CRÍTICA – SALÃO DE BAILE: THIS IS BALLROOM

CRÍTICA – SALÃO DE BAILE: THIS IS BALLROOM

Quando pensamos sobre um documentário que retrata a cena ballroom, automaticamente pensamos em Paris is Burning!, não é? Entretanto, Salão de Baile se revela mais do que um simples Paris is Burning! tupiniquim, sendo um registro histórico da resistência, da identidade e da subversão dentro de um espaço onde corpos, gêneros e performatividades encontram sua máxima expressão aqui no Rio de Janeiro. O filme, ao construir um olhar sobre a cena carioca de bailes, transita com propriedade entre o histórico do movimento e a realidade atual, situando os bailes no Brasil, em especial no Rio de Janeiro e arredores, como uma extensão autêntica de uma cultura originária da diáspora africana e das periferias americanas. Não à toa, o filme está conquistando a cena de festivais do Brasil.

A história da ballroom, com seu nascimento nos Estados Unidos e a contribuição fundamental de figuras como Crystal LaBeija, é comumente retratada como uma cultura de resistência das comunidades LGBTQ+ negras e latinas, surgida como resposta ao racismo e à homofobia, especialmente no contexto da década de 1960 em Nova York. Crystal, ao fundar os primeiros bailes voltados para queens negras, criou um espaço de celebração e afirmação para aqueles que estavam à margem da sociedade e do mainstream. Este é o ponto de partida para o filme, que, ao trazer esse legado para o Brasil, não só revela como o movimento encontrou um novo lar nas periferias cariocas, mas também como ele se transformou e ganhou características próprias, sem perder sua essência de rebeldia e resistência. A forma como eles retratam esses momentos históricos visualmente, inclusive, é linda.

Em um contexto global, onde a cultura queer sempre foi tratada com uma certa exotificação, Salão de Baile é subversivo ao transitar por essas questões de uma maneira profunda e ao mesmo tempo leve. A proposta do filme é mostrar como a cena ballroom, ao ser registrada de maneira lúdica e acessível, serve de plataforma para o empoderamento de corpos dissidentes – travestis, drag queens, pessoas não binárias e outros indivíduos dentro do espectro queer. A inclusão de um glossário, que desmistifica categorias e técnicas do baile para o público leigo, é uma escolha inteligente, ajudando a derrubar a ideia de que o universo do ballroom é um mundo à parte, inacessível e exótico.

Ao explorar as categorias e as complexas regras que regem os bailes, o filme também se utiliza de uma pedagogia do pertencimento, ensinando o espectador a enxergar as performances não apenas como uma diversão, mas como um ritual de afirmação e resistência. A necessidade de pertencimento, seja para obter aceitação ou desafiar normas sociais, é central para a narrativa. Cada performance dentro do salão é uma reinterpretação do corpo, um ato de resistência e um gesto de empoderamento. No entanto, como o filme bem aponta, essa busca por pertencimento também traz suas contradições. A comunidade ballroom, assim como qualquer outra, reproduz padrões, julgamentos e expectativas, e é nesse ponto que o documentário atinge um tom mais crítico: ele não idealiza a cena, mas a apresenta em sua totalidade, com suas luzes e sombras.

Um dos aspectos mais fascinantes do filme é como ele transcende a noção de ser “apenas” um documentário sobre o ballroom, para se tornar um comentário sobre os corpos e identidades marginalizadas, sobre a performatividade e os modos de existência que divergem das normas sociais.  Isso tudo enquanto intercalam com as cenas de performance, que são estonteantes. A questão da apropriação cultural, mencionada em relação a Madonna e sua utilização do voguing, é uma crítica sutil e necessária. Embora o clipe de Madonna tenha amplificado a visibilidade do ballroom, ele também levantou questões sobre o reconhecimento e a compensação para os criadores originais dessa cultura. O filme, ao apresentar as experiências de figuras históricas dentro da cena carioca, coloca em perspectiva como a cultura queer se insere no cenário global, ao mesmo tempo que a localiza como um fenômeno de resistência e afirmação da identidade na periferia carioca.

Salão de Baile se afasta da representação do sofrimento e vulnerabilidade frequentemente associada aos grupos marginalizados e, ao invés disso, foca no prazer, na força e na complexidade dessa comunidade. Em lugar do estereótipo do “sofrimento” negro e queer, o filme opta por capturar a resistência lúdica, a alegria e a beleza das performatividades que se tornam atos de subversão. Isso torna a obra não só um tributo à cultura ballroom, mas também um reflexo das transformações sociais e culturais que a cena vivencia ao ser apropriada e transformada no Brasil.

Ao longo do filme, acompanhamos uma transição de entendimento e de posicionamento, desde o espectador leigo até a compreensão mais profunda do que significa viver e se expressar em um mundo que constantemente marginaliza. O filme não só educa, mas também provoca, desafiando o público a repensar os conceitos de identidade, pertencimento e resistência. O documentário, ao explorar essas questões de forma tão autêntica e vibrante, é um testemunho do poder das cenas culturais periféricas, sendo um lembrete de que, onde o mainstream vê excentricidade, a comunidade vê celebração e autonomia.

 Salão de Baile é um espelho de uma sociedade que, no espaço de um salão de baile, encontra sua verdadeira liberdade. Para além de uma referência de uma subcultura norte-americana, criou-se uma cultura própria. E isso é, sem dúvida, o que torna este filme uma obra tão poderosa e relevante.


Filme: Salão de Baile: This Is Ballroom
Elenco: HOUSE OF ALAFIA, HOUSE OF BLYNDEX, HOUSE OF BUSHIDö, HOUSE OF CABAL ROYAL PIONEER KIKI, HOUSE OF CAZUL, CASA DE COSMOS, CASA DE DANDARA, CASA DY FOKATRUá, HOUSE OF IMPéRIO, CASA DE LAFFOND, HOUSE OF MAMBA NEGRA, HOUSE OF RAABE ,007S
Direção: Juru e Vitã
Roteiro: Juru e Vitã
Produção: Brasil
Ano: 2024
Gênero: Documentário
Sinopse: Na cidade do Rio de Janeiro e arredores, a juventude LGBTQ+ recria a cultura Ballroom nos seus próprios termos. Um retrato dos dramas, das performances de voguing e da arte do shade, 50 anos depois do seu início em Nova Iorque. Rio is burning!
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Retrato Filmes
Streaming: Não disponível
Nota: 9,5

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