CRÍTICA – O TELEFONE PRETO 2

CRÍTICA – O TELEFONE PRETO 2

Quatro anos após o lançamento de O Telefone Preto, veio a sequência que já era de se cogitar que nasceria, pois o filme de 2021 havia deixado certas lacunas não preenchidas. Nesta sequência, novamente com a direção e roteiro assinados por Scott Derrickson, há outros ares: novos personagens e motivações, ambientação gélida e algumas apostas narrativas que ainda carregam características do primeiro, porém agregando um novo frescor. Novamente, há erros, e também acertos.

O Telefone Preto 2 não se afasta muito de seu filme antecessor. Isso pode agradar aos que gostaram do primeiro, e continuar desagradando aos que desgostaram, já que, mesmo com a inserção de dinâmicas inéditas, o segmento de ideias mantém a “alma” inerente àquele universo. Alguns dos acertos seriam as novas escolhas criativas — como a de atribuir maior protagonismo à irmã, Gwen, o que funciona —; apresentar novos personagens de apoio que movimentam bastante a trama; uma ambientação álgida e isolada na neve; The Grabber, o vilão, ressurgindo ainda mais assustador.

A motivação da reaparição do The Grabber até que não é fajuta, “difícil de comprar”, tal como em outras inúmeras sequências de filmes slashers que conhecemos. Apesar do enredo acabar caindo num certo excesso de explicações sem muita sutileza, em certo nível, sustenta a insistência do vilão em cismar com aqueles dois jovens — dessa vez, ressurgindo como uma entidade infernal, tornando-se, assim, ainda mais ameaçador. Embora algumas perguntas sobre a figura dele continuem sem respostas, sua aura está visivelmente mais imponente.

Um dos tópicos promissores em O Telefone Preto (2021) é a questão da mediunidade da irmã, que deu “um gostinho de quero mais” por não ter sido melhor explorada. Nessa sequência, acaba sendo o contrário: Derrickson até pesa a mão nesse fator, fazendo a trama girar em torno disso, não deixando outros arcos interessantes brilharem tanto quanto. Após os impulsos que movem The Grabber serem ditos com todas as letras pelo próprio, o longa acaba caindo num desgaste de dinâmicas que se repetem, fazendo com que o rumo até o embate final não possua o vigor que deveria.

A progressão estilística é notória. Derrickson aposta num teor ainda mais sobrenatural que o primeiro, e também opta por trazer uma violência gráfica mais explícita e constante — o que acaba consolidando a ênfase no terror gerando até mais incômodo já que se trata de violência contra crianças. Isso faz com que a luta de Gwen para derrotar The Grabber e libertar os espíritos das três crianças que foram mortas pelo assassino seja ainda mais urgente, por conta desse prisma emocional. Ou seja, a injustiça por trás do ocorrido é o que move a personagem e o que agrega peso dramático.

Aqui, o telefone não cumpre somente a função de ser um mero intermediador entre o mundo dos vivos e dos mortos. Dessa vez, há um simbolismo de enfrentamento espiritual acerca do objeto, o que não é ruim, mas anula um pouco do peso e dependência da trama em relação a ele, visto que, agora, o maior “portal” de alertas são os sonhos de Gwen. Ou seja, o telefone preto ainda está presente porque é este o título do filme, não por narrativamente ser o principal condutor que faz a história andar — não mais. O foco de Derrickson agora é trabalhar a questão dos sonhos.

É impossível deixar de notar a visível referência (e até homenagem) ao filme A Hora do Pesadelo, pois The Grabber decide agir invadindo os sonhos — ou melhor, pesadelos — de Gwen, a fim de desestabilizá-la e matá-la para conseguir sua vingança. Pesadelos esses que, quando retratados, assumem uma imagem granulada, escura, com uma textura mais analógica, o que ajuda a contribuir na vibe do crescente suspense, tornando tudo mais obscuro. Aliás, há muito bom gosto na forma em que a mise-en-scène se articula, de forma geral.

Uma das coisas dignas de destaque é a questão do vínculo afetivo entre os personagens ser muito bem trabalhada, repetindo o êxito que alguns outros filmes de terror obtiveram ao explorar as várias camadas que rodeiam a relação de irmã e irmão: Occulus, de Mike Flanagan, é um ótimo exemplo de filme de terror que trabalha bem esse aspecto emocional e, também, o recente Faça Ela Voltar. Seguindo esse mérito, as quase duas horas de duração de O Telefone Preto 2 são bem utilizadas a fim de fortificar essa relação de afeto e importância do espectador com os personagens.

O fato da história se desenrolar num acampamento cristão acaba sendo somente um detalhe alegórico, apenas pincelando um potencial desperdiçado de adentrar numa maior dissecação de cunho religioso — que poderia acrescentar ainda mais camadas ao conflito dos irmãos, mas é algo que nunca sai da superfície. Certos personagens, como o casal crente que gerencia o acampamento, não agregam em quase nada, servindo apenas para gerar algumas cenas de alívio cômico; sobretudo, nos embates de Barbara com a menina Gwen.

O Telefone Preto 2, em suma, é uma sequência que mantém o equilíbrio do longa antecessor e que, assim como o filme de 2021, transita entre apresentar boas ideias de história e de personagens e falhar ao tentar enfeitar demais certos tópicos. O embate final carece de peso, indo inclusive para caminhos mais fáceis  (até “poderzinho” certa personagem ganha, do mais absoluto nada), passando a vibe de que estamos assistindo ao final de alguma série de ficção científica. Mas o filme tem seus bons momentos, possuindo acertos que não são difíceis de se apreciar.


Filme: O Telefone Preto 2
Elenco: Mason Thames, Madeleine McGraw, Ethan Hawke, Jeremy Davies, Demián Bichir, Miguel Cazarez Mora
Direção: Scott Derrickson
Roteiro: Scott Derrickson, C. Robert Cargill
Produção: Jason Blum, Scott Derrickson, C. Robert Cargill
Ano: 2025
Gênero: Terror/Sobrenatural
Sinopse: Agora crescidos, os irmãos Gwen e Finney vão a um acampamento de inverno e lidam com a força sobrenatural do assassino que dá um jeito de retornar às suas vidas com ainda mais sede de destruição.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: Universal Pictures
Streaming: Indisponível 
Nota: 6,0

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