CRÍTICA – PREDADOR: TERRAS SELVAGENS

CRÍTICA – PREDADOR: TERRAS SELVAGENS

É sempre uma experiência pensar em novos longas-metragens que envolvem a figura do Predador. Sendo um marco no imaginário da cultura pop, quem testemunhou não consegue esquecer o primeiro contato com tanta testosterona tal qual O Predador (1987). É belissimamente composto, conseguindo sem quase nenhuma exposição, construir uma criatura e gerar intrigas de curiosidade por querer entender melhor seu funcionamento, cultura e etc., sem adentrar no tópico que envolveu seu visual, afinal é de tamanho primor estético que conquista através do impacto. Usando e abusando de elementos gore, é intrínseca aos primeiros títulos da franquia essa correlação com mutilações, emboscadas e um protagonista que se vê a cada novo segmento narrativo encurralado pelas artimanhas do Predador.

A jornada dessa criatura nas telonas é cheia de altos e baixos. Sua continuação de 1990 é um pouco fria comparada com a anterior; após isso, temos o famoso Alien Vs Predador (2004) de uma época em que era popular essa espécie de títulos em que figuras icônicas eram colocadas para uma enfrentar a outra. Daí em diante, não houve títulos marcantes e, no máximo, indiferentes ou, no mínimo, medíocres.

Dan Trachtenberg vem lidando com os títulos que envolvem esse “monstro”, nos dias atuais, fazendo um trabalho que redimiu a identidade da criatura e essa relação com filmes de qualidade questionável — Predador: A Caçada (2022) é um título que, para os entusiastas, vale muito a pena ser assistido; afinal, subverte certas convenções narrativas e a própria expectativa, pois é uma trama que é situada em uma América do Norte no início de sua colonização com uma indígena sendo a protagonista da caçada, sem esquecer todas as problemáticas sociais que seu texto trabalha com maturidade para lidar com o machismo da sua cultura originária e a inteligência das artimanhas da personagem principal para derrotar o principal caçador da galáxia.

Com um grandioso acerto em seu currículo promovendo um ressurgimento do Predador como uma potencial porta de lucratividade e reconquista do público antigo, vem um novo título que pode ser, no mínimo, polêmico, pois aqui todos os aspectos de seu antecessor são abandonados e é jogada uma aposta segura em sua proposta narrativa e textual. Funciona para um novo público? Provavelmente. Funciona para o público velho? Talvez. E qual é sua inovação? Bom… Tem alguma? Algo parece faltar e vamos juntos aqui tentar encontrar qual peça ficou para trás.

Desde pequeno tinha sempre a ânsia de ver um filme em que tivéssemos contato com a cultura original dessa criatura, ou até mesmo uma narrativa em que eles protagonizassem a história, pois sempre foi um ponto de extrema curiosidade e com certo potencial narrativo realmente interessante. Com as tendências atuais finalmente foi executado um texto que abraçou essa proposta… Mas, não da melhor maneira, é conflituoso e complexo.

É válido ressaltar que, em aspecto de ação, não há o que criticar, com sequências criativas e efeitos especiais críveis ao tratar os perigos do planeta Genna, em que nosso protagonista tem o objetivo de consolidar a caçada de uma criatura lendária para finalmente ser aceito enquanto membro de seu clã e merecedor do título de Predador. Genna tem uma exposição interessante de potenciais ameaças; suas espécies, plantas, cenários e paisagens que serão desafiadoras para o protagonista. Há um delicado design de criaturas e sem uma contínua exposição de como elas funcionam. Aparecem, são intituladas, seus funcionamentos entendidos em poucos segundos pelo próprio visual e é isso. Partimos para a ação. Não tem firulas ou enrolação no que envolve essas sequências, havendo um ritmo bem intercalado entre momentos expositivos, diálogos, calmarias e perseguições, explosões e lutas bem coreografadas. Há uma mescla crível entre efeitos digitais e efeitos práticos, o que denota um cuidado atencioso para integrar as duas camadas de interação a todo momento no filme, com ensaios e movimentações que enchem os olhos, pois a câmera sabe onde focar.

