CRÍTICA – PÂNICO 7

CRÍTICA – PÂNICO 7

Pânico: o fenômeno do Horror!

Há 30 anos, Pânico (Craven, 1996) era lançado nos cinemas de todo o mundo. Em tão pouco tempo, a obra caiu no gosto do público, surpreendendo pelo seu caráter inovador e um humor extremamente afiado. Surgia então o mais emblemático meta slasher: Pânico utilizava as convenções estilísticas e narrativas de um (sub) gênero bastante popular para estabelecer comentários precisos sobre indústria e cultura. Somando-se a essa proposta inovadora, o filme sintetizava a gramática visual da era MTV (Total Request Live) e logo se estabelece como referência para uma juventude imersa na crescente cultura de locadoras de vídeo , explorando temas como crescimento e sexualidade  sob o pulsar do rock alternativo noventista. A canção Youth of America ascende como um hino geracional para aquele público em formação, operando como síntese sonora de suas angústias.

Para compreender o fenômeno de Pânico, é necessário entender as bases do slasher. Esse é um subgênero do Horror em que o elemento principal é a presença de um misterioso assassino em série, normalmente portando uma arma branca (como facões e serras). Halloween (Carpenter, 1978), A Hora do Pesadelo (Craven, 1984) e Sexta-Feira 13 (Cunningham, 1980) são os exemplos mais famosos e possuem diversas convenções em comum, em que podemos destacar: a final girl; e personagens que tomam decisões imbecis resultando na própria morte ou na fuga do vilão (o famoso “não entra aí” ou “acerta na cabeça, idiota”). A final girl geralmente é uma garota virgem, que chama atenção especial do assassino. Os personagens tolos variam, podendo ir de um valentão a um policial incompetente, ou qualquer outro da história.

No filme Pânico, essas convenções não são apenas reproduzidas, elas ganham uma nova dimensão. Nesse sentido, a final girl não existe somente para seduzir o assassino (e o próprio espectador), ela revida com força contra o vilão. Além disso, o filme explora de forma muito mais inteligente os clichês e as “facilitações” presentes no roteiro. Um caso clássico é o de Ghostface, que precisa escapar diversas vezes para que o filme não dure apenas 20 minutos (É claro!). Seguindo essa lógica, Dewey (David Arquette) interpreta o mal policial. Porém, ele não é ruim só porque o roteiro manda, mas porque é inexperiente e emocionalmente envolvido (o romance com Gale Weathers é sua maior distração). Dewey é incompetente porque ele não foi escrito para a ação: sua natureza não foi moldada para ser um herói!

A final girl também é mais bem contextualizada no primeiro filme da franquia. Todos os personagens suspeitos de serem assassinos representam uma verdadeira ameaça para Sidney: Arthur Himbry é o diretor da escola que se aproveita das alunas; Billy Loomis é o namorado que quer colocar um fim em sua castidade; Randy é um obcecado que não aceita os “foras” da protagonista. Ou seja, o filme é sobre todo um ambiente predatório que cerca Sidney, denunciando a vulnerabilidade feminina — enquanto o slasher convencional apenas explorava a sensualidade como pretexto para a punição em nome do entretenimento. Aqui, a encenação da violência assume uma nuance nitidamente política.

O fenômeno vira franquia!

As sequências, nunca tão boas quanto o primeiro, mas quase sempre divertidas, são marcadas pela escalada da violência, reviravoltas mirabolantes e cada vez mais referências ao cinema de horror – especialmente ao próprio universo. Durante esse processo, a metalinguagem meticulosa, antes expressa em pequenos gestos e detalhes orgânicos da narrativa, deu lugar a uma autoconsciência expositiva que, muitas vezes, soa meramente “espertinha”. Conforme Pânico vai se tornando uma franquia, ele se afasta do seu conceito inicial de realismo psicológico e emancipação feminina, substituindo por um jogo de adivinhação. Quem será o novo Ghostface? Qual a motivação do assassino? Essas questões renovam as possibilidades de entretenimento, mas com cada vez menos substância crítica.

Ainda assim, cabe o questionar: por que Pânico continua bom até o quarto filme? E a resposta mais provável é: Wes Craven. O veterano diretor, que já tinha a experiência de franquia com A Hora do Pesadelo, conseguia transformar premissas nem sempre tão convincentes em filmes que iam de regulares a muito bons, como, respectivamente, Pânico 3 (Craven, 2000) e Pânico 4 (Craven, 2011). A partir do seu senso de humor sombrio e uma boa noção de escala para as cenas de ação, Wes Craven conseguiu manter o vigor da franquia até o quarto filme (que muitos apontam como o melhor, e eu respeitosamente discordo). Entretanto, quando Pânico (Bettinelli-Olpin e Gillett, 2022) é lançado, marcando o retorno da franquia, Wes Craven infelizmente já havia falecido e quem assume é a dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett — e o problema é que a execução deles pouco empolga.

