CRÍTICA – O ESQUEMA FENÍCIO

CRÍTICA – O ESQUEMA FENÍCIO

Dentre as várias características em comum na filmografia de Wes Anderson, sejam elas temáticas ou estilísticas, não me recordo de espiritualidade ser uma delas em algum de seus filmes. O Esquema Fenício (2025) traz esse tema para ligar uma trama política que mistura assuntos muito variados. No cerne, o filme é sobre Korda (Benicio Del Toro), um magnata que tenta proteger seu grande projeto de infraestrutura na Fenícia após ataques de sabotagem na precificação de materiais essenciais resultarem em um rombo nos planos financeiros do projeto. A distinção está na figura de Liesel (Mia Threapleton), sua filha freira, que o acompanha nessa jornada enquanto tenta converter o próprio pai.

O filme é organizado de maneira episódica, dividido pelos encontros que Korda tem com os investidores, com o objetivo de convencê-los a aumentarem o investimento para cobrir o rombo, chamado por ele de “A Lacuna”. Cada encontro tem as particularidades cômicas típicas de Anderson, tanto no assunto da cena, como uma disputa de basquete inusitada e confronto com guerrilheiros estereotipados, quanto nos detalhes, como Korda presentear a todos com uma granada de mão e receber a mesma resposta todas as vezes. Uma abordagem bem familiar aos que conhecem o trabalho do diretor.

O que une esse mosaico, porém, além do objetivo principal do protagonista, é a tentativa de Liesel em fazer o pai ser uma pessoa melhor por meio da fé, o que desencadeia uma série de visões ou sonhos em Korda. A representação do céu católico, por sinal, é feita de maneira bem teatral, quase infantil, o que é justificado pelo afastamento total de Korda da religião. Ele tem uma visão pré-estabelecida do que é Deus e a fé católica moldada da maneira mais caricata possível. Ainda assim, é por meio dela que Korda encontra a possibilidade de repensar sua própria vida, seus episódios de quase morte e seu futuro.

O filme se desenrola num ímpeto quase aleatório, mas os episódios têm um caráter reiterativo com relação ao teor político que o filme apresenta com a clandestinidade que permeia todas as instâncias sociais. Cada investidor é orador de algum tipo de discurso quanto a sociedade, o progresso e a família, mas, em última instância, também são alvos e perpetuadores de violência por conta dos esquemas que financiam – esquemas esses que só existem por uma visão deturpada de sociedade movida por ações empresariais questionáveis. É aí que a freira se destaca, como a única mensageira de uma instituição religiosa em todo esse contexto, mas não de maneira blasé, meramente doutrinária, pois ela tem uma progressão dramática interessante, que a opõe, até mesmo, à Igreja enquanto instituição acima dela, mas sem perder a fé e o interesse em viver.

Essa aparente bagunça visual, temática, sonora, pode até parecer mero capricho do diretor, mas, no fim das contas, O Esquema Fenício expõe que, na política que é feita fora das vias legais, tudo isso está relacionado: dinheiro, morte e família — e me diga, leitor, se esse não é o próprio retrato do mundo em que vivemos.


Filme: The Phoenician Scheme (O Esquema Fenício)
Elenco: Benicio Del Toro, Mia Threapleton, Michael Cera, Riz Ahmed, Tom Hanks, Bryan Cranston
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson
Produção: Estados Unidos, Alemanha
Ano: 2025
Gênero: Drama, Crime, Comédia
Sinopse: O excêntrico magnata Zsa-zsa Korda já sobreviveu a seis acidentes de avião e é pai de nove filhos homens e uma única menina, a freira Liesl. Ele determina que ela seja a única herdeira de seu patrimônio, mas, antes, pede a ajuda da filha para garantir que seu projeto de vida saia do papel, o “Korda Land and Sea Phoenician Infrasctructure Scheme”. Agora, eles precisarão viajar pelo mundo, acompanhados pelo ingênuo tutor Bjorn, para negociar com empresários, empreiteiros e criminosos perigosos.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Universal Pictures
Streaming: Indisponível
Nota: 6,0

 

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