A direção de fotografia brilha em alguns takes na composição de cenários, havendo belíssimos visuais desses planetas distantes, promovendo um world-building que situa verossimilhança para o público e nos conta a história sem necessidade de um narrador ou uma exposição de personagem que venha a complementar aquilo que está sendo mostrado. Mérito do roteiro nesse ponto, não tratando seu público com certa ingenuidade e entendendo uma estratégia que grande parte dos blockbusters atuais parecem ter esquecido — mostrar sem falar. Não é disso que se trata o cinema?

Em termos da narrativa macro, esse filme é conectado com a franquia Alien — o já havia sido feito antes, mas dessa vez ficou bem mais óbvio, ainda mais com toda a popularidade que a figura do xenomorfo vem ganhando pelo lançamento de Alien: Romulus (2024), que tem crítica aqui no site também, e da série recente Alien: Earth (2025). Não é somente o Predador que está caçando no planeta, onde encontramos a Weyland-Yutani, corporação famosa do universo Alien, marcando sua presença aqui com seus interesses capitalistas galácticos e suas pesquisas maléficas justificadas pelo interesse científico sem moralidade alguma. Há um centro de sintéticos enviados pela Weyland devido ao alto fator de risco por conta das criaturas e do próprio bioma do planeta Genna. Nosso protagonista será auxiliado por uma sintética, Thissa, interpretada por Elle Fanning, que faz duas personagens que são o espectro oposto uma da outra.

Naquilo que a personagem tem em sua proposta, ela cumpre muito bem ambos os papéis, afinal os problemas de texto vão para além de sua interpretação, que é coesa e em total sentido naquilo que é visionado pelo roteiro e narrativa. Ela convence e consegue transparecer diferenças bem claras entre as personagens que busca dar vida mesmo sendo androides que, teoricamente, não deveriam possuir certa independência. Foram desenvolvidas com certas capacidades extras além dos sintéticos normais em prol dos interesses da corporação em capturar os espécimes raros e perigosos do planeta Genna.

Aqui é o ponto-chave para compreendermos o porquê de tal título ter deixado um certo retro gosto não muito prazeroso e confuso, com pitadas de um sabor que não ficou muito bem digerido. E talvez em específico para um crítico que aqui fala com vocês pela ótica de ser entusiasta dos títulos antigos da criatura, em específico do título clássico e até mesmo de suas sequências não tão gloriosas e recheadas de falhas.

Predador: Terras Selvagens visa conquistar um novo público e em específico a nova geração que está indo aos cinemas. Por conta disso, seu roteiro toma certas fórmulas que já estão exaustivas. Prepare-se para o famoso e clichê humor Marvel, em que há aquele alívio cômico que se manifesta no diálogo, com quebras de expectativas momentâneas e trocadilhos bobos. Interações que soam contrastantes com o que já fora consolidado pelas obras anteriores, não sendo lá muito originais e gerando certo apelo popular, quase parecendo um sussurro de: me aceite, goste de mim, olha como sou legal. E isso puxa o aspecto mais desafiador e que também segue uma tendência – vamos humanizar essa criatura? E se fôssemos explorar um lado menos brutal e entender os sentimentos do Predador? Então, o caminho para conseguir justificar essa figura enquanto protagonista, para além de seu lado de predar outras criaturas e brutalizar aqueles que ousam desafia-lo, é colocar um plot narrativo humano, espelhando conflitos clichês já testemunhados em inúmeras narrativas.