Essa nova fase da franquia inicia com uma promessa de equilibrar o legado clássico à necessidade de conquistar um novo público. Embora bem inferior aos “originais”, o quinto e o sexto filmes apontam caminhos para a renovação, ainda que sob o aguardo de uma direção realmente consistente. Entre acertos e tropeços, entregam boas cenas de violência e um punhado de decisões corajosas, como colocar Dewey na geladeira. Entretanto, a expansão da franquia nunca assume um peso conceitual, sustentando-se tão somente pela autoconsciência de marca: repetição exaustiva de bordões, novos personagens blindados só para aparecerem na próxima sequência e o uso de figuras legadas que soam como fanfics rasteiras — vide o reflexo de Billy Loomis, que aparece como uma espécie de “fantasma da força” em Star Wars.

Pânico 7 (2025): seria o pior da franquia?

Dentro de tudo que foi exposto, Pânico 7 (Williamson, 2026) sintetiza o que há de pior na franquia. Embora a cena de abertura prometa um Ghostface ainda mais implacável, logo esse impacto inicial se revela o único ponto positivo de uma obra com pouco fôlego. Em relação aos filmes anteriores, ainda que a dinâmica da dupla Tara e Sam Carpenter (novamente, nomes que parecem ter saído de uma fanfic) nunca tenha sido bem explorada, acredito que a franquia retrocede ao trazer novamente Sidney Prescott como protagonista, descaracterizada, acompanhada de mais uma filha. E o pior: apostar todas as fichas em um drama familiar clichê, enquanto ignora que o melhor sempre esteve no “jogo” metalinguístico e no diagnóstico cultural — seja sobre o cinema, a internet ou tecendo comentários sobre o próprio fandom de Pânico.

Ao concentrar a sua atenção sobre o roteiro — que nunca foi o pilar de coerência da franquia com exceção do original de 1996 —, Pânico 7 comete um erro estratégico: expor a fragilidade da sua premissa. O filme nos obriga a tolerar uma sequência de eventos narrativos absurdos, que vão de explicações desnecessárias (por que nunca tínhamos ouvido falar de Tatum?) a coincidências tolas, como Gale atropelando de forma conveniente o Ghostface em sua enfadonha entrada “triunfal”. Tudo isso imerso em um suspense vazio ancorado na volta de um personagem icônico: Stu Macher está vivo ou é apenas Inteligência Artificial? Há tanto empenho da produção em reunir os atores dos clássicos novamente, mas ela ignora o “como” fazer isso bem feito.

Dentro dessa confusão, um conflito em particular que causa estranhamento é a volta dos embates entre Sidney Prescott e Gale Weathers. As duas personagens já entraram em confronto diversas vezes na franquia, e a figura de Gale servia como o suporte para uma crítica à mídia sensacionalista que explorava o trauma de Sidney – assim como um conhecido programa jornalístico da nossa televisão aberta. Entretanto, depois de enfrentarem tantas coisas juntas, as ambições da Gale, em Pânico 7, soam extremamente vazias, chegando ao ponto de dispensar a sua presença — que não serve nem como um acessório barato.

Além dessa deficiência de origem narrativa, há um grave problema de ordem estética. Como mencionei, o clássico possui uma identidade visual densa que definiu um conceito inédito de realismo para o cinema de horror. Enquanto isso, Pânico 7 transborda um estilo totalmente asséptico (clean) e minimalista, incapaz de transmitir a atmosfera e o impacto de horror causados pelo Ghostface. Seguindo essa lógica, a obra sucumbe à uma concepção visual genérica e padronizada, herdada dos dois filmes anteriores.

Embora as deficiências estéticas fossem evidentes, o histórico da franquia — especialmente em Pânico 6 (Bettinelli-Olpin e Gillett, 2023) — nos ensinou que independente da qualidade da obra, a revelação final seria impactante. Porém, pela primeira vez, essa “regra” é rompida e o desfecho é extremamente frustrante. Essa foi a “última facada” (rs) para os entusiastas da saga, que vinham tolerando a decadência conceitual e a ausência de um diretor que realmente compreendesse o terreno onde pisa. Se no filme original a identidade do Ghostface carregava um forte peso social e, nas demais sequências, motivações pessoais íntimas, em Pânico 7, a revelação do assassino assume um caráter arbitrário, sem integração real à narrativa.

A impressão que fica é que Kevin Williamson explora muito pouco a estética do horror em favor de um drama que não funciona, mudando drasticamente o tom da franquia e deixando o público órfão daquela energia que estamos acostumados — infelizmente, essa é a consequência de entregar a direção na mão de um roteirista. No fim das contas, o filme parece mais preocupado em explicar o seu universo do que em filmá-lo, privando o público do bom e velho “faca amolada e gritaria”.

 

Pôster do filme Pânico 7 Filme: Pânico 7
Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, Isabel May, Jasmin Savoy Brown
Direção: Kevin Williamson
Roteiro: Guy Busick, Kevin Williamson
Países: EUA
Ano: 2026
Gênero: Suspense, Terror
Sinopse: Sidney Prescott é forçada a sair de seu isolamento quando um novo Ghostface começa a caçar os sobreviventes originais. Desta vez, nem mesmo a “Final Girl” está a salvo.
Classificação: 18 anos
Distribuidor: Paramount Pictures
Streaming: Indisponível
Nota: 2,5

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