CRÍTICA – O ÚLTIMO AZUL

CRÍTICA – O ÚLTIMO AZUL

O ano de 2025 tem sido bastante generoso com o cinema brasileiro. Quando todos estávamos na expectativa quanto ao país finalmente conquistar o seu primeiro Oscar com Ainda Estou Aqui (Salles, 2024), eis que, uma semana antes do Carnaval, somos surpreendidos com o Urso de Prata conquistado por O Último Azul no 75° Festival de Berlim. O prêmio na Berlinale não apenas reforça a boa fase vivida pelo nosso cinema junto ao público nacional e no exterior, mas  também faz jus às qualidades intrínsecas do road movie “distópico-existencialista” de Gabriel Mascaro, diretor que projetou seu nome graças a obras como Um Lugar ao Sol (2009), Boi Neon (2015) e Divino Amor (2019).

Pertencente a uma geração de cineastas pernambucanos que ousaram levar às telas filmes eivados por temáticas sociais caras ao início do século XXI — não raramente abordadas com nuances representacionais controversas —, Mascaro soube se reinventar como poucos à medida que punha seu trabalho a serviço da problematização do geist da história recente do Brasil. O Último Azul denota isso de maneira potente, mostrando-se como o filme mais maduro do diretor.

Num futuro próximo, as leis do Estado brasileiro determinam que idosos devem se mudar para a Colônia ao completar 77 anos, lugar onde poderiam gozar o merecido descanso após terem dado a sua contribuição à sociedade. Tereza (Denise Weinberg), moradora de uma cidade industrial no coração da Amazônia, não se conforma, no entanto, com a ideia de abrir mão da liberdade que possuía até então, inclusive como trabalhadora de uma fábrica. Com astúcia e disposição de realizar seus sonhos, como voar pela primeira vez, ela se rebela contra tudo e todos e parte em uma viagem que iria mudar sua vida para sempre.

Se o futuro é para todos, como prega o slogan estatal, Tereza decide ela mesma definir os caminhos que seguiria dali por diante, mesmo que, para isso, fosse necessário adotar a clandestinidade como estratégia de manutenção da liberdade. Errante e imprevisível, com direito a reviravoltas, a fuga da protagonista ganha tons existencialistas a partir de encontros com personagens que vão transformando a sua percepção de mundo, possibilitando-lhe vivências inimagináveis. O barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro) dá ensejo a isso, abrindo portas místicas através do caracol da baba azul, símbolo de libertação frente às amarras de um mundo obcecado por lucidez e ordem. Mas é somente após acessar instâncias sociais outsiders que Tereza, em sua jornada de autoconhecimento marcada por andanças fluviais na floresta, encontra a si mesma de maneira pulsante, mediada pela sororidade da missionária Roberta (Miriam Socarrás).

O Último Azul mostra-se bastante eficiente na construção distópica que propõe do Brasil. O filme, naquilo que acerta – com louvor, diga-se de passagem -, acaba servindo de contraponto ao desmantelo caricatural do longa anterior de Mascaro, Divino Amor, em que a distopia encenada repudia a salvaguarda de quaisquer fundamentos dogmáticos da espinha dorsal do protestantismo quanto a costumes e valores ligados à vivência da sexualidade, e, por isso mesmo, não consegue consolidar a ideia de suspensão da descrença em relação à narrativa. Por sua vez, a distopia amazônica agora proposta pelo diretor dialoga fortemente com o passado recente e os dias presentes de nosso país, ainda que de forma difusa; trata-se, portanto, de um futuro indeterminado que lança raízes numa realidade muitas vezes digna de incredulidade, algo que ajuda a fortalecer a plausibilidade ficcional do veículo “cata-idoso” da Polícia Cidadã ou da rinha de peixes betta.

Muito da sustentação narrativa do filme se deve à sua estruturação simultânea como road movie e coming of age da terceira idade, subgêneros que se revelam apropriados para conferir tenacidade e carisma à trajetória de sua protagonista, marcadamente um corpo-emblema de resistência frente aos esforços totalitários de anulação das subjetividades individuais, incluindo seus quereres e desejos mais íntimos. Com inventividade fílmica e uma boa dose de perspicácia e sensibilidade, Gabriel Mascaro faz de O Ultimo Azul não apenas a sua obra mais consistente, mas promove o seu novo longa no panteão dos 10 melhores filmes brasileiros desta década. Um feito e tanto, inegavelmente, ainda mais se levarmos em conta o fato de o cinema nacional estar vivenciando uma de suas fases mais frutíferas de sua história.


Pôster do filme O Último Azul Filme: O Último Azul
Elenco: Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarrás, Adanilo, Rosa Malagueta, Clarissa Pinheiro, Dimas Mendonça
Direção: Gabriel Mascaro
Roteiro: Gabriel Mascaro, Tibério Azul, Murilo Hauser, Heitor Lorega
Produção: Brasil, México, Chile, Países Baixos
Ano: 2025
Gênero: Drama, Ficção Científica
Sinopse: Para maximizar a produtividade econômica, o governo ordena que os idosos se mudem para colônias habitacionais distantes. Tereza, aos 77 anos, se recusa — em vez disso, embarca em uma jornada pela Amazônia que mudará seu destino para sempre.
Classificação: —
Distribuidor: Vitrine Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 8,8

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