Vamos, então, para além dessa criatura binária, de uma face única e misteriosa, explorando seu “eu” interno. Nosso protagonista é considerado “pequeno” para as proporções médias da espécie e, desde sua primeira aparição, não sendo um exemplo de força, tática e desempenho físico diante de seu irmão. Olha lá! Laços familiares — afinal, mesmo sendo figuras solitárias que saem pela galáxia caçando adversários, eles têm outros, eles têm seus clãs com códigos estritos da espécie e seu funcionamento… Mas nosso protagonista é uma exceção. Ele possui sentimentos coletivistas, tem um apelo emocional pelo irmão mais velho, o qual também tem considerações emocionais pelo mano mais jovem — algo que é visto como fraqueza pelo pai, uma figura tradicional que segue restritamente os códigos morais e éticos de sua espécie. Está colocada a fórmula perfeita: o personagem mais novo, que deveria ser morto pelo mais velho seguindo as regras desse universo, não é executado pelo irmão; esse em questão desafia as ordens do pai permitindo a fuga do nosso protagonista, que testemunha com os próprios olhos o progenitor executar o irmão por que ele tem tanta afeição. Sua missão agora tem um valor emocional, não é só caçar para se provar digno do manto de invisibilidade, mas se provar capaz de vingar o próprio irmão que morreu pelas mãos de seu pai.

É… Não sabia que esse nível de clichê shakesperiano havia chegado em planetas tão distantes da galáxia. Não que não seja palatável ou convincente, mas é uma aproximação das questões humanas que pressupõe uma universalidade desses questinomantos que beira a literalidade. O protagonista, então, irá descobrir aquilo que é chamado de empatia, companheirismo e coletivismo, contrapondo-se à visão individualista de seu povo originário. Logo, é uma humanização. Poderia muito bem ser uma piada irônica; o Predador ser humanizado beira ao inacreditável, pois todas as características que o consolidaram no imaginário popular são completamente apagadas em prol de uma identificação com o personagem para transforma-lo em um herói. Uma desconstrução em prol de um encontro com um público mais novo e, talvez, com alguns interesses de capital na venda de produtos derivados dessa nova identidade da franquia.

Outro sacrífico é a violência visual, que é repaginada para uma maior receptividade de público. Há desmembramentos? Com certeza. Ossos quebrados também. Sangue? Artificial, os seres humanos do filme são sintéticos, usa-se e abusa-se daquele “sangue branco” que sai de seus corpos. Ainda testemunhamos outras criaturas sendo cortadas ao meio, colunas vertebrais sendo expostas, porém, não há aquela glorificação visual da violência e ela está longe de impactar o público como antigamente, pois aqui não somos nós que estamos sendo caçados pelo predador. Esse discurso humanizador da narrativa, que acaba refletindo na própria Thissa (o famoso androide que desenvolveu sensibilidade para além daquilo que foi programado), é bem clichê e já foi testemunhado em quantas outras obras… É uma descaracterização daquilo que estava consolidado antes, talvez um passo inovador para tentar dar uma respirada em novos ares para a identidade criativa que é o Predador?

Daí vem o conflito, pois é uma visão enviesada pela concepção de alguém que teve contato com a criatura antes dessa nova versão. Por mais que possamos argumentar em torno das possíveis justificativas do mercado para tornar a figura mais rentável e consumida por um público menos nichado, talvez seja interessante ver ela cair nos braços da nova geração mesmo sacrificando aquilo que a fez famosa antigamente. Talvez seja somente saudosismo de quem amou testemunhar um duelo icônico entre o Predador e Arnold Schwarzenegger no título clássico banhado em muita violência e testosterona extrema. É um novo diálogo e reflete as tendências imagéticas e estéticas da nova geração que vai aos cinemas e consome narrativas. O que resta é o próprio tempo para ditar os rumos dessa criatura, pois tudo indica que não é o último título com esse protagonista; em seus créditos finais — pasmem —, haverá uma continuação dessa grande novela de vingança e conflitos familiares. E estaremos lá, sentados nas poltronas do cinema testemunhando, por bem ou por mal, os futuros narrativos que serão tomados…


Filme: Predator: Badlands (Predador: Terras Selvagens)
Elenco: Elle Fanning, Dimitrius Schuster-Koloamatangi, Ravi Narayan, Michael Homik
Direção: Dan Trachtenberg
Roteiro: Dan Trachtenberg, Patrick Aison, Jim Thomas
Produção: Estados Unidos
Ano: 2025
Gênero: Ação, Terror, Thriller
Sinopse: Um jovem predador marginalizado de seu clã encontra um aliado improvável em sua jornada em busca do melhor adversário.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: Walt Disney Studios Motion Pictures
Streaming: Indisponível
Nota: 6,5

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