o triângulo amoroso formado por Akin (Reynier Morales), Érica (Ana Flávia Cavalcanti) e o amigo gay Sérgio (Gustavo Patriota), tal inserção, que teria como propósito humanizar aqueles personagens, tirando-os de suas rotinas profissionais e dores particulares (uma mãe doente no caso de Érica e a ausência dos pais em relação a Akin), acaba, através da câmera do diretor, sendo o principal interesse do filme durante um longo tempo para depois voltar à discussão central: o que será da vida de Akin com Bolsonaro presidente.

O triângulo amoroso, é bem verdade, funciona, principalmente, por conta do entendimento e química dos atores que nos corpos de seus personagens entendem muito bem a alta intensidade das suas relações. O olhar, o toque e o beijo é sempre com muito tesão explodindo em cena e o melhor disso tudo é a liberdade com que esses personagens transitam na vida de cada um, sem pressões, cobranças ou preconceitos. A cena final com os três deitados na mesma cama, dormindo, mostra esse amor que os envolve e que extrapola a tela fazendo com que o espectador não só enxergue como se sinta bem em presenciar.

O problema de O Deserto de Akin (2025) está em como o diretor escolhe desenvolver o drama do personagem título, Akin. Ele é um estrangeiro vivendo em um município no interior do Brasil, mais precisamente no interior do Espirito Santo — estado no qual o diretor reside e faz seus filmes — e atua como médico do programa Mais Médicos prestando assistência a pessoas que sequer tinha acesso a este tipo de serviço antes do programa. Lessa pontua diversos problemas enfrentados por esses médicos: a dificuldade do idioma, a escassez de todo e qualquer tipo de medicamentos e os enfretamentos diários para alcançar comunidades mais afastadas. Entretanto, tudo é feito de forma apressada como se apenas esse leve aceno fosse o bastante para o entendimento da gravidade da situação vivida por estas pessoas antes da chegada desses médicos estrangeiros.

É bem verdade que o tato de Akin para com seus pacientes é reconfortante ao passo que a realidade brasileira mostra que médicos, de uma forma geral, pensam em seus pacientes como um número apenas — seja pela quantidade ou pelas cifras. Akin é um homem que tem, de fato, uma afinidade muito grande pelo cuidar. O vemos cuidando de suas plantas medicinais — uma solução encontrada para a ausência de medicamentos básicos daquele município —, sendo respeitoso com os animais presentes na natureza, por mais medo que eles possam provocar nas pessoas que ali convivem, e tratando cada indivíduo com extrema delicadeza e preocupação. O caso mais claro é o da garotinha indígena que tem um problema em um dos olhos, e que chama a atenção de Akin para algo que já poderia ter sido resolvido antes e de forma mais simples, mas que agora apenas um transplante de retina vai resolver. Algo que é, inclusive, extremamente simplificado pelo diretor e roteirista Bernard Lessa, em total contraste com o realismo das dificuldades enfrentadas apresentado em todo o filme.

Um outro grande problema deste longa é o desenho caricato de duas cenas em particular em que vemos personagens bolsonaristas confrontando Akin e seus amigos. Parecem mais como uma obrigatoriedade em tê-las ali do que representarem algum propósito para o decorrer daquela história. São cenas que surgem do nada, mas que, ao contrário de despertarem no espectador alguma surpresa e/ou tensão, têm seus inícios e fins tão próximos que não há tempo para que algum sentimento desperte.

Embora o diretor finalize sua obra com diversos arquivos em vídeos e fotos de médicos cubanos do programa Mais Médicos, O Deserto de Akin (2025) não consegue atingir o objetivo de levar os diversos temas apresentados em tela à uma discussão mais elaborada. Tudo ficou em um plano extremamente rasteiro e, por vezes, essa superficialidade atrapalha mais do que contribui. Os dramas das comunidades desassistidas por agentes de saúde, a falta de diplomacia entre um novo governo e um programa que envolve profissionais de outros países — que vieram para desempenhar um papel fundamental e corrigir uma falha de todos os governos anteriores — tiveram seu principal entrave, aqui, na tentativa de humanizar todos aqueles personagens e assim o tempo se tornou escasso para qualquer frente que o diretor tentasse, minimamente, desenvolver.


Pôster do filme O Deserto de Akin Filme: O Deserto de Akin
Elenco: Reynier Morales, Ana Flavia Cavalcanti, Guga Patriota, Welket Bungué, Patricia Galleto
Direção: Bernard Lessa
Roteiro: Bernard Lessa
Produção: Brasil
Ano: 2024
Gênero: Drama
Sinopse: Akin é um dos médicos cubanos trabalhando no Brasil em 2018. Com as eleições, a cooperação entre o Brasil e Cuba chega ao fim. Os médicos são convocados a retornar ao seu país de origem. Akin está em uma encruzilhada. Voltar para Cuba ou se estabelecer no Brasil? 
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Retrato Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 5,5

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