CRÍTICA – O RITUAL

CRÍTICA – O RITUAL

Muitas pessoas já consideram O Exorcista (Friedkin, 1973) como um dos filmes mais assustadores sobre possessão demoníaca existente, principalmente por ser um dos primeiros grandes sucessos a retratar essa temática. Porém, se esse filme chega a ser aterrorizante por si só, o que esperar daquele que conta justamente sobre o exorcismo que inspirou essa obra? O Ritual, de David Midell, é essa obra. Baseado em relatos reais, o longa narra a história do exorcismo mais documentado da história estadunidense. Pela perspectiva do padre Steiger (Dan Stevens), responsável pela paróquia na qual o ritual é realizado, o público acompanha uma reflexão sobre como a possessão pode afetar não só o indivíduo possuído, luto e, acima de tudo, sobre a força da fé. E com apenas uma garantia: o real pode ser pior do que o retratado no filme fictício.

Com características que aproximam o espectador dos acontecimentos, a movimentação da câmera durante todo o filme funciona como um recurso que corrobora para a construção do desespero no que diz respeito à forma como os personagens lidam com a personagem possuída. A descrença da maioria, que desaparece ao passo que o pavor pelo desconhecido aumenta, é muito bem expressa no uso de uma câmera rápida, muitas vezes provocando uma tensão em cenas aparentemente calmas, construindo uma atmosfera irregular, sem permitir que se tenha algum momento de completa tranquilidade. A iminente ameaça demoníaca presente deixa todos com os nervos à flor da pele, com o terror dos personagens se tornando palpável durante o longa.

Além disso, as tensões prévias dos personagens trazem mais camadas a essa situação já incomum para eles. O luto do padre Steiger pela perda recente do irmão, assim como a falta de informações acerca do conhecimento do padre Riesinger (Al Pacino), juntam-se aos assustadores rituais performados pelos padres e as irmãs nessa circunstância enervante que se encontram. Eles não precisam lutar apenas contra o sobrenatural, mas também contra o ceticismo e a desconfiança que perpassa entre eles. Dessa forma, a situação já frágil e inesperada acaba possuindo muito mais obstáculos do que os previstos. 

E nesse ceticismo vindo justamente do padre que deveria documentar os rituais é que se constrói a falta de certeza sobre o que acontece. Uma figura religiosa de tanto prestígio em seu local de atuação duvidando de algo que deveria ser unanimidade entre a comunidade que afirma o caso de possessão deixa toda sua paróquia em dúvida do que realmente acomete a personagem possuída. Para o público, uma pessoa que deveria ser a representação de fé tendo incertezas sobre a mesma se mostra a razão do agravamento do cenário. Afinal, como um exorcismo poderá funcionar se nem mesmo o padre acredita no que está acontecendo? Até que ponto a fé do próprio Steiger é questionável para ele não acreditar fervorosamente no que vivencia?

É justamente com essas reflexões, debates e incertezas que o filme se torna tão angustiante, mas em um bom sentido. A presença constante desse mal assola não só fisicamente, mas mentalmente todos os envolvidos no exorcismo, do mais fiel até o mais cético deles. Indo além dos próprios rituais, transforma todo e qualquer momento em uma antecipação ao que pode afligi-los. Também trabalha com a ideia de religião não apenas como a fé cega, mas como uma crença enraizada em cada um deles de maneiras distintas, mas que não deixam de serem válidas. Além disso, apresenta elementos do horror de possessão que trazem mais ação à tela, o que impede que o filme pareça lento em qualquer momento.

O Ritual, portanto, funciona muito bem como um filme de terror, mas consegue lidar com tópicos que não necessariamente precisam do horror para serem construídos, como o luto e a construção da fé. Com poucos momentos sem tensão, torna-se aquele tipo de filme que deixa qualquer um na beira da cadeira, sabendo que a qualquer momento poderá levar um susto — e, ao mesmo tempo, se assustando quando ocorre —, mas que felizmente se encerra de maneira agradável aos seus personagens. Porém, mesmo com tantos acontecimentos, e que por um momento até se esqueça, ao final é lembrado: a história toda é baseada em uma narrativa documentada, e o que se termina refletindo é a nossa própria fé.


Pôster do filme O Ritual Filme: O Ritual
Elenco: Dan Stevens, Abigail Cowen, Al Pacino, Patricia Heaton, Ashley Greene, Patrick Fabian, María Camila Giraldo
Direção: David Midell
Roteiro: David Midell
Produção: EUA
Ano: 2025
Gênero: Drama, Terror
Sinopse: Baseado no caso real por trás do filme O Exorcista, dois padres em conflito com sua fé devem superar suas diferenças e convicções para executar um exorcismo arriscado.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Paris Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

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