O ano de 2025 sem dúvidas foi promissor para o terror, com muitos lançamentos surpreendentemente bons. Infelizmente, não é caso do filme Rosario, que é só mais um longa genérico e esquecível. Isso porque a direção inexperiente de Felipe Vargas nem ao menos tenta trazer algum tipo de inovação ou frescor ao gênero – a aposta fica em desenvolver toda a problemática da história praticamente numa só ambientação: um apartamento isolado, “largado às traças”. E esse não é nem de longe um dos problemas do longa; a questão é como a trama anda em círculos por conta de uma direção nada criativa – e roteiro, menos ainda. O entretenimento logo é substituído por aborrecimento.
Há vários exemplos de filmes de terror filmados em único espaço, que aproveitam essa proposta de limitação de cenário para explorar ainda mais as noções desconfortáveis de enclausuramento, desespero e urgência; como Enterrado Vivo (Cortés, 2010), o não tão conhecido e ótimo found footage Deadstream (Winter e Winter, 2022); e até mesmo o queridinho A Autópsia de Jane Doe (Øvredal, 2016), que particularmente não gosto tanto, mas que, apesar da repetição, consegue trabalhar uma certa atmosfera de tensão. No caso de Rosario, ao invés desse fator ser um chamariz, acaba sendo uma decisão criativa que faz o filme derrapar em praticamente todos os “próximos passos”.
É uma constante repetição de ideias e planos fracassados por parte da protagonista, além de diálogos bobos e mal escritos; seja em relação à interação dela com outros personagens, ou, pasmem, de falas que ela tem consigo mesma praticamente o tempo todo, em voz alta – entre vários outros artifícios que somente empobrecem gradativamente a experiência. Aliás, ela tentar solucionar a situação enquanto fala umas frases que eram para soar engraçadinhas e acaba equivalendo ao humor da Marvel que, quando falha, chega a constranger.
É quase inevitável comparar a proposta geral do filme com o divisivo Arraste-me para o Inferno (Raimi, 2009). Isso porque Rosario também tenta trazer um gore escatológico a cada oportunidade, além de tentar estabelecer um teor cômico que, diferentemente de Arraste-me, definitivamente não encaixa, por não haver lógica tonal. Quando algo minimamente tenso está em cena, surge uma fala ou gesto que praticamente implora pela risada do espectador; risada essa que até pode acabar surgindo mesmo – por vergonha alheia, por indignação ou, até mesmo, por raiva… por tudo, exceto porque a sacadinha de humor de fato funcionou.
Também fica difícil de “comprar” as motivações de uma protagonista de carisma praticamente nulo. A atriz Emeraude Toubia entrega uma performance razoável, nada além disso, pouco capaz de nos fazer simpatizar pela luta de Rosario – a de reverter aquele mal ligado a tradições ancestrais. Aliás, um dos únicos pontos interessantes da trama é esse: o intermédio da personagem entre sua realidade moderna e a espiritualidade. Uma pena isso não ser suficiente para alavancar o longa, que ameaça trazer algo diferente, mas não avança em nada.
Logo, dá para contar nos dedos de uma única mão os bons momentos de Rosario. Talvez também seja louvável a coragem em trazer certas cenas de fato nojentas, que conseguem tirar algumas caretas do espectador pela repulsa, já que, em peso dramático e “vibe terrorífica”, o filme é completamente apático. A fotografia escurecida, com tons alaranjados, também é um dos poucos elementos que funcionam bem aqui. Ao menos a estética obscura ajuda a impulsionar um tiquinho de sentimento de tensão.
Os poucos personagens de apoio são basicamente irrelevantes. O vizinho de Rosario, inclusive, é uma das maiores contradições do longa, já que o filme não se decide entre retratá-lo mais como um artifício que provoque suspense e mistério, ou para ser um alívio cômico. É um personagem tão mal escrito que compromete até a atuação do excelente David Dastmalchian. O quanto ele está atuando bem lá em Entrevista com o Demônio (Cairnes e Cairnes, 2024), está pessimamente em Rosario. Vale mencionar que há uma subtrama envolvendo esse personagem, que mais tarde vem como uma espécie de “sub plot twist“, envolvendo – pasmem, novamente – uma air fryer. Isso mesmo que você leu: uma AIR FRYER. Enfim. O que é ridículo por si só, finaliza da maneira mais ridícula ainda possível.
Em suma, o longa não consegue alavancar sua proposta sombria de nenhuma forma, a não ser pelos elementos imagéticos escancarados. O filme até tenta brincar de ser profundo, mesmo sendo mais raso que um pires, ao trazer uma proposta de crítica e reflexão sobre identidade familiar, religião afro-latina e cultura, mas fracassa no quesito impacto, visto que, à essa altura, nenhuma carta na manga acaba sendo suficiente para justificar tamanha pataquada que temos o desprazer de acompanhar por uma hora e meia.
No fim, Rosario é só mais um lançamento genérico de terror, desses que somente serve como uma opção rápida de entretenimento duvidoso quando o cinema está em semana promocional (exatamente como foi o contexto de sua estreia nas telonas), ou uma opção aleatória para assistir com os amigos no final da noite num catálogo de streaming qualquer — mas para rir de incredulidade. Se a ideia for sentir temor, daí fica a dica de buscar algum outro filme mais efetivo para isso.
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Filme: Rosario Elenco: Emeraude Toubia, David Dastmalchian, José Zúñiga, Paul Ben-Victor, Diana Lein, Constanza Gutierrez, Emilia Faucher, Guillermo García Direção: Felipe Vargas Roteiro: Alan Trezza Produção: Colombia, EUA Ano: 2025 Gênero: Terror Sinopse: Rosario, uma bem-sucedida corretora de Wall Street, volta ao apartamento de sua avó após sua morte. Impossibilitada de sair devido a uma forte nevasca, ela terá de enfrentar uma força maligna ancestral, fazendo sua vida e compreensão da realidade serem desafiadas. Classificação: 16 anos Distribuidor: Imagem Filmes Streaming: Indisponível Nota: 4,0 |

