CRÍTICA – PATERNO

CRÍTICA – PATERNO

Quando o assunto é a perversidade da máquina capitalista pelas indústrias de engenharia, poderíamos esperar por um enredo em que acompanhamos as vítimas desse processo insidioso de especulação imobiliária. Contudo, em Paterno, novo filme do pernambucano Marcelo Lordello (responsável também pelo maravilhoso Eles Voltam, de 2012), temos a inversão dessa expectativa, já que os vilões são os próprios protagonistas; isto é, meros representantes da máquina predatória, corrupta e desumanizante que vem devorando grandes cidades da América Latina.

Por anos, Recife contou com o movimento Ocupe Estelita, que propunha a revitalização de uma vasta área de fábrica e estação ferroviária abandonada com vista para o Rio Capibaribe, próximo ao bairro do Recife “Antigo”, como um espaço público e acessível para toda população. Apesar das batalhas, a área foi leiloada pelo Estado à preço de banana para a construtora Moura Doubeux que, em uma jogada de lucro exorbitante, subiu arranha-céus privados luxuosos nos quais o empreendimento mais barato tem valores acima de $1,5 milhão.

O bairro de Brasília Teimosa (que tem vista direta para o Cais Estelita, cortados pelo Capibaribe) é famoso por sua enorme comunidade e acesso às praias (sim; de um lado rio, do outro, o mar). É nesse contexto que a fictícia corrupta construtora de Sérgio, um frustrado arquiteto de meia idade, planeja subitamente comprar diversas residências de moradores para a construção de um novo Resort. Herdeiro de um Império ganancioso, Sérgio tinha tudo para seguir um caminho diferente. “Tu era artista” – diz certa vez seu irmão, este sim, imerso nos esquemas da “familícia”. Mas, subordinado à continuidade do jogo, ele cede seus ideais e se vende, sabendo da impunidade.

Elegante esteticamente e musicalmente brilhante, numa decupagem clássica no melhor sentido, revelam-se aos poucos detalhes cruciais para que entendamos um pouco do passado e das frustrações de Sérgio, vivido pelo incontestável Marco Ricca. Como, por exemplo, a ideia dele de fazer com que o Resort tenha um ar mais urbanista e inovador, com uma vasta área de convivência (apenas não explicitada se seria pública), até a negação por parte de seu irmão, que, em meio às tantas tratativas ilícitas e sigilosas, ordena que algo mais discreto e direto seja feito visando apenas o lucro rápido.

Outro ponto em que se ganha camadas aos poucos é quando Sérgio repara que seu filho adolescente passa a ouvir, por conta própria, Chico Buarque, Belchior e outros brasileiros, remetendo à sua época quase-artística e na subsequente descontinuidade desta. Contudo, a porta fechada do quarto de Thomás, e seu alienador fone de ouvido quando seu pai o leva de carro para o colégio, ilustram bem a barreira que existe naquela relação paterna. Algo que o próprio Sérgio herdou junto com a empresa de seu pai, que, hospitalizado, gera uma das cenas mais impactantes do longa quando o vemos intubado na UTI.

Na casa de sua mãe, uma mulher preconceituosa e orgulhosa pela empresa que o marido criou, um segredo e uma porta trancada: antes de arrombar o escritório do pai, Sérgio pergunta à mãe se há algo não revelado que possa prejudicar a reputação da empresa, o que é estranhamente negado. No cômodo “secreto”, revela-se a coleção de vinis dos mesmos álbuns ouvidos por seu filho. Alguns rasgados, como se representassem espírito mais social e cultural que foi apagado dentro de Sérgio.

Em meio a cenas análogas à máfia, como entrega de envelopes na calada da noite, e à perspectiva alta e elitista na câmara dos vereadores do Recife, o interessante personagem do grande Thomás Aquino, filho de um dos populares de quem Sérgio tenta comprar a casa, visando destruí-la para a construção do Resort, surge com uma contradição moral pertinente: ele aceita a compra, após cobrar um valor alto e ter seu acordo aceito, e ainda oferece serviços de “laranja” para convencer outros a também venderem – recebendo comissão de 1/5 das unidades. Ainda que precise se abaixar para não ser reconhecido quando dentro do carro de Sérgio, ele aparenta achar que valeu a pena, afinal, pobre sim, mas esperto também. Já que o sistema não vai mudar mesmo porque não se aproveitar e ajudar sua família com uma parcela do lucro dos crimes “invisíveis” da elite?

Com um ritmo cadenciado, mas sempre se mantendo intrigante e respeitando a inteligência do espectador, Paterno está mais nas entrelinhas do que aquilo que é mostrado em tela. Ou melhor, ao que não é explicitado. Sérgio anda em carro blindado, isso não apenas mostra a desconfiança que vive por conta de suas ações ilícitas, mas o enjaula. Visita a periferia, onde trata os moradores como chance de lucrar por cima, e está lá apenas como um invasor deslocado, separado pela grossa espessura do vidro blindado. Tudo isso ao passo que o espectador mais atento pode entender que, em alguma instância, ele não gostaria de estar ali. É como se, no fundo, ele soubesse do peso de suas ações contra o tecido mais vulnerável da sociedade, mas vestisse um véu de frieza que é o verdadeiro crachá de sua profissão sangue-suga. Tão lobotomizado que se mostra intocável a respeitar a decisão da “amante” do pai, uma arquiteta, ativista social e professora negra que decidiu não mexer nesse campo minado. E, ironicamente, num plano sequência na UFPE, ele a segue, como se buscasse imitar seus passos, enquanto contempla o verde e o brutalismo da arquitetura da universidade.

Num jantar, discute-se o trânsito causado por um protesto. Protesto este, dos moradores de Brasília Teimosa. E, ao ouvir alguém defender o direito dos populares de protestar, Sérgio surta. Num aspecto social geral, ele é o vilão e pronto. Mas numa investigação da psique, será que esse surto condiz mesmo com o que ele realmente sente? Acontece que, nesse plano, nem ele mesmo saberá. Anestesiado e desacreditado com seus sonhos perdidos, nem mesmo seu filho o atura mais, quando, após um momento tentando dirigir seu próprio caminho (a família deseja que ele refaça o caminho paterno), abandona tudo e sai a pé. E, mesmo sozinho, não há brecha para pensar quando diversas buzinas lhe atordoam imparavelmente ao mesmo tempo.


Pôster do filme Paterno Filme: Paterno
Elenco: Marco Ricca, Selma Egrei, Fabiana Pirro, Thomás Aquino, Nelson Baskerville, Guga Patriota
Direção: Marcelo Lordello
Roteiro: Fabio Meira, Marcelo Lordello
Produção: Brasil
Ano: 2025
Gênero: Drama
Sinopse: Sérgio (Marco Ricca) é um arquiteto que se vê dividido entre manter o legado do pai e manter o contato com seu filho, que está prestes a se tornar adulto. Sérgio está envolvido em um grande projeto imobiliário em uma área popular do Recife, mas precisa enfrentar a resistência dos moradores para alcançar seu objetivo.
Classificação: Livre
Distribuidor: ArtHouse, Filmes do Estação
Streaming: Indisponível
Nota: 9,0

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